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quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

ERREI, ERRAMOS

O título acima é de uma ótima música de Ataulfo Alves (que, aliás, possui uma versão arrasadora feita pelo grande Itamar Assumpção). O refrão dela reproduz quase que ao pé da letra o conteúdo da carta enviada pela McLaren para a FIA na semana passada – e publicada hoje. “Venho ao tribunal da minha consciência / Como réu confesso pedir clemência / O meu erro é bem humano / É um crime que não evitamos / Esse princípio alguém jamais destrói / Errei, erramos”.

Não quero nem entrar no mérito de qual será a atitude da FIA diante desta confissão pública assinada por Martin Whitmarsh. Nos bastidores deste vil negócio, acordos são costurados e a política sempre vem antes, muito antes, do princípio de justiça. Ao que parece, o carro construído pela McLaren em 2008 possui diversos componentes do F2007 da Ferrari. Incluindo aí o uso de CO2 para inflar os pneus – se você não se lembra, este era um dos temas que vieram a público na troca de e-mails entre Pedro de la Rosa e Fernando Alonso. O piloto de testes contou que recebera a informação através da ponte Nigel Stepney-Mike Coughlan e de que era algo que eles deveriam testar e usar. Nas palavras de De la Rosa: “É fácil!”

Vale lembrar que o veredicto aplicado pela FIA em 13 de setembro dizia que a entidade faria uma inspeção técnica no carro da equipe e, que se fossem encontradas evidências do uso de informações vindas da Ferrari, alguma sanção poderia ser imposta. Agora, vem o senhor Whitmarsh confirmar, numa carta, que uma série de elementos dos carros da Ferrari estará no carro do ano que vem. E roga uma “moratória” no desenvolvimento destes componentes como solução para se livrar de uma punição.

É obvio que tais informações técnicas são sempre disseminadas nos bastidores da Fórmula 1 – um lugar onde já foi dito: “nada se cria, tudo se copia”. Devem ter outras equipes já testando o CO2 em seus pneus. Mas a McLaren insistiu em usar estas inovações, mesmo com provas de que conhecia as informações através dos dados entregues por Stepney e também com um veredicto que a coloca contra a parede.

Réu confesso. Pune ou não pune?

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

COPA MAX MOSLEY DE FÓRMULA 1

Aconteceu de novo: a FIA considerou a Renault culpada de ferir o artigo 151c, mas não sofrerá nenhum tipo de punição. Foi exatamente o mesmo veredicto dado, inicialmente, para a McLaren. Volto a insistir na tecla de que esta é uma decisão indigna e equivocada. Um culpado deve ser punido, como aconteceu com a McLaren (mas, inexplicavelmente, não com seus pilotos), ainda que só depois do surgimento de novas provas. Por que com a Renault seria diferente?

Se é para avacalhar, façamos o que já foi feito no futebol brasileiro, como na época da Copa João Havelange: que façam uma temporada normal, para depois decidir o título em apenas uma corrida com os cinco primeiros colocados da F-1, o campeão e o vice da GP2, mais o campeão da F-3000 Euroseries.

Lamentável. Só vai servir para manter esta estória viva por mais tempo. Sinto que ainda veremos os desdobramentos dos casos de espionagem de 2007 ressurgirem, aqui e ali. Como um fogo fátuo.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

MANDANDO A CONTA

Flavio Briatore foi o único dirigente de uma terceira equipe a dar declarações inflamadas durante o escândalo de espionagem envolvendo McLaren e Ferrari. Se vestiu de defensor da moral e colocou lenha na fogueira – certamente prevendo a possibilidade de contar com Fernando Alonso na equipe. Agora, justamente no momento em que se via prestes a conseguir seu intuito, a FIA chama a Renault para se explicar em um escândalo de espionagem. Ron Dennis certamente deve estar fazendo uma espécie de “vendetta” contra Briatore. Se for comprovada a posse destes dados da McLaren no carro da Renault, é praticamente inimaginável que a equipe não seja punida. Alonso, claro, não vai assinar enquanto a situação não se definir, o que só deve acontecer em dezembro. Enquanto isto, ele olha com carinho outras possibilidades.

