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terça-feira, 14 de setembro de 2010

CREDENCIAL – GP DA ITÁLIA

O “Credencial” do fim da temporada européia traz um amplo apanhado da etapa de Monza, trazendo na primeira parte um belo retrato da performance de pilotos e equipes que estão na briga pelo título mais disputado em muitos anos: tanto do que fizeram neste final de semana como do que esperar deles nas etapas que restam. Na segunda parte, a gente abre ainda mais o foco e aborda também uma série de outros assuntos relevantes também nas perguntas de vocês. Aperte o play (ou baixe pelo link) e boa audição!

PARTE 1


PARTE 2


(Foto xpb.cc)

domingo, 12 de setembro de 2010

A FRATERNIDADE É VERMELHA

A Ferrari chegou ao Grande Prêmio da Itália sob muita pressão: suas chances no Mundial estavam por um fio e o time mereceu uma chuva de críticas por ter saído relativamente ilesa pela quebra de regulamento cometida em Hockenheim. Por tudo isso, foi surpreendente a tranqüilidade demonstrada na corrida para converter em vitória a superioridade do carro neste final de semana.

O primeiro sinal disso veio logo após a largada. O pole Fernando Alonso foi surpreendido pelo bom início de Jenson Button e o ataque de Felipe Massa após a primeira chicane, mas manteve a segunda posição e a cabeça fria, seguindo de perto o inglês da McLaren. A diferença entre os dois se manteve constante e era claro que a prova seria decidida na parada nos boxes para a troca de pneus.


Button entrou na 36ª volta e Alonso, na passagem seguinte. Aí foi a vez dos mecânicos da Ferrari brilharem, realizando a troca no carro do espanhol em apenas 3,4 segundos, o que foi fundamental para que ele passasse à frente quando voltou à pista:


“
Todas as vitórias são um trabalho em conjunto, mas essa em particular tem um gosto maior de triunfo da equipe, porque eu ganhei a corrida graças ao pit-stop, que foi incrível”, elogiou Alonso.

Mais do que reviver suas chances no campeonato, o triunfo elevou o piloto ao olimpo da torcida ferrarista, que fez muita festa ao final da prova. Alonso aproveitou para se deixar levar pela emoção dos fãs.
“Eu jamais imaginaria que seria tão bom estar no pódio numa festa como essa. É uma emoção comparável a de 2006 quando ganhei em Barcelona. Acho que sou uma pessoa de sort”, reconheceu o piloto.

Mas a grande sorte dele e dos outros candidatos ao título é que Lewis Hamilton, que liderava a disputa, teve um momento de afobação e jogou sua corrida fora logo na primeira volta, quando tentou disputar uma freada impossível com Felipe Massa. Os carros se tocaram e o inglês levou a pior, danificando a suspensão e saindo da prova.
“Talvez eu devesse ter esperado um pouco mais. Foi um dia que não me ajudou em nada no campeonato, mas a disputa continua em aberto. O negócio agora é pensar para frente”, receitou.

Quem assumiu a liderança na tabela foi Mark Webber, mesmo fazendo uma má apresentação: largou mal e terminou apenas em sexto. Além de Alonso, Jenson Button (segundo colocado) e Sebastian Vettel (quarto) também aproveitaram a chance para descontar a diferença aos ponteiros. Com cinco pilotos com chances de sair da próxima corrida na liderança, o Mundial de 2010 encerra sua temporada européia da melhor maneira possível.

Saindo voando nesta corrida final da temporada européia, fico no aguardo da opinião e das dúvidas de vocês para a próxima edição do Credencial. Até!

(Foto Ferrari)

sábado, 11 de setembro de 2010

DE OLHO NA VITÓRIA

Foi um momento bonito, emocional. A Ferrari quebrou o jejum de 30 corridas sem marcar uma pole-position justamente em Monza, onde uma “rossa” na primeira colocação é motivo mais do que suficiente para as sempre lotadas arquibancadas explodirem em júbilo. Quem já esteve em Interlagos durante a conquista de uma pole por um piloto brasileiro sabe que é uma vibração que arrepia pela intensidade. O que eu vi hoje em Monza foi a mesma coisa.

