Continuando (literalmente) em cima do post abaixo, tenho de admitir que a manhã do domingo no GP do Bahrein foi um dos momento mais emocionantes da minha vida. No meio da concentração de tantas lendas das pistas, me impressionou ver um cara de muita idade (76 anos) que de frágil só tinha a aparência. John Surtees caminhou com firmeza para dar suas voltas na 1512 vermelha que tanto sucesso lhe havia dado numa época em que aquele deserto sobre o qual fizeram um autódromo era apenas um território sob proteção britânica.
A cada vez que o ronco dos doze cilindros rasgava a reta, eu pegava a câmera e tentava superar o nervosismo para clicar o herói no comando do bólido. Acabei pegando o momento em que ele passava uma Cooper, num instantâneo que teve de ser pós-produzido para captar o significado histórico do momento para mim. O resultado está aí: uma “foto do dia” moderna, mas artificialmente amarelada para trazer um delicioso cheiro de naftalina. Clique para ampliar!
O José Ferreira mandou para mim essa excelente contribuição: John Surtees em todas as suas facetas. A moto, ao fundo, é a MV Augusta com a qual ele foi campeão do mundo em 1956 (modelo feito pela Altaya); à esquerda temos o Cooper T53 que Surtees usou na temporada de 1961 (da RBA); e à direita, a Ferrari 158 que lhe deu o Mundial da F-1 em 1964 (modelo da Brumm).
Uau, campeão de motociclismo e de automobilismo! Uma pena que Valentino Rossi só tenha ensaiado, mas jamais executado a mudança para vermos até onde ele poderia chegar.
O desejo da Fórmula 1 em voltar aos Estados Unidos é antigo e já faz algum tempo que Bernie Ecclestone procura um lugar para abrigar uma prova no país. Hoje surgiu a notícia de conversas com os responsáveis pelo circuito de Monticello, no estado de Nova York. O que leva à inevitável pergunta: porque não Watkins Glen? A pista também fica por ali, tem uma história de duas décadas na F-1 e seu uso pela F-Indy mostra que o nível de segurança está nos padrões exigidos pela categoria, ou muito perto disso. Numa época de resgate de valores do passado, como a equipe Lotus, a volta para o “The Glen” seria a cereja do bolo para trazer uma identificação importante do evento com um público desacostumado à ele. Fica a sugestão, Mister E!
Uma ondagigantesca de nostalgia tomou conta do paddock do circuito do Sakhir no início da tarde de ontem. A festa dos 60 anos da Fórmula 1 teve o mérito de reunir no Bahrein dezoito dos vintes campeões mundiais vivos. Só faltaram mesmo os queeu havia adiantado emprimeira mão aqui no blog. Kimi Räikkönen tinhaumteste marcado comseucarro do WRC e Nelson Piquet, peloscomentários no local, não quis enfrentar o inevitávelassédio dos jornalistasemcima do tema Cingapura. Foi uma grandepena, mas a constelaçãoeratãograndiosaque as ausênciasmal puderam ser sentidas. A festa começou comváriosnomes consagrados pilotando carroshistóricos. Nigel Mansell pegou o túnel do tempomaiscomprido e pilotou a Ferrari 375 Thin Wall Special de 1951 antes de assumir a F500 do anoseguinte – uma boa soluçãoparaencontrarcockpitsqueele coubesse, afinal. Mika Hakkinen não deixou pordentro e deu suasvoltas na Mercedes-Benz W196 de 1954. Desceu do carrocomumsorrisoenorme no rosto.
Masnão há comoigualar a emoção de testemunhar o reencontro de lendas e suasmáquinas. Quandoeupoderiaimaginarque veria John Surtees rasgar a reta numa Ferrari 1512, Jackie Stewart na Tyrrell 005 ou Mario Andretti na Lotus 79?
A emoção de umcenáriotãobrilhantenão ficou restrita apenas a fãs e jornalistas, mas se estendeu às estrelas do evento. “No sábado, estava pilotando quando encontrei no meio da volta o Jackie com a Matra MS80. Caramba, a últimavezqueeutinhavistoessecarroera na Corrida dos Campeões de 1969, em Brands Hatch, a primeira de F-1 queeu assisti depoisque cheguei na Inglaterra”, vibrou Emerson Fittipaldi. “Jamaispoderiaimaginarque estaria na categoria no anoseguinte, quantomaisfazerparte desta festamaravilhosaaqui. Foi comoentrar numa máquina do tempo”.
