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sábado, 23 de outubro de 2010

A OUTRA FACE

Os organizadores do GP da Coreia e os governantes da província local tiveram a humildade de iniciar o final de semana com um pedido de desculpas à comunidade da Fórmula 1 por um evento que está sendo realizado longe da condição ideal. Seria natural e necessário haver uma reciprocidade. Mas o que a maioria tem feito até agora é reclamar. No fundo, o fato mais lamentável desse evento é que a F-1 não pediu desculpas aos coreanos.

O clima de terror foi se instalando aos poucos na sala de imprensa e nos boxes das equipes ao longo do ano. Volta e meia aparecia uma publicação com uma “testemunha local” que garantia ser impossível aprontar a pista a tempo. Faltou conferir se essa testemunha já tinha reformado pelo menos um banheiro na sua vida para lhe dar credenciais de expert no assunto.

O que a Fórmula 1 encontrou em Yeongam foi um paddock cinco vezes mais espaçoso que o de Interlagos. Os boxes são amplos, assim como os escritórios das equipes e a sala de imprensa. A Internet cai de vez em quando e a instalação das linhas de rádio demorou um pouco, mas no fundo o quadro é o mesmo em muitas corridas da temporada. O que não vi nenhum jornalista citando é o esforço e a amabilidade das pessoas do Media Center, nem a incrível cantina que prepara boas refeições gratuitamente aos homens da notícia - algo que só acontece no Bahrein.

Mas é claro que os tablóides ignoram isso completamente e preferem escrever sobre “a F-1 no cú do mundo”. Pintam com cores fortes o fato da maioria das pessoas dormirem em motéis, relevando o fato deles serem limpos, confortáveis e com Internet de alta velocidade nos quartos - uma benção para uma turma que já dormiu debaixo de goteiras em algum pulgueiro perdido por Istambul.

Eu não estou num motel, apesar de ficar num lugar chamado Women’s Plaza, na foto acima. Tampouco é um hotel, mas é confortável prá caramba, quartos espaçosos, cama macia, televisão com 60 canais, Internet turbinada. Aliás, apesar de penar no primeiro hotel que fiquei em Seul, o acesso à web neste país é o mais fácil que ja vi na minha vida.

O lugar que me foi designado é, na verdade, um edifício do governo local que cuida dos direitos e dos interesses das mulheres. Principalmente das que sofrem abusos domésticos. É um centro de excelência no assunto na Ásia tanto que o último andar, o que ocupamos, costuma acomodar representantes de outros países que vêm para conhecer o trabalho feito. Maior contraste com o chororô dos motéis, impossível.

O esforço da cidade de Mokpo também precisa ser reconhecido. Numa praça em frente ao canal que a separa de Yeongam, um palco foi montado com música ao vivo, há boas opções de restaurantes de comida local e internacional e o clima é muito bacana. Mil vezes mais agitado que lugares como Silverstone e Spa-Francorchamps. Mas isso não se comenta.

A F-1 precisa entender que é ela quem gira o mundo, não o mundo que gira em torno dela. Eu também tinha ficado impressionado com o pessimismo que cercava esse final de semana e esperava pelo pior. Me enganei redondamente. Estamos aqui como convidados e a verdade é que estamos sendo muito bem tratados. Só reclama quem quer determinar o cardápio e dormir na cama do anfitrião (e, possivelmente, com a esposa dele). Mas vou aprender com a humildade dos locais e me desculpar: mianhabnida, Korea!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A CIDADE QUE BRILHA

