Roland Ratzenberger disputou uma únicacorrida na Fórmula 1. Pegou tudo o quetinha juntado emquatroanos no florescenteautomobilismojaponês e comprou uma vaga na equipe Simtek para a temporada de 1994. Não conseguiu se classificarpara a largada do GP do Brasil, mas terminou a etapaseguinte, o GP do Pacífico no circuito de Aida, em 11° lugar. Eraumhomem vivendo seusonho, interrompido de formabrutal no acidente de quinze anosatrásem Ímola.
O quemaisme impressiona em Ratzenberger é o carinho demonstrado porseuscolegas de pista do tempoemque esteve no Japão. Heinz-Harald Frentzen afirma ter tido suavidasalvapelo austríaco numa briga de barem Tóquio. O alemão foi tirarsatisfaçõescomumsujeitoque destratava suacompanheiraquandoeste tirou uma faca do bolso e partiu paracima. Foi Roland quem o desarmou comummovimentoágil e decidido.
O finlandês Mika Salo até batizou um de seusfilhos de “Roland”. Em 2004, deu o seguintedepoimento. “Me chateia o fato dele ser o homem esquecido, sempre à sombra de Ayrton. É claroqueeunão digo isso de maneiradesrespeitosa, mas acho tristeque muitas pessoas esquecem dele. Era uma grandepessoa e umgrandeamigo. O importante é quenós, seusamigos, nunca o esqueceremos”.
A turma de Ratzenberger também é unânimeemafirmarqueeleera o sujeitoquemais atraía a mulherada. Teve umcasamentorelâmpagocom uma aeromoça norueguesa, cujomaiorarrependimento foi o de ter jogado forasuaagendacom o telefone de dezenas de mocinhas. Quando comenta sobre o funeral de Roland, Gerhard Berger faz uma observaçãocuriosa: “nunca vi tantamulherbonita no mesmolugar”.
O teto determinado pela FIA de 40 milhões de libras anuais deve atrair uma série de novos nomes para a Fórmula 1: USGPE, Lola, iSport e por aí vai. Para se ter uma idéia, este valor é cerca da metade do que será gasto pela Force Índia neste ano. E ainda implica em uma série de vantagens esportivas: testes ilimitados, motores sem limitação de giros e até mesmo incentivos econômicos no transporte de material (cortesia do senhor Bernie Ecclestone). Inclusive, o limite do grid foi ampliado para 26 carros, o que permitiria entrada de três novas equipes no ano que vem.
Mas a crise econômica mundial é o que menos motiva as ações da dupla de dirigentes que comanda a Fórmula 1. O que Max e Bernie fizeram hoje foi mais um golpe para enfraquecer a FOTA nesta briga intensa pelo poder na categoria. Estão facilitando ao máximo para que novos nomes façam parte da divisão do bolo, justamente num momento em que as equipes buscam abocanhar uma parte maior dele – isto fracionaria os lucros pretendidos por elas. Além disso, ganham maior influência política, já que estas novas equipes serão muito gratas à “bondade” de FIA e FOM. O golpe final é a criação de um regulamento que vai permitir que estas “nanicas” briguem com as grandes logo de cara através das já citadas vantagens esportivas.
E é justamente isso o que eu não gosto. Sou simpático à chegada de novos times e não tenho partido nessa briga pelo poder. Mas lamento e muito esse caminho de um regulamento cada vez mais complicado e de continuidade inexistente. Isso torna a Fórmula 1 chata. Não para os fãs chamados “hardcore”, como você, mas para o público em geral. Que uma hora vão se cansar, embananados com tantos termos técnicos e com carros que disputam uma mesma corrida em configurações diferentes.
A combinação Sebastian Vettel/Adrian Newey está se provando afiada: deram a primeiravitória à Toro Rosso com o modeloacima e também à Red Bull com o carro desse ano (semdifusor e sem Kers, apenascomumprojeto refinado). Em Barcelona podem sofrerumpouco, jáque outras equipes trarão novidades significativas e eles, não. Mas estou curiosoparaver o que farão em Mônaco, com uma revisão do RB5. Tenho certezaque a dupla vai celebrarainda neste anosuaprimeiravitóriaemconjuntocompistaseca.