De toda esta fedida merda, uma única certeza: o “Stepneygate” ainda terá muitos desdobramentos. Existe uma corrente de torcedores e jornalistas que torce para que um acordo seja costurado logo e que a história suma para não prejudicar o “esporte”. Eu sou da outra corrente: enforquem o último espião da Fórmula 1 nas tripas do último senador corrupto! E você?

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

NUMA BOA

Muita gente acreditava que a carreira do grande pivô do escândalo de espionagem que turvou a disputa esportiva deste ano estaria acabada. Não é o que parece. Segundo o “Gazzetta dello Sport”, Nigel Stepney já está de volta à Inglaterra e arrumou um novo emprego, na Aston Martin - apropriadamente, a marca que se consagrou como a "dos carros de James Bond, o agente 007".

Se for verdade, seria um fato extremamente polêmico e que dará muito pano para manga: no mês de março, a Prodrive tornou-se sócia majoritária da marca inglesa, comprando 85% das ações que pertenciam a Ford. Como se sabe, a Prodrive pertence a David Richards e vai entrar na Fórmula 1 no ano que vem. Como cliente da McLaren.

Aiaiaiai...

sábado, 15 de setembro de 2007

QUANTO MAIS CONHEÇO O HOMEM, MAIS EU GOSTO DO MEU CÃO

“Nós vamos engolir esta multa pelo bem do esporte”, disse Ron Dennis, o paladino da moral e da honestidade, para os repórteres em Spa.

“A Ferrari está satisfeita agora que a verdade apareceu”, disse a Ferrari, sinônimo de esportividade e limpeza, em comunicado oficial.

“A punição foi muito branda e fica difícil justificar para as outras equipes o motivo disto. Pessoalmente, eu era a favor de uma pena mais severa, mas outros interesses prevaleceram. Se a McLaren apelasse, corria o risco de ver também os seus pilotos perdendo todos os pontos”, disse Max Mosley, o paladino da justiça e da imparcialidade, para a tevê alemã.

Diante dos trechos do julgamento revelados ontem pela FIA, não tenho dúvidas de que a McLaren usou dados do relatório obtido por Coughlan através de Stepney. A intenção de usá-los é inegável. O uso ou não só poderia ser confirmado por alguém de dentro da equipe, o que obviamente jamais irá acontecer. Ainda que a vantagem obtida com isso seja impossível de se medir quantitativamente, ela existiu.

Mas pela satisfação de todas as partes envolvidas, com exceção de Max Mosley – que também não é flor que se cheire –, e pelo desejo geral de se encerrar esta história o mais rápido possível, fica a impressão de que a sujeira varrida para debaixo do tapete é muito maior do que se imagina.

Que a Fórmula 1 hoje em dia é apenas uma enorme orgia comercial-tecnológica travestida de esporte, todos sabemos. Os personagens do jogo, sem exceção, cometem todo tipo de infração (umas maiores, outras menores) em busca da vitória. Mas esta busca não visa mais a satisfação pessoal, a glória por derrotar os adversários. Ela busca unicamente o lucro, o dinheiro (muito dinheiro), é movida pela ganância, não pela competitividade.

No fundo, como bem disse meu colega Flavio Gomes, é apenas um campeonato de carros e pilotos, nada mais do que isso. Mas não deixa de ser um retrato do mundo em que vivemos. Aceitar a falcatrua como parte do jogo é aceitar a corrupção generalizada dos políticos do mundo todo; é aceitar as injustiças sociais, do Brasil como um microcosmo e do planeta em geral; é aceitar a destruição iminente deste mesmo planeta, através do aquecimento global, em virtude da sanha por dinheiro das grandes potências e grandes indústrias. Eu fico mesmo indignado com tudo isso. E lamento muito a falta da capacidade de se indignar que o ser humano atual apresenta.