Nas primeiras imagens que tive de Tóquio, monstros-marinhos gigantescos emergiam para pisotear a cidade, até serem contidos pelo Ultraman. Visitando a cidade, fica claro que esse rastro de caos e destruição é mero efeito especial de quinta categoria de um seriado infantil.
Para alguém crescido numa grande metrópole brasileira, Tóquio não pode ser verdade. Como é possível uma área tão gigantesca ser inteiramente coberta por um eficiente sistema de transporte sobre trilhos, com metrô e trens interagindo perfeitamente? Como pode uma cidade não ter uma folha de papel, uma bituca de cigarro que seja no chão (especialmente uma em que seja tão difícil encontrar um cesto de lixo)? Como 13 milhões de pessoas podem viver num mesmo ambiente sem que aflore a maldita violência urbana?A resposta é muito mais simples do que se imagina. A capital japonesa é a exata tradução de sua cultura, na qual o respeito e o senso do coletivo é algo tão natural quanto o ato de respirar. Não vou ser ingênuo e apontar que não há defeitos ali. Imigrantes brasileiros que se aventuram por lá (ou mesmo pelo país) não se cansam de numerar as dificuldades que encontram. Mas se viver num gigantesco conglomerado fosse uma arte, Tóquio seria a obra-prima.
Por conta da correria das viagens, só pude sorver a cidade “em pílulas”: um, dois ou três dias a cada visita. Talvez eu precise viver mil anos para conhecer todas as suas facetas. Não importa: cada oportunidade traz o mesmo deslumbre pela imponência das ruas e a eficiência de seu funcionamento. E pela presença do povo mais “maluco” que eu já vi: executivos aos borbotões, punks saídos do túnel do tempo, meninas que se produzem para parecer uma boneca ou com o curioso visual da maioria delas: de botas, shorts curtos e roupas de marca, andando com as pernas tortas e segurando sacolas de compras.Não dá para descrever, é preciso ver. E viver. Estar em Shinjuku na hora do rush de uma sexta-feira, quando as ruas são tomadas por uma horda animadíssima e colorida atrás de diversão, é algo que vou lembrar pelo resto da vida. Ou andar pelas alamedas de Harajuku num sábado à tarde, onde um povo louco por roupas vai renovar seus armários. Para não dizer que não falei dos podres, uma noite em Roppongi é preciso ser observada com distinção. Bons restaurantes e umas horas num tradicional karaokê valem a visita, mas o excesso de gente bêbada que toma as ruas à medida que as horas passam forma um espetáculo deprimente.
Ainda assim, existem algumas cidades que sempre fazem surgir em mim o desejo de um dia morar nelas: Paris, Barcelona até mesmo Montreal. Nessa lista pessoal, Tóquio está no topo. Mesmo que o sonho pareça tão irreal quanto os episódios do Ultraman.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A CIDADE DO IMPERADOR

A visita a Kyoto acabou sendo muito mais curta do que eu desejava e do que era necessário. Mas a cidade que foi a sede do Império Japonês por tanto tempo impressionou do mesmo jeito. Principalmente pela quantidade e pela qualidade dos templos.
Estive no de Sanjusangendo, essa impressionante construção de madeira da foto acima. Infelizmente não é permitido tirar fotos da parte interna, mas coloquei abaixo uma reprodução da Internet da incrível coleção de estátuas. São 1001 de uma entidade budista, sendo a “uma” de um tamanho impressionante, com uns dez metros de altura. Guardando elas estão 30 imagens de deuses que trazem proteção. Feitos de madeira, os olhos são decorados com cristais para dar maior expressividade. Encará-los de perto é de arrepiar.O passeio pelo antigo palácio imperial é um pouco menos impactante já que não se pode entrar no interior das construções. Mas vale a pena ver o tamanho e a variedade delas. E vale, principalmente, olhar para o impressionante jardim com um largo artificial que fica no centro do complexo. Estes jardins japoneses são mesmo de encher os olhos.No mais, Kyoto impressiona pela maneira com que alia essa tradição histórica com a modernidade. A enorme estação de trem é uma verdadeira jóia da arquitetônica e esfrega nos nossos olhos o quanto essa cultura milenar não ficou parada durante esse tempo todo.