O apelo dos nomes foi quasetãograndequanto o das máquinas. Terminadas as voltas, quem esteve na pista se juntou a outroscampeõesquenão chegaram a pilotar. Liderados porum octagenário Jackie Brabham, além de Niki Lauda, Alan Jones, Alain Prost, Jacques Villeneuve e outros. “Black Jack” está obviamente com a saúdefrágil, e praticamente surdo, mas agüentou combravura o fortecalor do sol a pino na hora da fotooficial do evento – momento da única escorregada de uma grandefesta, depoisque Jean Todt colocou suanamorada Michelle Yeoh entre os fotografados, o quenão fazia nenhumsentido e pareceu uma baitafalta de tato do presidente da FIA.
Mesmoassim, já frisei e repito: foi umeventoespetacular e uma raraoportunidade de ver a própriaFórmula 1 reverenciando suahistória. Conversando comumcolegajornalista, o sul-africano Dieter Rencken, surgiu a idéia de ressuscitar a GP Masters, colocando-a no programa dos finais de semanaem algumas etapas da F-1. Tenho certezaqueumpunhado de ex-pilotos, campeõesounão, adoraria participar. E a resposta do público seria sensacional.
Provavelmente receberei umolharcético e uma resposta atravessada. Mas vou sugeririssopara o Bernie na próximacorrida!
Confira abaixo outras imagens do evento. Clique nelas para ampliar!
John Surtees lutou muitopelavitória na corrida de Monte Carlo em 1965, numa brigatriplacomseucompanheiro de Ferrari, Lorenzo Bandini, e o vencedor Graham Hill, da BRM. Masesteúltimo mostrou quenão recebeu o apelido de “Mister Mônaco” poracaso. Comumquarto de prova, Hill liderava com uma certafolgaquando encontrou umcarro rodado na chicaneapós o túnel. Ele só conseguiu frearvários metros dentro da via de escape. Pulou do seucarro, empurrou-o de volta à pista e saiu acelerando pararecuperar o prejuízo (outros tempos). Depois de uma intensabrigacom a dupla da Ferrari, Hill abriu vantagemparaconsagrar aquela que considera a maiorvitória da suavida. Surtees tinha o segundo lugar assegurado, mas sofreu uma pane seca na última volta e acabou classificado em quarto.
Fazendo umparalelopara a F-1 atual, vai ser interessante ver se essetipo de problema pode aparecer no Bahrein. As equipes ainda não testaram muito o consumo em altas temperaturas e todo mundo deve operar no limite para chegar ao final da prova com um mínimo de gasolina. Será que alguém vai errar nos cálculos, deixando um piloto pelo caminho? Vale a pena ficar atento a isso.
Grande contribuição do colega de GPL Caio Lucci para o blog: esta edição especial da Brumm traz duas versões da Ferrari 158 com a qual John Surtees venceu o GP da Itália de 1964, uma vestida e outra nua. Naquele final de semana em Monza, a equipe de Maranello já tinha preparado modelos com os motores de doze cilindros (o 1512), mas John Surtees e Lorenzo Bandini foram na segurança e correram com o carro que havia vencido as duas etapas anteriores. Boa pedida: o inglês ganhou com folga e o italiano completou o pódio em terceiro, com a Cooper de Bruce McLaren.
Da coleção da Corgi, esse é o modelo que eu mais gosto. O Surtees TS9 que disputou a temporada de 1971 marca a união de John Surtees com o lendário independente Rob Walker. O carro tinha algum potencial, mas os resultados no Mundial foram modestos para a envergadura da dupla e Surtees somou apenas três pontinhos com o modelo. Nas corridas não-válidas pelo Mundial, porém, “Big John” brilhou: 3° colocado no “Race of Champions” em Brands Hatch (com o número 16, o da miniatura) e ganhador do “Gold Cup” em Oulton Park. Aos 37 anos de idade, foi sua última vitória com um carro de F-1. Um que levava seu nome. Clique para ampliar!
Dos campeões mundiais ainda vivos, ele é o segundo mais antigo. Mas não pense que John Surtees vai comemorar seu 75° aniversário curtindo o sossego da aposentadoria ao lado da família. Depois de soprar as velinhas, ele se sentará numa mesa cuidando de um dos três projetos que toca paralelamente: a consultoria para a equipe chinesa Maxtra, que disputa o Mundial de Motociclismo nas 125 cilindradas; a gerência da carreira de seu filho Henry, de 17 anos, que vai disputar o campeonato da Fórmula 2; e o comando de uma empresa que administra propriedades para firmas de médio porte.
