
“Foi um dia difícil”. Assim Felipe Massa
resumiu a sua sexta-feira em Monza, um dia de muitos testes com o pacote aerodinâmico especial do carro para esta prova, uma escapada de pista salva de maneira espetacular na saída da Parabólica e um terceiro lugar potencialmente promissor para as chances da Ferrari no final de semana.
O que não sabemos é se todos os outros dias dele na equipe, atualmente, têm sido difíceis também. Que a Ferrari identifique em Fernando Alonso o piloto com o qual ela deve atacar o título num campeonato equilibrado é claro e mesmo lógico pelo conjunto da obra de ambos ao longo desta temporada. Mas que ela use de subterfúgios como a questão do giro dos motores na Alemanha para prejudicar um esportista que é seu funcionário afim do conseguir que o outro se colocasse numa posição que justificasse, interna e externamente, a ordem de equipe, é feio demais.
Sobre este assunto – para quem ainda não se situou, o relatório da FIA revelou que a Ferrari ordenou no meio da prova em Hockenheim que seus pilotos poupassem os motores, para instantes depois
liberar Alonso para usar mais potência – a Ferrari busca minimizar sua importância. Falei ontem com o assessor da equipe Luca Colajanni assim que o relatório da FIA foi publicado. A explicação: “a diferença no regime dos motores era muito pequena, insignificante para interferir na performance de cada carro. Não houve nenhum tipo de interferência”, garantiu.
Não podia esperar um discurso diferente, mas o papel de um jornalista é sempre considerar o benefício da dúvida. Por isso, fiz hoje uma consulta técnica com Ricardo Penteado, brasileiro que é o engenheiro de motores da Renault de Robert Kubica. Que tipo de diferença um regime distinto no motor entre pilotos de uma mesma equipe pode causar? “Depende de uma série de fatores como o clima e as características da pista. Em Hockenheim, tende mesmo a ser pequena. Se a diferença na regulagem entre ambos for mínima, é de menos de um décimo de segundo por volta. Se for muito grande, pode ultrapassar os três décimos”, explicou.
Ou seja, o argumento da Ferrari pode até ser real, mas todo o contexto daquela corrida sugere que não foi o caso dessa diferença ser irrelevante.
É de se imaginar que Massa fez um escarcéu lá dentro, que tenha colocado o dedo em riste de alguns rostos como fez diante das câmeras com o mesmo Alonso no famoso episódio de 2007 do “
prova imparare” (com o bônus de mandar Ron Dennis beber no ânus).
Mas nunca saberemos. Porque a Ferrari coloca uma mordaça nos seus pilotos que bloqueia completamente o vazamento de qualquer assunto interno. Quando perguntado hoje sobre sua opinião desse gerenciamento dos motores que fez Alonso ficar, artificialmente, “faster than you”, Massa deu a mesma resposta, palavra por palavra, em português e em italiano, sinal inequívoco de que a maneira de responder ao tema foi determinada por uma conversa prévia com o time. “Não vou comentar nada sobre isso. Estou pensando nesta corrida e nas que restam para acabar o campeonato. Meu pensamento é o de vencer o maior número delas”.
Mas era preciso insistir. O colega Felipe Motta disse que o torcedor poderia ficar com a impressão dele estar sendo omisso e se Massa não respondia porque simplesmente não podia responder (o que, obviamente, é o caso). Veio uma resposta confusa: “De jeito nenhum, eu sou um piloto que passou a vida inteira na batalha para superar obstáculos. Sei o que faço e tudo o que eu faço é pensando no melhor para a minha carreira. Eu sei o meu caminho”.
Se eu fosse ele, para dar uma satisfação aos torcedores sem se indispor com o time, diria algo como: “de todas as ações que cercam aquela corrida, conversei com o time sobre o que eu concordo e o que eu discordo. Mas é claro que isso é feito de forma privada e não convém e nem interessa tornar público”. Assim, pelo menos, ele deixava claro que existe um nível de insatisfação e que alguma ação está sendo feita – o que é difícil de concluir pelos poucos elementos que escapam ao filtro ferrarista (e, não sejamos injustos, a prática na maioria dos outros times também. Nesse ponto, discursos corporativistas e bloqueio ao direito de se dizer o que se pensa, a F-1 é um saco). Além do mais, seria uma resposta que corresponde ao que, imagino eu, realmente aconteceu: um episódio que abalou uma organização e que trouxe a necessidade de dialogar para manter saudável o ambiente de trabalho.
Do pouco que falou, Massa acertou ao mencionar os obstáculos que superou. É afinal um piloto que chegou à F-1 sem grana abundante para gastar na base; que renasceu para a categoria após um ano de estréia ruim, o que é raríssimo de acontecer; que está andando de forma competitiva para calar aqueles que falavam em morte ou em cegueira após o horrível acidente do ano passado.
Resta saber a questão do caminho. Saber se esta via passa por uma Ferrari em que Alonso e sua entourage conquistaram rapidamente o comando das ações e que estão minando aos poucos os focos de resistência internos que encontram nesta cruzada hispânica rumo ao sucesso – um baita de um obstáculo. Ou saber se os episódios de 2010 o fizeram estudar mapas que poderiam levá-lo a uma outra estrada na qual tentaria escrever mais um capítulo nessa sua história recheada de episódios de superação.
Mas tudo o que ouvimos é o silêncio.
(Foto Luis Fernando Ramos)