Pronto, juro que vou encerrar por aqui meus comentários sobre este caso, até porque meu saco já estourou e eu já estourei o de muito de vocês com tanto mau humor. Pelo menor por enquanto, porque estou com a forte impressão de que esta história ainda terá muitos desdobramentos!

(Hoje o dia está muito corrido. Se der, volto mais tarde para colocar uma linda miniatura no ar e atualizar o espaço com outras coisinhas. Vamos curtir coisas boas também, merecemos todos!)

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

CHANCE DESPERDIÇADA

Na verdade, o documento distribuído hoje pela FIA com as informações deliberadas ontem mais me fizeram chorar do que rir. Quer dizer então que a McLaren recebia de antemão as voltas em que os pilotos rivais parariam desde as corridas do início do ano. Quer dizer então que entre 11 de março, uma semana antes da abertura da temporada, e dia 3 de julho, quando o escândalo estourou, Nigel Stepney e Mike Coughlan trocaram 288 mensagens instantâneas e 35 telefonemas. Seria possível que informações como a distribuição de pesos dos “Red Cars”, ainda que não pudessem ser aplicadas um para um no MP4-22, não acelerassem o entendimento do melhor funcionamento dos pneus Bridgestone?

Diante disso tudo, fica difícil entender o argumento de boa parte da mídia inglesa, e de outras pretensas mídias, de que o julgamento não provou nada, que a punição para a pobre McLaren foi severa demais e que só serviu para dar um título “de presente” para a Ferrari. Fica mais difícil ainda entender o motivo da perda de pontos não ter atingido os pilotos também. Sim, eu sei: preservaram o campeonato, a credibilidade da categoria, os pilotos não tiveram influência em nada (será mesmo? Vocês leram o conteúdo dos e-mails?), etc, etc. Mas, no fundo, a FIA perdeu uma ótima chance de colocar um pouco de honestidade na Fórmula 1.

É algo que ela vem fazendo há muitos anos, aliás. Quantas vezes, uma equipe não foi pega com a boca na botija, burlando o regulamento e isto sendo constatado na inspeção técnica? São milhões de exemplos, mas vou citar só alguns de cabeça: McLaren no GP da Espanha de 1976; McLaren (GP de San Marino) e Benetton (GP da Alemanha) em 1994; Benetton e Williams no GP do Brasil de 1995 (na verdade, a gasolina da Elf); Ferrari no GP da Malásia de 1999; McLaren no GP da Áustria de 2000. Isto só para citar algumas infrações técnicas comprovadas pelos fiscais de prova. Sem falar em suspeitas, muito menos em inúmeras decisões polêmicas tomadas pela entidade, tanto no aspecto técnico como no esportivo.

Em todos os casos citados acima, a infração observada pelos comissários foi posteriormente discutida a portas fechadas e, sem exceção, relevadas: as equipes foram absolvidas ou multadas, mas mantiveram os resultados conquistados. Ora essa, não sei se sou muito purista aqui, mas seria tudo mais fácil se um carro pego fora do regulamento em uma inspeção fosse sumariamente desclassificado – mesmo que não se prove se houve dolo na infração. “Sinto muito, caro dono de equipe, mas a palavra final é sempre da fita métrica, ou da balança. A incompetência, proposital ou não, foi dos seus empregados. Não há nada que possamos fazer”. Infelizmente, não é bem assim.

Se estes episódios sempre prejudicaram um pouco a credibilidade da Fórmula 1, este caso de 2007 extrapolou. Não, não se trata aqui de um carro fora do regulamento – provavelmente, o MP4-22 não é. Mas é preciso lembrar que as características de um F-1 atual (não dá para ultrapassar nem nas avenidas largas de Brasília) junto com o regulamento esportivo da categoria (o trecho decisivo da classificação é disputado já tendo em vista a primeira parada nos boxes da corrida) transformam as estratégias de uma equipe no grande cerne da disputa. Imagine só o tamanho da vantagem que é saber de antemão as manobras do seu adversário! Ainda mais numa disputa tão acirrada como esta.

