
A risada vibrante de Fernando Alonso no rádio da Ferrari ao final do GP da Coreia era a de um homem que não podia acreditar na sua própria sorte. Veio após uma vitória que o colocou de volta na liderança do Mundial depois de quase sete meses. Justamente antes de penúltima etapa do ano. Assim, ele vai para Interlagos como o único piloto com chances de ser campeão no GP do Brasil. Justamente o palco das suas últimas conquistas.
Foi um triunfo de sobrevivência. Como se tivesse o corpo fechado, Alonso foi passando incólume pelos problemas de seus adversários na briga pelo título. A primeira vítima das condições dramáticas de um domingo molhado em Yeongam foi justamente Mark Webber, o líder na tabela até então. Um erro de pilotagem bobo num momento em que todos andavam com cautela o fez estampar o muro (e, de quebra, levar junto a Mercedes de Nico Rosberg, que fazia um inspirado início de prova).
A sorte pareceu ter abandonado o espanhol no momento de sua parada nos boxes quando um erro da Ferrari (cuja responsabilidade ele assumiu após o triunfo) na mudança da roda dianteira direita o jogou para o terceiro lugar na prova atrás de Lewis Hamilton. Mas o inglês da McLaren cometeu um raro erro na chuva durante a relargada e Alonso prontamente recuperou o segundo lugar.
Um impecável Sebastian Vettel se mantinha na liderança, cuidando do desgaste dos pneus intermediários e da aproximação do piloto da Ferrari. Mas o destino resolveu sorrir para este quando o motor Renault do carro da Red Bull explodiu sem o menor aviso a onze voltas do final, tirando o alemão da prova e diminuindo drasticamente suas chances no campeonato.
Alonso agradeceu e partiu para sua quarta vitória em sete corridas, consumando uma virada no Mundial iniciada com a polêmica vitória de Hockenheim. Restou reconhecer que, para ter sucesso, é preciso mais do que apenas competência.
- Acho que desde Silverstone temos um carro para ir ao pódio, mas o fator sorte nos fez sofrer. Agora estamos vencendo também por causa disso. Hoje eu era terceiro, uma Red Bull bateu e outra teve o motor estourado. Como eu sempre disso, a sorte se equilibra ao longo de uma temporada.
Apesar do tricampeonato mundial e de um título em seu primeiro ano de Ferrari estar ao alcance da mão, Alonso prefere minimizar suas chances.
- Se todos perdessem o avião para o Brasil seria mais fácil. Mas as Red Bull foram melhores que nós aqui, fazendo a primeira fila no sábado. Se fizerem duas dobradinhas, será um problema para mim - raciocinou.
Do lado da Red Bull, calma. Nem parecia que Sebastian Vettel tinha sido vítima da face mais amarga do automobilismo. Nove voltas o separavam de uma vitória que o deixaria numa condição excelente para o primeiro título de sua carreira. Num instante, o sonho se evaporou numa espessa nuvem de fumaça.
- Não houve o menor aviso. Quando entrei na reta dos boxes, os quatro cilindros de um lado falharam e era questão de segundos que os quatro outros se fossem também. Até ali, estava bastante orgulhoso da corrida que vinha fazendo. Tinha tudo sob controle, mesmo naquelas condições dificílimas.
Apesar da pouca idade, o alemão da Red Bull mostrou personalidade de veterano no que deve ter sido o pior dia da sua carreira esportiva.
- Às vezes é preciso ter sorte também. Muitas vezes nesse ano tivemos altos e baixos e não daria para mudar isso agora. A vida é assim e temos que aceitar isso. Mas sou sempre o último a desistir e a chance de ser campeão existe.
O pesadelo da Red Bull foi completado pelo erro de Mark Webber logo no início da prova.
- Errei, a responsabilidade é toda minha. Mas ainda temos duas corridas pela frente e já estou pensando no Brasil - disse o australiano.
Cabisbaixo, o chefe do time Christian Horner acusou o golpe, mas garantiu que a Red Bull não fará jogo de equipe a favor de Webber, o piloto melhor colocado na tabela.
- Acho que o título será decidido na última curva em Abu Dhabi. Mark é o segundo na tabela, Sebastian o quarto, mas só uma vitória o separa de Alonso. Quantas vezes vimos a maré virar rapidamente neste ano? Não dá para pegar uma bola de cristal e ver o que acontecerá no Brasil e em Abu Dhabi - justificou.
Além da situação da briga pelo título, não faltam assuntos para o “Credencial”: a questão da demora no início (real) da prova, as inúmeras confusões na pista, as impressões de uma pista nova e de um país novo, as perspectivas para Interlagos. Enfim, como sempre, o espaço dos comentários é de vocês!
(Foto Ferrari)