Se você virar o presidente das Ilhas Vanuatu e quiser organizar uma corrida de Fórmula 1 para mostrar as belezas do seu país e colocá-lo no mapa mundial, é simples: procure o senhor Bernie Ecclestone. Ele vai ouví-lo com atenção e recomendar que, em primeiro lugar, você construa uma pista de corrida no padrão máximo atingido pela FIA. E vai deixar claro que sua única chance de ser aceito no fechado clube que ele promove é se esta pista for planejada e executada por um escritório de arquitetura na cidade alemã de Aachen, onde trabalha o senhor Herrmann Tilke.A brincadeira vai sair, pechinchando o preço e não querendo fazer nada muito exótico, 500 milhões de Euros. Mas tudo bem, você quer mostrar ao mundo o que é que Vanuatu tem e abre os cofres do governo. Feito isso, você procura Ecclestone, que vai lhe propor um contrato de cinco anos. No primeiro você deve pagar, vá lá, uns 30 milhões. Mas há sempre uma cláusula prevendo um aumento de 15% a cada ano, sendo que no final do contrato você terá de desembolsar mais de 50 milhões.
Isso só pelo direito de fazer a corrida. Os custos para organizá-la, claro, são seus. Teimoso, você fecha o acordo e aparece todo sorridente no grid na prova de estréia. As grandes estrelas do esporte estão lá, o público até que compareceu, curioso com a novidade. Foi um prejuízo enorme, mas valeu a pena, você vai pensar.
No segundo ano, porém, as arquibancadas estão às moscas. O preço dos ingressos, sua única maneira de recuperar um pouco do dinheiro gasto, são irreais para a população local. E o fator da novidade desapareceu. No final do dia, você pega a calculadora e percebe que o país vai quebrar. Desesperado, liga para o chefão para negociar o cancelamento das provas seguintes. Ele vai te lembrar da assombrosa multa que você vai pagar se desrespeitar o contrato. Sem alternativas, você manda toda a população de barco para Papua-Nova Guiné e implode seu país, declarando falência da Nação e riscando-a do mapa.
A fábula acima é um exemplo extremo da realidade que vem assombrando muitos GPs de Fórmula 1. Nesta segunda-feira, um político do estado australiano de Victoria solicitou que Melbourne deixe de sediar sua prova num futuro próximo. E o governador da Catalunha deixou claro que não dá para garantir a realização do GP da Espanha além de 2012. Ambos citam o enorme prejuízo como motivo principal.
São declarações de extrema relevância, já que se tratam de duas corridas que sempre atraem um bom público. Todos sabem que organizar uma prova é perder dinheiro, mas há um ganho embutido no impacto econômico que um evento destes traz para sua cidade e também na imagem que ela ganha perante o cenário internacional.
Se ainda assim não está valendo a pena organizar um GP, está mais do que claro que chegou a hora de Bernie Ecclestone rever o seu modelo, que se tornou absolutamente incompatível com a realidade econômica mundial. Enquanto as equipes fazem um trabalho em conjunto com a FIA para buscar diminuir os custos delas, adaptando-se a um novo cenário surgido depois da crise do final de 2008, Ecclestone continua querendo impor seu mundinho particular. Os países mais tradicionais em termos de F-1 estão jogando a toalha. E o povo dos novos “exóticos” estão percebendo que seus governantes estão jogando uma fortuna pelo ralo, vide as recentes declarações de demonstrantes sobre a corrida do Bahrein.
Se continuar assim, voltaremos num piscar de olhos a ter apenas 16 corridas no calendário. Ou dez. Ou cinco.
