Pois o velho John foi assim a sua vida inteira: sempre trabalhando como 110% de sua capacidade. Foi assim que se tornou o único piloto da história a ser campeão mundial em duas e em quatro rodas. Era tido como uma pessoa difícil, meio turrona, e ele mesmo admite que nunca mediu suas palavras na hora de dizer o que pensava. Mas sempre encarou o esporte a motor com a mesma paixão de milhões de fãs no mundo todo. Com tudo o que conquistou, imagine só se este não é um homem realizado?
Recém-chegada do correio, minha nova aquisição é também umas das mais bonitas da coleção: John Surtees comemorando o segundo lugar na corrida de Solitude de 1964, uma prova não válida pelo mundial daquele ano. A peça é uma edição limitada em comemoração aos 100 anos de corrida no antigo (e sensacional) circuito alemão, feita pela Brumm na escala 1:43. Clique para ampliar!
E porque Surtess comemora o segundo lugar? Bem, Jim Clark ganhou a prova. Perder só para o excepcional escocês é como se fosse uma vitória.
A temporada de 1968 marcou a primeira saída da Honda da Fórmula 1, iniciando um hiato de quinze anos. O motivo da decisão não foi nada nobre. No GP da França, o francês Jo Schlesser sofreu um acidente fatal na terceira volta, quando escapou da pista num dos trechos de maior velocidade do circuito de Rouen. O carro bateu no barranco e pegou fogo. Com os tanques cheios e a carroceria de magnésio, o piloto não teve a menor chance. Era a estréia da RA302. Surtees havia testado o bólido, mas não quis usá-lo por considerá-lo muito perigoso, além de considerar que ele não estava desenvolvido o suficiente para correr. Os japoneses insistiram e, com apoio da Honda francesa, colocaram o local Schlesser no carro, com resultados catastróficos.
Na foto acima, o único momento positivo da temporada para a Honda, a pole-position de John Surtees no GP da Itália. Mas a alegria durou pouco. Na oitava volta, o inglês bateu quando era o terceiro colocado e tentava desviar da Ferrari de Chris Amon, que havia perdido o controle do carro.
John Surtees supera Jack Brabham por dois décimos de segundo para dar à Honda a sua segunda vitória na Fórmula 1. Foi uma das corridas mais emocionantes já registradas, um show histórico de Jim Clark que recuperou uma volta de desvantagem, mas ficou sem gasolina no final. E um erro decisivo de Brabham na última curva. A torcida italiana fez festa para Surtees, campeão pela Ferrari apenas três anos antes. E a Honda demoraria quase quatro décadas para voltar a vencer com equipe própria na F-1.
Fica uma dica: clique aqui e baixe uma ótimo história em quadrinhos que ilustra esta prova, criada a partir do inigualável Grand Prix Legends.
- Já na época dos testes havia este rumor. Pelo jeito, o quadro se complicou desde então. É surpreendente. Justo a Honda, que parecia ser a equipe mais estável...
Foi o que me disse Lucas Di Grassi há pouco por telefone. O anúncio no Japão de que o time será colocado à venda é iminente. Muitas fontes já confirmam o fato. É uma bomba que tende a ter um efeito devastador na Fórmula 1. Porque a Toyota vem sofrendo as mesmas perdas nas vendas de automóveis nos mercados norte-americano e asiático. Porque o senhor Dietrich Mateschitz, apesar de vender bebidas e não carros, busca um comprador para a Toro Rosso. E ainda não sabe se vale a pena bancar sozinho o time em 2009 caso este não apareça. Porque corremos o risco de ter um grid com apenas 16 carros no dia 29 de março em Melbourne, Austrália. E contando...
Há pouquíssimo tempo, a categoria achava que passaria incólume à crise financeira. Bastaria fazer alguns cortes aqui e ali. Agora, é melhor todo mundo sentar junto, ver o que deu errado e arrumar alguma solução. E, numa hora dessas, vamos ser justos e dar razão a Max Mosley. Há anos ele defende as equipes independentes e avisou que, no dia que a situação ficar feia, as montadoras sairão da F-1 rapidinho. É o que está acontecendo.
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A foto é só para lembrarmos de uma F-1 mais bela e mais simples. Quem sabe não sirva de inspiração para os homens do poder atuais?
Na história da Fórmula 1, apenasemnoveocasiõesumpilotoque chegou na últimacorridaemdesvantagem na tabela saiu dela como o campeão. Nelas, apenas Kimi Raikkonen conseguiu descontar uma diferença de setepontos – a que separa, hoje, Felipe Massa de Lewis Hamilton.