sábado, 16 de outubro de 2010

A CIDADE SAGRADA

Talvez você já tenha visto uma imagem do torii, um imponente portal vermelho, que fica no meio das águas do parque nacional de Setonaikai. A obra é o símbolo da ilha de Miyajima, um lugar sagrado de tradição milenar no Japão. Reza a lenda que ali não é permitido nascer e nem morrer, tanto que não há maternidades nem cemitérios no lugar.O passeio, na região de Hiroshima, impressiona por esta mistura de religião e natureza. O templo de Itsukushima tem mais de meio século de existência e, como reza a tradição, é pintado de laranja - uma cor que simboliza o fogo e serva para espantar os maus espíritos.Atrás dele e de uma simpática vila, a natureza brilha exuberante. Além de uma enorme e muito bem conservada, a área é cheia de macacos e cervos - animais tratados com reverência e que circulam livremente pela ilha. Na região xintoísta, eles são considerados mensageiros dos deuses. Para quem estiver na região de Hiroshima, tirar um dia para visitar a ilha é indispensável.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A CIDADE DA PAZ

Talvez tenha sido a total falta de expectativas na visita a uma cidade que não constava do meu roteiro inicial. Talvez tenho sido o deslumbramento com o charme dos canais da foz do rio Ota. Talvez seja obra do paladar, encantado com esta delícia da culinária local chamada Okonomyiaki. O fato é que Hiroshima é um dos lugares mais fantásticos que eu já visitei. Não só no Japão, mas no mundo todo.
Das cinzas de uma cidade devastada pela bomba atômica se construiu um parque para celebrar a paz no mundo todo - e para liderar o movimento pelo fim das armas atômicas. Da dor das crianças que pereceram naquele seis de agosto (ou nos dias, meses, anos seguintes) por conta dos efeitos do ataque, fizeram pássaros coloridos em Origami para pedir esse desarmamento. Hoje as aves de papel estão lá, aos milhares, trazidas pessoalmente por milhões de crianças das escolas japonesas para enfeitar o parque.
Uma visita ao museu do Memorial da Paz não é tarefa fácil. As histórias de dor das vítimas civis de um inconcebível ataque militar inevitavelmente reviram sua alma. Histórias de meninas (cegas, inexatas) que voltaram para casa em pânico com a pele desmanchando e o rosto preto feito carvão, sendo reconhecidas por seus pais apenas pela voz (no reverso das mudas, telepáticas). Chocante.Mas o local explica também o que motivou a escolha por Hiroshima, tradicional centro bélico japonês e que, naquela época, colocou sua indústria inteiramente voltada para o esforço de guerra - como muitas cidades no mundo inteiro, aliás.

A diferença para estas outras é que Hiroshima aprendeu com seu destino - e luta para que todas façam o mesmo. O fato da entrada no museu custar pouco mais que um real mostra que o fundamental é conhecer e entender o que aconteceu para que o horror nunca mais se repita.
Mais do que lamentar o destino que associou o nome da cidade para sempre à dor, tragédia e destruição, Hiroshima concentra todas suas energias para celebrar a vida e a paz. E é isso que a torna uma cidade maravilhosa, por fora e por dentro. É preciso ver para crer. Eu vi - e foi por isso que me apaixonei por ela.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

DA JANELA DO TREM

Foi um dia bem longo. Chegar em Suzuka não é mole se você vem de Narita e é chegado numa aventura como eu. Depois de doze horas de voo desde a Europa, o fuso faz com que você ande grogue o tempo todo. O resultado disso foi que esqueci um protetor do laptop no trem que liga o aeroporto a Tóquio. E também o livro que eu estava lendo no trem entre Tóquio e Nagoya. Pelo menos deu para sacar a câmera e fazer umas imagens da paisagem e das estações pelas quais eu passei. Com vocês, o Japão visto da janela de um trem.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

PARA ORIENTE

O prédio com formato de um transatlântico se destaca na já impressionante paisagem da região mais central de Cingapura. Hoje eu estive lá e a obra, embora ainda não completa, já capta o interesse da maioria dos turistas da cidade. Pena que a chuva forte fechou o terraço e eu não pude subir para conferir a espécia de piscina gigante com vista para o mundo que construíram por lá.

Em torno dele, um enorme areal forma um canteiro de obras gigantesco, que vai receber um novo cassino, uma penca de hotéis, museus e escritórios. A economia de Cingapura floresce como poucas no planeta e, se falta espaço no minúsculo país, sobra dinheiro para aterrar o oceano e expandir seus domínios. O transatlântico de concreto, aliás, está plantado justamente onde foi água um dia.