A belaminiatura acima foi enviadapelo César Pedrini e é da Minichamps, na escala 1:43.
E a FIA não se cansa de nos surpreender. A punição não aplicada na McLaren de uma suspensão de três corridas só aumenta a suspeita sobre o que foi imaginado na China. Ron Dennis fez o sacrifício de deixar a McLaren para salvar a equipe no Tribunal. Porque o argumento dado para a decisão é ridículo: Martin Whitmarsh convenceu os juízes que houve uma “mudança de cultura no time”. Tudo bem. Vou roubar um banco e, se for pego, juro pelo que há de mais sagrado que jamais farei isso de novo.
Só espero que o episódio sirva de lição para quem acha que a FIA só serve para proteger a Ferrari. Não. Ela está ali para abençoar quem souber costurar acordos políticos com ela, seja quem for. Nesse rio não tem piranha vegetariana, não vamos ser tolos.
Mais um episódio político encerrado, vamos nos concentrar no esporte. Esporte que, coitado, vai ficar bem manchadinho caso Lewis Hamilton vença esse Mundial.
A McLaren vai ter de dançaraindamaisbonitoque a personagem de Jennifer Beals no filme “Flashdance” paraconvencer os juízes do Conselho Mundial da FIA a pegarem leve no julgamento do “Escândalo da Mentira”. Serão 29 os nomesquevãodeliberarsobre o tema: Max Mosley, seu representante direto Nick Craw, sete vice-presidentes, 17 presidentes de automóveisclubesnacionais, Bernie Ecclestone (comopresidente da FOM), o presidente da CIK (a federação de Kart) e o da associação dos construtores de automóveis.
No paddock do circuito do Sakhir, ninguém discutia se o time seria punido, massimqual será a punição aplicada. Exclusão do Mundial, suspensãopor uma oumaiscorridas, perda dos pontos conquistados atéagora, multabaixaoualta, todas estas variantes foram citadas, combinadas ounão.
O rebolado da McLaren já começou. O primeiropasso foi a saída de Ron Dennis do McLaren Group – ele passou a comandar a McLaren Automotive, que se desmembrou da empresa e passou a operar de formaindependente, conforme anunciado na semana do último GP da China. O objetivo, claro, seria de acalmar a turma da FIA tirando de cena o arqui-rival de Max Mosley.
Mas o homem do chicote desconfia quetudonão passou de uma cortina de fumaça. Afinal, Dennis continua comosócio minoritário do McLaren Group, dono de 15% das ações. Etodos sabem queele tem voz de decisãotambémsobre os 15% de seusócio Mansour Ojjeh e os 30% dos barenitas. Na prática (mas de maneira dissimulada), eleainda seria o manda-chuvaem Woking. Se acharque é issomesmo, Mosley pode presidir a sessão de amanhãcomsanguenosolhos, sedentoporvingança.
E é aíque entra a turma da Mercedes-Benz emação. O chefão Dieter Zetsche (aqueleque parece umclone do Barão de RioBranco) já avisou nesta semana. “Se houver uma puniçãodesmedida, nós poderíamos repensarnossocompromissocom a Fórmula1”. Umcenárioquearrepia os cabelosbrancos de Bernie Ecclestone. Os alemães fornecem motoresparatrêsequipes do grid. Se resolverem excluir os carrosprateados do Mundial, poderiam atémelar a disputa, deixando a líder Brawn GP e a Force Índia na mão.
Assim, tudo converge para uma penarelativamentebranda, um tapinha na mão (seja na formaque for) seguido porum “isso é muitofeio” comorepreensão. E abrandar a imagem de equipearrogante e trapaceira é o que Martin Whitmarsh anda fazendo no paddock. Antes, a McLaren era o timemais fechado, tantoqueseu motorhome suntuoso e escuro ganhou o apelidojocoso de “Estrela da Morte”.