Mas há uma decisãohistóricaque juntou Ferrari, umrivalinglês, confusão e muitapolêmica. Foi no GP do México de 1964. Lorenzo Bandini se enroscou com Graham Hill no hairpin disputando a terceiraposição e o piloto da BRM rodou. Depois, perdeu muitotemponosboxesparaconsertar o escapamento danificado pelo guard-rail e ainda teve problemascom o acelerador. Hill terminou em 11° lugar. Bandini era o segundo colocado até a últimavolta, quando abriu passagemparaseucompanheiro John Surtees, umresultadoque garantiu o títuloparaeste. Se o mesmoresultadoacontecerem Interlagos – Massaemsegundo, Hamilton fora da zona de pontos – o título ficaria com o brasileiro.
A lenda diz que Hill jamais perdoou Bandini peloque achou uma batidaproposital. O inglês teria atéenviadoumlivro de “lições de dirigir” comoumpresente de natalprovocativo ao italiano. Mas o depoimentoabaixo, no livro “Graham”, mostraque, no fundo, tudo foi encarado com o espíritoesportivotípico da época:
“……….. But I lost the whole World Championship in 1964, one of the years when I was runner-up, through another driver making a mistake and running into me during the final Championship race in Mexico. You could say it was bad luck — but I suppose you could say I shouldn’t have been there at that particularspot at that precise moment. However, I was there and he was trying to overtake me in a hairpin. He’d had a couple of goes at it, but the last time he just overcooked it — went out of control and thumped me. It bent my exhaust pipes up and I had to come into the pits. I lost so much time that I finished well down in the race - which was won by Surtees with a one point lead.
That was that. It had happened and nothing I could do or say would alter it. That’s the way I tend to see things when they have gone wrong. There’s no point in worrying about it, or all the other things that happened time and time again to rob me of winning races. I don’t look back and, this way, I have few regrets. Hopefully, I learn from these setbacks but I apply them forwards. Basically, if you look forward things tend to get better. Because we all live in hope and if there’s no hope there’s no life and no point in living.”
Ah, outrostempos...
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AS VIRADAS NA ÚLTIMACORRIDA
1950 – No GP da Itália, Giuseppe Farina tinhaquatropontos de desvantagempara o líder Juan Manuel Fangio.
1964 – No GP do México, John Surtees tinhacincopontos de desvantagempara o líder Graham Hill.
1976 – No GP do Japão, James Hunt tinhatrêspontos de desvantagempara o líder Niki Lauda.
1981 – No GP dos EUA-Oeste, Nelson Piquet tinhaumponto de desvantagempara o líder Carlos Reutemann.
1983 – No GP da África do Sul, Nelson Piquet tinhadoispontos de desvantagempara o líder Alain Prost.
1986 – No GP da Austrália, Alain Prosttinhaseispontos de desvantagempara o líder Nigel Mansell.
1997 – No GP da Europa, Jacques Villeneuve tinhaumponto de desvantagempara o líder Michael Schumacher.
1999 – No GP do Japão, Mika Hakkinen tinhaquatropontos de desvantagempara o líder Eddie Irvine.
2007 – No GP do Brasil, Kimi Raikkonen tinhasetepontos de desvantagempara o líder Lewis Hamilton.
O grande Jonny’O encontrou estas imagens que explicam claramente porque o Honda RA300, de 1967, tinha o apelido de “Hondola”. A equipe japonesa abandonou o chassi pesadão que haviam produzido e equiparam seu potente motor em um chassi Lola – o mesmo que havia sido utilizado por Jackie Stewart nas 500 Milhas de Indianápolis (à esquerda na foto). Compare os recortes da carenagem na região da suspensão dianteira com os do RA300 (à direita na foto – clique para ampliar). Este carro “híbrido” correspondeu e conseguiu a mais famosa vitória da Honda e também de John Surtees na Fórmula 1, no GP da Itália de 1967.
Na pauta desse blog, discussõessobre a Fórmula 1 emtodos os seusaspectos: histórias do passado, análises do presente, bastidores da cobertura e curiosidades. E muitamúsicaparatemperar essa mistura de razão com a paixãoque o automobilismo desperta.
Repórter de Fórmula 1 do Grupo Bandeirantes de Rádio, do diário Lance e da revista Racing. Apreciador de boa música, viagens e velocidade. Guitarrista amador, corredor de rua e piloto virtual.