quarta-feira, 3 de outubro de 2007

CHINA, HÁ UM SÉCULO

A Fórmula 1 pode ter chegado na China em 2004, mas o automobilismo deu a cara por exatamente 100 anos: e já tinha um carro italiano vermelho que ganhava e também uma Spyker! O raid Pequim-Paris é um exemplo extremo de uma época em que o esporte ainda engatinhava, mas era feito com absoluta paixão pela aventura e pelo desafio. Confira abaixo minha coluna publicada no GP Total, em setembro de 2004, sobre a prova.

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CHINA, PASSADO E PRESENTE

22/09/04

mais de 97 anos, a China foi o ponto de partida de um dos mais incríveis eventos da história do automobilismo. Em um desafio lançado pelo periódico francês Le Matin, cinco aventureiros montaram em seus carros para a travessia de mais de 17 mil quilômetros entre Pequim e Paris. No século XXI, cumprir este percurso exige, no mínimo, muita organização e uma quantia razoável de dinheiro. O que dizer então de uma época em que não havia estradas, as comunicações eram precárias e os carros não ultrapassavam os 40 cavalos de potência?

Movidos por um instinto de pioneirismo, os corajosos pilotos toparam o desafio. O mais preparado, sem dúvida nenhuma, era o Príncipe Scipione Borghese (cujo nome completo era Scipione Luigi Marcantonio Francesco Rodolfo - ufa!). O nobre italiano passou meses estudando mapas e calculando todas as variantes possíveis para afastar a possibilidade de qualquer eventual problema. Investiu uma soma vultuosa de dinheiro em logística, colocando contatos ao longo do trajeto com galões de combustível e mantimentos.

Também equipou um Itala de 40 cavalos com mais de duas toneladas (foto acima), além de um mecânico (Ettore Guizzardi) e um jornalista (Luigi Barzini). Exatos dois meses depois de deixar a Cidade Proibida de Pequim, ele chegou como vencedor, após vencer com mais ou menos facilidade regiões inóspitas como o Deserto de Gobi e os Montes Urais.

Seu principal adversário era o francês Charles Goddard. Ele se associou com a marca holandesa Spyker para a aventura, conseguindo um carro de 15 cavalos e quatro cilindros (foto abaixo). Era tanto uma pessoa de carisma irresistível como um ótimo piloto. Mas sua personalidade o impediu de lutar pela vitória: antes mesmo da largada, Goddard gastara todo o orçamento de que dispunha em vinhos e jantares caríssimos. Conseguiu depois vários empréstimos, a maioria com diplomatas e banqueiros holandeses e acabou ajudado por alguns concorrentes quando sua cota de combustível encerrou. Chegou em Paris mais de duas semanas depois do vencedor.

Com ele, chegou também a dupla contratada pela marca De Dion. Georges Cormier e Victor Collignon correram em carros com apenas 10 cavalos e dois cilindros. Mas, andando sempre em dupla (e, na maior parte do trajeto, com Goddard), terminaram a aventura inteiros e de alma lavada.

O único que não completou o percurso foi o francês Auguste Pons. Também pudera. Seu carro era um mirrado Contal de seis cavalos de potência e - sim - três rodas (duas na frente e uma atrás, responsável pela tração)! O piloto se perdeu no Deserto de Gobi, uma semana após a largada, com seu carro atolado na areia. Teve de ser resgatado e voltou para a Europa de navio. Mesmo assim, entrou para a história.

O Rali Pequim-Paris é um destes momentos mágicos dos primórdios do automobilismo, uma mistura de aventura, paixão pela velocidade e pura loucura. As histórias vividas pelos pilotos durante o percurso são saborossísimas e o relato mais completo delas está no livro "The Mad Motorists", publicado pelo inglês Allen Andrews em 1964. Tive a sorte de encontrar um carcomido exemplar (mas original) da obra em um empoeirado sebo no centro de São Paulo. Para quem se interessar, uma rápida pesquisa pelo Google leva a diversos sites de venda estrangeiros. O prazer da leitura vale o preço, podem confiar!

2 comentários:

Mario Bauer disse...

Bela matéria!

Porém, Borghese chegou em Paris em 10 de agosto de 1907.

E justo nesta data fiz um post as respeito com mais alguns detalhes sobre as picaretagens do piloto da Spyker...

Confira:
http://gpinsider.wordpress.com/2007/08/10/spyker-comemora-centenario-de-endurance/

Leonardo disse...

A Mercedes refez esse rally a uns 3 anos atras. Eu vi o livro que os caras fizeram e achei bem legal, pena que ta' meio salgado (pra mim)