Não é à toa que Bernie Ecclestone se derreteu para dirigentes e imprensa locais, sinalizando a possibilidade de antecipar a renovação do contrato do GP local, que termina em 2012 - e fazê-lo até 2032!

O baixinho, sabemos, não é bobo no faro para saber onde está o dinheiro. E corteja Cingapura ao mesmo tempo em que faz ameaças ao GP do Brasil, exigindo reformas em Interlagos - ou qualquer outra desculpa - para colocar no inconsciente da categoria que a prova é uma no topo da lista das ameaçadas, para trocá-la sem pudor pela próxima nação asiática endinheirada que quiser pagar por seu produto.

Antes de maldizer a conhecida ganância do diminuto dirigente, devemos olhar para o nosso umbigo. Se Cingapura investe hoje em paisagens suntuosas, é porque já fez sua lição de casa e cuidou há tempos de sua infra-estrutura. O aeroporto de Changi é o mais moderno do planeta, a população local recebe educação gratuita de qualidade e tem uma noção incrível do que é civismo e da importância do bem estar coletivo.

(Um parênteses para explicar melhor como funciona o povo daqui: no sábado, esqueci o monopé da minha câmera em um táxi quando fui para o circuito. Tinha o recibo da viagem e liguei para a central. A mocinha anotou todas as informações que eu tinha e prometeu retornar a ligação. O fez no meio da corrida, enquanto eu participava da transmissão da prova, só para ouvir um “estou trabalhando” meio ríspido e ter o telefone batido na cara.

Agora há pouco, a mocinha voltou a ligar educada informando que acharam o tal do monopé. Agradeci, mas disse que já estava no aeroporto e embarcaria em breve. Sem se dar por satisfeita, a atendente pediu a hora de embarque, perguntou onde eu estava - num restaurante ainda antes da imigração - e pediu que eu esperasse 15 minutos. O motorista acabou de passar por aqui para me entregar, disse que veio “feito um piloto de F-1” e se recusou terminantemente a aceitar uma gorjeta que fosse pelo esforço - e eu insisti prá caramba. “Nós é que nos desculpamos pela demora em devolver o seu pertence”. Fim do parênteses)

Enquanto isso, estamos há três anos de receber uma Copa do Mundo e o evento virou um grande oba-oba para agradar os desejos dos poderosos e de seus amiguinhos. Leio sobre projetos de estádios desnecessários e superfaturados, mas nada sobre melhorias em aeroportos, estradas, transportes públicos nas grandes cidades.

Perder a F-1 é o de menos. O que precisamos perder é justamente essa mentalidade de que aqui tudo pode - e não perder nossa capacidade de nos indignarmos com tudo o que é feito de errado pelo poder público (e a crítica aqui é a mesma aos dois principais partidos do país, não há merecedor do meu voto entre eles). Depois, não vamos nos espantar se a economia mundial continuar olhando enternecida para o oriente - e de costas para nós.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

BUDAPESTE, UM ANO DEPOIS

Acordei ainda na madrugada hoje em Viena para sair cedo para minha “corrida de casa”. A viagem para Budapeste foi tranqüila, marcada pelos caminhões que fazem a principal ligação entre leste e oeste europeu, além das centenas de moinhos de energia eólica que tomam conta dos campos da Panônia.

Mas ao chegar na capital húngara, minha cabeça foi tomada por um turbilhão de memórias do ano passado. Imagens dos restaurantes que passei, do caminho que levava ao hospital AEK, das horas passadas sentado no concreto da calçada, aguardando por notícias e fazendo entradas ao vivo nas rádios.


Passar de novo pelas ruas me fez até relembrar dos rostos das pessoas com que convivi, do dono do Café a 500 metros do hospital que usei tantas vezes como “escritório” pela presença de Internet, dos torcedores cheios de fé e angústia, do médico húngaro com seu ar grave contando as novidades diárias, da mulher que tomava sol religiosamente no parapeito da janela, um lembrete bronzeado de que a vida continuava e continua apesar dos problemas que afligem a vida dos seres humanos. Lembrei até de quem não estava aqui, das conversas que tinha com meu pai, médico, para entender melhor o contexto do quadro clínico que nos era passado.