O clima de festa dos tifosi, que abriram bandeiras gigantes em formato de coração com o escudo da equipe, contagiou a Luca di Montezemolo, que escalou o alambrado do pitwall para vibrar com o público, como se fosse ele próprio quem estivesse ao volante do carro de número 8 que se classificou em primeiro.


Mas não, era Fernando Alonso. Que sorriu e cerrou os punhos com sua primeira pole-position vestido de vermelho. Mas foi uma emoção contida, pois o pensamento dele já estava na corrida de amanhã. Apenas os 25 pontos da vitória vão servir para aplacar o apetite do espanhol. Ainda mais num sábado em que os dois ponteiros da tabela se classificaram mais atrás.


Alonso tem a seu lado Jenson Button, um adversário de respeito mas que sempre costumou usar mais o cérebro do que o coração numa disputa de posição; e o companheiro Felipe Massa logo atrás, alguém que vai tomar o maior cuidado do mundo com ele na largada, ainda mais em Monza, descontentamentos pós-Hockenheim à parte. Assim, o caminho para o sucesso está traçado, e ele vai do apagar das luzes até a saída da primeira chicane, ainda na primeira volta.


“Vai ser uma corrida interessante. A primeira curva será um ponto quase definitivo. Não haverá muitas ultrapassagens e não há muito o que inventar em termos de estratégia. Vou defender essa primeira posição com unhas e dentes”, receitou o espanhol.


Monza costuma ser um teste duro para o equipamento, com freios sendo muito exigidos e os motores sofrendo um alto nível se stress. Mas, fora as possibilidades de quebra, não é uma pista que ofereceu muitas disputas nas suas últimas edições. Com a Red Bull com um motor menos potente e Lewis Hamilton prejudicado pela decisão equivocada de correr sem o duto de ar, a briga pela vitória tende a ficar entre Alonso e Button – o quinto e o quarto colocados na tabela.


Melhor para o Mundial, que tende a manter uma multiplicidade de candidatos ao título por muito mais tempo, ao contrário do que alguns pensavam após a última prova, o GP da Bélgica.


(Foto Luis Fernando Ramos)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O SILÊNCIO DE MASSA

“Foi um dia difícil”. Assim Felipe Massa resumiu a sua sexta-feira em Monza, um dia de muitos testes com o pacote aerodinâmico especial do carro para esta prova, uma escapada de pista salva de maneira espetacular na saída da Parabólica e um terceiro lugar potencialmente promissor para as chances da Ferrari no final de semana.

O que não sabemos é se todos os outros dias dele na equipe, atualmente, têm sido difíceis também. Que a Ferrari identifique em Fernando Alonso o piloto com o qual ela deve atacar o título num campeonato equilibrado é claro e mesmo lógico pelo conjunto da obra de ambos ao longo desta temporada. Mas que ela use de subterfúgios como a questão do giro dos motores na Alemanha para prejudicar um esportista que é seu funcionário afim do conseguir que o outro se colocasse numa posição que justificasse, interna e externamente, a ordem de equipe, é feio demais.

Sobre este assunto – para quem ainda não se situou, o relatório da FIA revelou que a Ferrari ordenou no meio da prova em Hockenheim que seus pilotos poupassem os motores, para instantes depois liberar Alonso para usar mais potência – a Ferrari busca minimizar sua importância. Falei ontem com o assessor da equipe Luca Colajanni assim que o relatório da FIA foi publicado. A explicação: “a diferença no regime dos motores era muito pequena, insignificante para interferir na performance de cada carro. Não houve nenhum tipo de interferência”, garantiu.