No Bahrein, porém, seusassessores avisavam a todos os jornalistasque, daqui parafrente, haverá cocktails gratuitos e músicaambientepara o relaxamento dos escribasem todas as corridas. Os colegas ingleses adoraram. Além de preencherem laudas e laudascom o sucesso de Jenson Button, ainda podem ir na McLaren fazer uma moralzinha com Lewis Hamilton. Comdireito a umas biritas na faixa. Ê beleza!
Enquanto uns se refestelam e outros costuram acordospolíticos, a verdadeira vítima deste episódioaindanão encontrou seurumo. Ummecânico da McLaren contou que o ex-diretor esportivo Dave Ryan está “completamente destruído, semsaber o quefazer da suavida”. Depois de 25 anos de dedicação à equipe, parece que o neozelandês acabou completamente ignorado. O ladohumano, como é praxe na Fórmula 1, que se dane.
+++
Além do julgamento da McLaren, o encontro do Conselho Mundial pode trazer outras surpresas, como antecipei aqui. As equipes saíram do Bahrein semdecidir uma contra-proposta, pediram tempoparaisso. Mas Mosley não é famosopelapaciência. Historicamente, sempre aproveitou a falta de umconsensoentre as equipescomojustificativaparaimporseudesejo. Eu apostaria que amanhã teremos mais uma bomba polêmica relativa ao futuro da Fórmula 1. Aguardemos.
Se você voltasse no tempopara o início dos anos 90 e me encontrasse andando nas ruas, eu estaria usando uma camiseta do Led Zeppelin. Umadolescentecabeludoque cantava e tocava guitarra numa banda, cheio de sonhos na cabeça e embalado pelas músicas de seugrupofavorito.
Imaginem só a minhacara no grid do Sakhir quando vi Robert Plant chegando porlá, de camisetabranca, óculos Ray Ban e uma bolsahippie a tiracolo! Acompanhadopor sua parceira, o vocalista do Led viatudocominteresse contido, umpouco deslocado num ambienteque, peloque deixou transparecer, nãolhe empolgava muito.
Mas relaxou num momento interessante de se observar, quandoela se postou na frente de um dos carros do grid (acho queera o de Hamilton) e fez poseparaqueele tirasse uma foto. Umcasal se divertindo emseutempolivre.
Comoeraesse o clima, me aproximei dele na seqüênciacom a minhacâmera e perguntei se poderiafazer uma foto. “Sure”, sorriu. Plant me abraçou, fez umsinalpara a lente (quemeu super enquadramento não captou) e eternizou ummomentoque, paramim, significou muitomaisqueumdisco de platinaou uma escadariapara o paraíso.
Imagemfeita, eleainda apoiou a mão no meuombro, me olhou e se despediu. “Alright”. Achei que responderia uma coisameioabobalhada, do tipo “nossacara, adoro Led” ou “sou seufã”. Masnão, virei paraele e me saí da melhormaneirapossível: “thank you”.
Sim, Mister Plant. Obrigadopelafoto e porser a voz dos sonsque embalaram tantosanos da minhavida e queatéhoje acompanham muitos dos momentosespeciaisqueeuvivo. Comoeste de ontem.
Emocionado, os olhosmolhadospor algumas lágrimasque tentavam sair, dei as costas ao meuídolojuvenil e segui meucaminho no grid e na vida.
Enquantoisso, numa fração de segundo, tentava calcular quantas voltasmeumundotinhadadoatéque acontecesse esseencontrofortuito e impossível de imaginar na mente do garotocabeludo.
Na pauta desse blog, discussõessobre a Fórmula 1 emtodos os seusaspectos: histórias do passado, análises do presente, bastidores da cobertura e curiosidades. E muitamúsicaparatemperar essa mistura de razão com a paixãoque o automobilismo desperta.
Repórter de Fórmula 1 do Grupo Bandeirantes de Rádio, do diário Lance e da revista Racing. Apreciador de boa música, viagens e velocidade. Guitarrista amador, corredor de rua e piloto virtual.