Este não é um post sobre Felipe Massa, então eu preferiria mesmo não ver comentários engraçadinhos e/ou genuinamente injuriados traçando algum paralelo espirituoso sobre o que aconteceu há um ano e o ocorrido há cinco dias.


É um post sim sobre o maior curso intensivo de jornalismo que eu poderia ter, buscando trazer um relato bem apurado cobrindo todos os ângulos de um assunto delicado, difícil mesmo, em condições longe da ideal e numa cidade estrangeira de um idioma estranhíssimo.


Hoje, passando por Budapeste, me lembrei sobretudo dos colegas, os que estavam aqui e os que fizeram a retaguarda no Brasil. E, acima de tudo, me lembrei porque eu amo tanto o que eu faço.


(Foto Luiz Demétrio Furkim)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

WOOD BURCOTE

O mais legal da cobertura da Fórmula 1 é a versatilidade. De informações, de histórias e, principalmente, de lugares. Em um mês, passei de uma metrópole vibrante como Montreal para o ar mediterrâneo de Valência e fui parar em... Wood Burcote!

Não dá nem para chamar de cidade. Na verdade, é pouco mais que uma dezena de casas, uns 40 habitantes no máximo, além de uma extensa população de coelhos que cruzam calmamente os jardins nas primeiras horas da manhã, um fenômeno que pude observar todos os dias por lá. A coisa é tão pessoal que as habitações não tem números, mas nomes!

A casa em que eu me hospedei se chamava “Plum Cottage” e é um verdadeiro testemunho do passar do tempo. Construída inicialmente em 1590, ela foi ampliada aos poucos. E ajustada: com o passar dos anos, o chão foi rebaixado, o que gera a curiosidade do último degrau (para quem desce, primeiro para quem sobe) ser bem maior que os outros. “As pessoas eram bem mais baixas quando construíram aqui”, explica Mike, o dono do lugar, cujos traços do rosto são definitivamente os de um Hobbit, um autêntico Tûk ou um Brandebuque.
A porta de cor púrpura dá o toque final no “Bed & Breakfast” que, no fundo, se resume muito a isto mesmo. Todas as manhãs, lá está Mike, solícito, fazendo torradas, café e chá para a trupe de nômades que toma seu território de assalto naquela agitada semana de GP da Inglaterra. “É claro que há o interesse no dinheiro, mas eu gosto também de ver de perto como é o trabalho de vocês”, conta ele, frisando o episódio do ano anterior, quando a notícia de que a FOTA faria um campeonato paralelo estourou além da meia-noite do horário local, e o reservado inglês viu a sala de sua casa, onde fica o roteador da Internet, se transformar numa redação improvisada de rádio e jornal.

Wood Burcote ainda tem a enorme vantagem de ficar a pouco mais de uma milha (sim, com o passar dos dias você se acostuma a dirigir na mão inglesa e a pensar no sistema de medidas deles) de Towcester. É lá que fica o “Rice Bowl”, um restaurante chinês que faz um delicioso pato desfiado e que há décadas é freqüentado por pilotos – Ayrton Senna era um freguês entusiasmado do local – e jornalistas. A família que cuida local já ganhou uma ou duas gerações, mas nos trata com a mesma simpatia de sempre, é o que garantem os escribas mais experientes.

E nós continuamos e continuaremos indo lá. Porque, no entorno da pista que há 60 anos foi o berço do Mundial da Fórmula 1, o que mais se respira é tradição. Nos campos bucólicos de Wood Burcote, nas histórias de vida testemunhadas pelas paredes do Plum Cottage, na cerveja encorpada dos pubs locais, no sabor inigualável do pato do Rice Bowl. Os anos passam e Silverstone continua sendo, sempre, um dos GPs mais especiais do ano.