Não podia esperar um discurso diferente, mas o papel de um jornalista é sempre considerar o benefício da dúvida. Por isso, fiz hoje uma consulta técnica com Ricardo Penteado, brasileiro que é o engenheiro de motores da Renault de Robert Kubica. Que tipo de diferença um regime distinto no motor entre pilotos de uma mesma equipe pode causar? “Depende de uma série de fatores como o clima e as características da pista. Em Hockenheim, tende mesmo a ser pequena. Se a diferença na regulagem entre ambos for mínima, é de menos de um décimo de segundo por volta. Se for muito grande, pode ultrapassar os três décimos”, explicou.

Ou seja, o argumento da Ferrari pode até ser real, mas todo o contexto daquela corrida sugere que não foi o caso dessa diferença ser irrelevante.

É de se imaginar que Massa fez um escarcéu lá dentro, que tenha colocado o dedo em riste de alguns rostos como fez diante das câmeras com o mesmo Alonso no famoso episódio de 2007 do “prova imparare” (com o bônus de mandar Ron Dennis beber no ânus).

Mas nunca saberemos. Porque a Ferrari coloca uma mordaça nos seus pilotos que bloqueia completamente o vazamento de qualquer assunto interno. Quando perguntado hoje sobre sua opinião desse gerenciamento dos motores que fez Alonso ficar, artificialmente, “faster than you”, Massa deu a mesma resposta, palavra por palavra, em português e em italiano, sinal inequívoco de que a maneira de responder ao tema foi determinada por uma conversa prévia com o time. “Não vou comentar nada sobre isso. Estou pensando nesta corrida e nas que restam para acabar o campeonato. Meu pensamento é o de vencer o maior número delas”.

Mas era preciso insistir. O colega Felipe Motta disse que o torcedor poderia ficar com a impressão dele estar sendo omisso e se Massa não respondia porque simplesmente não podia responder (o que, obviamente, é o caso). Veio uma resposta confusa: “De jeito nenhum, eu sou um piloto que passou a vida inteira na batalha para superar obstáculos. Sei o que faço e tudo o que eu faço é pensando no melhor para a minha carreira. Eu sei o meu caminho”.

Se eu fosse ele, para dar uma satisfação aos torcedores sem se indispor com o time, diria algo como: “de todas as ações que cercam aquela corrida, conversei com o time sobre o que eu concordo e o que eu discordo. Mas é claro que isso é feito de forma privada e não convém e nem interessa tornar público”. Assim, pelo menos, ele deixava claro que existe um nível de insatisfação e que alguma ação está sendo feita – o que é difícil de concluir pelos poucos elementos que escapam ao filtro ferrarista (e, não sejamos injustos, a prática na maioria dos outros times também. Nesse ponto, discursos corporativistas e bloqueio ao direito de se dizer o que se pensa, a F-1 é um saco). Além do mais, seria uma resposta que corresponde ao que, imagino eu, realmente aconteceu: um episódio que abalou uma organização e que trouxe a necessidade de dialogar para manter saudável o ambiente de trabalho.

Do pouco que falou, Massa acertou ao mencionar os obstáculos que superou. É afinal um piloto que chegou à F-1 sem grana abundante para gastar na base; que renasceu para a categoria após um ano de estréia ruim, o que é raríssimo de acontecer; que está andando de forma competitiva para calar aqueles que falavam em morte ou em cegueira após o horrível acidente do ano passado.

Resta saber a questão do caminho. Saber se esta via passa por uma Ferrari em que Alonso e sua entourage conquistaram rapidamente o comando das ações e que estão minando aos poucos os focos de resistência internos que encontram nesta cruzada hispânica rumo ao sucesso – um baita de um obstáculo. Ou saber se os episódios de 2010 o fizeram estudar mapas que poderiam levá-lo a uma outra estrada na qual tentaria escrever mais um capítulo nessa sua história recheada de episódios de superação.

Mas tudo o que ouvimos é o silêncio.

(Foto Luis Fernando Ramos)