(Fotos Luis Fernando Ramos)

terça-feira, 15 de junho de 2010

ENCONTROS IMPROVÁVEIS

O tempo passa muito rápido para quem faz a cobertura in loco da Fórmula 1. O ritmo de viagens é massacrante, o volume de trabalho é intenso e a quantidade de informações a serem processadas também. A impressão que dá é que já se passaram pelo menos seis meses desde que Jenson Button venceu o GP da China e eu vivi a epopéia da viagem em direção às nuvens do vulcão. Na verdade, fazem menos que sessenta dias.

É por isso que há tempos eu parei de medir a vida em tempo e passei a dar valor a momentos. Afinal, são os bons – e, infelizmente, algumas vezes os maus – que são recordados. Em cima disso, a cobertura do último final de semana foi uma das mais especiais que vivi na Fórmula 1. Pelo mesmo motivo da epopéia Xangai-Viena: viver encontros inesperados e gratificantes.


Já tinha chegado à cidade quando recebi o simpático e-mail de um leitor do blog, o Tiago Negreiros, dizendo que estaria no circuito assistindo à corrida e que gostaria de me entrevistar. Consegui um tempinho livre entre o treino livre e a classificação do sábado para ir até a arquibancada do primeiro grampo falar com ele. Encontrei um compenetrado e preparado entrevistador, com uma pauta completíssima, toda anotada em folhas de caderno.

As perguntas fluíram e foi bem interessante ver o interesse do jornalista/torcedor em entender mais os meandros do que ocorre dentro do paddock. Encerrada a gravação, ficamos falando um tempo sobre o Canadá e descobri que ele é o editor de um jornal para a comunidade brasileira em Toronto. “Então se eu vier para cá um dia vou te pedir emprego”, aproveitei. Acho que vocês sentem pelo“Credencial” – cuja próxima edição vai ao ar amanhã, aliás – como eu gosto de ter contato com um pessoal que gosta e tem olho crítico para a Fórmula 1. Estou amadurecendo a idéia de fazer um grande encontro do blog para este tipo de conversa. Seria muito bacana, espero que um dia dê certo.
O barato continuou quando encerrei meu trabalho no final do sábado. Eu sabia que dois colegas canadenses de uma liga de GPL estrangeira que eu participo (a oAo) estavam na cidade, trabalhando como fiscais de pista. Quando peguei a van que leva os jornalistas da pista a um hotel mais perto do centro – um trajeto de uns vinte minutos – mandei um torpedo perguntando se eles queriam jantar. A resposta veio em seguida: “estamos num churrasco no paddock das outras categorias”. O carro tinha acabado de passar por lá e foi impossível não notar o clima de festa que um grande número de pessoas fazia em torno de uma grande tenda branca. Imediatamente pedi para o motorista parar e desci ali mesmo.

Não sei se acontece algo parecido com os fiscais do GP do Brasil, mas a idéia dos organizadores no Canadá é muito boa: como toda a turma que trabalha na prova évoluntária, eles organizam uma grande celebração no sábado, com muita cerveja e churrasco, tudo de graça. Fiquei uma hora e meia conversando com Drew e Simon,falando do game, da liga, da vida no Canadá, da rotina do lado de dentro de um paddock de Fórmula 1. Saí de lá com a amizade iniciada em boxes virtuais bem mais fortalecida no mundo real. E com a promessa de voltar para mais churrasco e cerveja no ano que vem.
Os encontros improváveis ainda estavam longe de terminar. No domingo, ao encerrar os trabalhos, estava na van esperando para voltar ao hotel quando chegaram dois norte-americanos sexagenários, um deles vestindo a camiseta laranja que os membros da McLaren usam em caso de vitória. Perguntei se eram da equipe e os parabenizei pelo resultado depois da resposta afirmativa. O senhor que estavaem trajes “civis” agradeceu com sinceridade, quando o da camiseta laranja perguntou:“você sabe quem é ele?”

Enquanto eu tentava reconhecer a fisionomia, foi me entregue uma velha foto colorida, com as bordas completamente amareladas. Havia um dos primeiros modelos da McLaren na Fórmula 1 no centro da imagem, com um grupo de pessoas em volta. Reconheci rapidamente Denny Hulme, com uma expressão de rosto pensativa, e Bruce McLaren,olhando para o lado e dando uma risada. O senhor de laranja começou a apontaras outras pessoas da imagem. “Este aqui à direita é Gordon Coppuck, que desenhava os carros. Eu sou esse outro aqui, mas eu não sou importante. E o sujeito alto é esse que está aqui no carro. É o Tyler Alexander, cara”.

O senhor no outro banco sorriu surpreso quando eu reconheci o nome. “Putz, você era o gerente da equipe na época do Bruce, um dos caras que ajudou a construir aMcLaren!” Foi a senha para que engatássemos numa grande conversa sobre os velhos tempos. Alexander contou que esteve recentemente em Woking na homenagem aos 40 anos da morte do fundador do time, mas falou que foi um momento mais especial do que emocional. “Naquela época, morrer fazia parte do jogo. Você fica ferido, sente um vazio, mas aprender a bloquear as emoções”. Falou também do sucesso que conseguiram correndo de Can-Am na América. “Todo mundo achava que era muito fácil pela maneira que ganhávamos tudo. Mas era um grupo de umas oito, dez pessoas, que fazia tudo sozinho: o projeto e o desenvolvimento do carro, a construção dele, a montagem do motor, a manutenção... era um trabalho danado”, assinalou.

O colega da camisa laranja, um mecânico dos primeiros anos do time chamado Pat, contou uma história interessante. “Alguns anos atrás, vim assistir ao GP do Canadá com a minha esposa. Sem passe da equipe, visita ao paddock, essas coisas. Vim para ficar na arquibancada, era o que eu queria, apenas ver e viver a corrida. E uma das categorias que estava na programação era de Can-Ams históricos. Quando os primeiros carros começaram a passar, comecei a chorar feito criança. Foi ridículo, os carros passando e eu lá, chorando por quase uma hora. Via os bichinhos andando e ficava arrepiado de pensar por quantas horas, dias, eu fiquei lá colocando minhas mãos neles para que andassem”.

A van já estava chegando ao hotel quando Pat deu a boa notícia. “O Tyler está finalizando um livro de memórias, vai sair nesse ano ainda. Já li algumas páginas e vai ser umtrabalho sensacional”. Me despedi agradecendo a conversa e prometendo trazeruma cópia da publicação no ano que vem para que eles assinassem. Apesar de eu realmente não gostar de Ron Dennis, por sua postura extremamente arrogante, é preciso reconhecer que ele sempre procurou manter as raízes da McLaren intactas, valorizando as pessoas que plantaram as sementes da equipe e, volta e meia, valorizando o laranja do passado “kiwi” de seu fundador.

Acabou? Nada. A noite já caía quando fui encontrar meu colega Joris Fioriti, jornalista da Agência France Presse e de português fluente, que tinha me prometido uma surpresa. “Você vai adorar”, garantiu. Chegamos a uma enorme praça, lotada de gente e com vários palcos espalhados. Era o “FrancoFolies”, um festival de música francofônica. Dei um pulo de alegria quando chegamos em frente e um palco ainda vazio, com uma placa anunciando: “Próxima atração – Lo’ Jo”. “Puta que pariu, Joris, você é um gênio!”
Se você está se perguntando que catzo é Lo’ Jo, eu explico. No início de 1997, passeid ois meses morando em Paris para aprender francês. Através de uma amiga que fiz durante a estada, conheci esta banda altamente alternativa, que faz uma espécie de World Music com influências do Norte da África (argelinas, tunisianas). Fiquei de cara fascinado pelo som vigoroso, pela poesia das letras, pelas harmonias criadas pelas duas vocalistas e pelo clima proveniente do uso de instrumentos daquela região. Quando conheci Joris, no ano passado, uma das primeiras coisas que eu perguntei foi se ele conhecia a banda. Nunca tinha ouvido falar. “Você é um francês fajuto”, provoquei. “Nem conhece o melhor som produzido no seu país!”
Pois o cara viu o cartaz do festival, lembrou da história e aprontou a surpresa para mim. Jamais imaginei que veria Lo’ Jo ao vivo. E sou uma pessoa mais feliz por tê-lo feito. Foi um show que encontra facilmente um lugar bem perto do topo daquela lista dos melhores da minha vida. Todo o clima percussivo e melódico dos álbuns de estúdios estava ali na minha frente. E as vozes e instrumentos ganharam uma cara. Era a primeira vez que Lo’ Jo tocava em Montreal e em pouco tempo a frente do palco, o menor dos três usados pelo festival, ficou tomado por uma multidão completamente hipnotizada pela qualidade da música. Encerrada e hora e pouco de apresentação, ainda deu tempo de falar com o líder da banda, Dénis Pean, um senhor com uma aura forte no palco e de uma simpatia extrema na hora de recepcionar as pessoas. Saí de lá nas nuvens, com um CD autografado e agradecendo ao Joris pela enorme presença de espírito de me levar lá. “De jeito nenhum. Eu é que tenho de te agradecer. O som é demais, agora eu entendo porque você falava tanto deles”. Legal. Ganhei mais um fã para o Lo’ Jo. E saio de Montreal com essa certeza de ter vivido uma das viagens mais gratificantes que já fiz nessa vida cigana atrás da Fórmula 1. Estou rico, muito mais rico. Com a alma alimentada de momentos especiais que vou carregar daqui em diante.

E ainda por cima teve a corrida. Uma baita de uma corrida!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

CE MATIN A MENTON

Eu tomava tranqüilo meu café-au-lait, um croissant convidativo descansando no prato, quando ele chegou. Já alguns anos acima dos 70, caminhando com dificuldade, ele soltou um “bonjour” bem cantado, saudou as duas atendentes uma década e meia mais jovens e pediu seu desjejum nos mínimos detalhes: apenas um dedo de café na xícara, o pão aquecido um minuto no forno e um pequeno pote de geléia de pêssego. A indiferença das senhoras deixou a impressão de que a rotina do pedido lhe dera ares de um ritual que pouco as interessava. Nada que tirasse seu ânimo. Era uma figura engraçada: trajava um blazer laranja que contrastava com um pulôver azul-celeste impecavelmente passado. Os cabelos eram pintados com uma cor caju, a mesma da gritante peruca, penteada para o lado, que cobria sua careca. Ele sentou-se à mesa, puxou a edição do dia do “Nice-Matin”, colocou os óculos de grau e ficou curtindo a leitura, enquanto assoviava um antigo sucesso de uma chanteuse. Ou era simplesmente sua alegria cotidiana de aposentado na Riviera Francesa, ou ele tinha um encontro com outra pensionista e a expectativa de passar o dia relembrando a vida e as histórias do milênio passado – o atual parece ainda não ter chegado na pequena Menton – o deixava especialmente animado. Só sei que era uma animação contagiante. Terminei meu café e vim trabalhar, não sem antes tirar uma foto da patisserie com o ilustre personagem lá no cantinho do vidro. Que o dia de todos nós seja tão alegre quanto o dele.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

UM DIA EM BARCELONA

Das cidades que recebem a Fórmula 1, poucas significam tanto para mim quanto Barcelona. Já vi aqui um show do Pink Floyd e foi num bar perto das Ramblas que conheci minha esposa. O GP da Espanha acontece numa área industrial fora da cidade e, para agilizar a cobertura e evitar os enormes engarrafamentos causados pela “Alonsomania”, eu costumo ficar hospedado perto do circuito. Assim, já se tornou uma tradição pessoal aproveitar a quarta-feira para passear pelo centro da cidade. Sempre um roteiro parecido, no qual não pode faltar a movimentação da Plaza Catalunya e nem os tapas do Cuitat Comtal, lugar que eu sempre ia com minha gatinha para comer uns “montaditos”. Nada melhor para recarregar as baterias antes de um final de semana que promete muita ação e assuntos para a gente explorar por aqui. É como diz a música: Barcelona é poderosa!

Plaza Catalunya

Um típico habitante do centro de Barcelona
Tapas 1: montaditos
Tapas 2: azeitonas e anchovas
Tapas 3: camarões e sardinhas

Barcelona – Giulia Y los Tellarini