Sinceramente, fosse a McLaren, a Ferrari, a Lotus, a Copersucar, fosse qualquer equipe: a punição deveria ter sido exemplar neste caso. Sim, iria danificar a imagem da categoria, mas quem viveu os turbulentos dias de maio de 1994 se lembra que a imagem da Fórmula 1 na época era um amontoado de cacos, e ela conseguiu se reerguer muito bem.

Perdeu-se uma ótima chance de repetir este mesmo processo agora. Perdeu o esporte (não a Fórmula 1, porque ela jamais perde enquanto os bolsos dos tubarões lá dentro estão enchendo). O circo continua e os palhaços nas arquibancadas aceitam passivamente que toda esta lama aconteça em nome do show (Show? Este amontoado de corridas modorrentas?). Fariam melhor se exigissem que seus direitos de consumidor fossem respeitados e estendessem faixas de protestos nos autódromos. “Bernie/Max, não é esta a Fórmula 1 que nós queremos”. Taí uma boa sugestão.

Diante disso tudo, impossível não lembrar de uma excelente frase do senhor Ecclestone. Há uns cinco anos atrás, ele estava em Mônaco durante uma corrida de carros de F-1 históricos (o evento é sempre disputado uma semana antes do GP de F-1, aproveitando que a estrutura já está montada). A certa altura, ele chegou ao lado de Stirling Moss e disparou: “That’s wonderful, isn’t it? Just like it was before I’ve fucked it all up”.

Falou tudo, Mr E!

(Sim, teve treinos hoje, a McLaren foi melhor, a Ferrari está perto, a Toyota surpreendeu. Mas não há ânimo para comentar mais do que isto, vocês hão de entender.)

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

UM JULGAMENTO PARA INGLÊS VER

Confesso que não estava muito ansioso com o julgamento de hoje. Atualizei o blog de manhã e fui cuidar de outros assuntos pendentes em outros pontos da cidade. Quando chegasse em casa, veria a decisão e daria o meu comentário. No fim, a reunião acabou se extendendo e cheguei ao computador em tempo de ver toda a confusão causada por uma notícia errônea publicada no site da Autosport – ao que parece, devido a uma informação errada da delegada da FIA presente em Spa-Francorchamps – e desmentida logo depois. Quem conhece o que era e o que é a Autosport atualmente deveria dar bem menos crédito a eles.

Bem, no final, a McLaren perdeu os pontos, tomou uma multa e o barco segue. Seus pilotos? Nada, eles ganharam imunidade por terem colaborado com o caso. Excelente: quando li a carta da FIA relativa aos e-mails enviados por Fernando Alonso e Pedro de la Rosa, acreditei que a tal imunidade era de ordem disciplinar (ameaça de cassação da superlicença), e não esportiva (perda de pontos por uma eventual vantagem indevida obtida por sua equipe). Engano meu.

Então, pelo que eu entendi, a McLaren foi considerada culpada – ou seja, levou algum tipo de vantagem a partir dos documentos do carro adversário que estavam de posse de um funcionário seu. Mas os pilotos que ganharam corridas e somaram pontos, não levaram nenhuma vantagem com isso. Ou sim, levaram vantagem, mas como ajudaram aos dirigentes a apontar a falcatrua, saíram ilesos da história (como se tivessem revertido esta vantagem). Genial, não é?

Agora sim estou ansioso. A FIA vai divulgar amanhã um comunicado explicando o que a levou a este veredicto. Ótimo, estou precisando mesmo dar umas boas risadas.

No fim, claro, uma decisão absolutamente conciliatória. A Ferrari já é a campeã dos construtores, o padre de Maranello deve estar dobrando os sinos da igreja até agora. Que título bonito! A McLaren tomou uma multa de 100 milhões de Euros e, pior, parte do valor já será descontado de sua fatia no apetitoso bolo distribuído pela FOM. Dolorido? Em termos: é como se perdesse um quinto do orçamento que teria para o ano que vem. Terá aí de arrumar uns 60 milhões para cobrir o prejuízo. Pode ser muito para Ron Dennis, mas apenas um troco para a Mercedes-Benz, se for ela a pagar esta conta. Menos que o financeiro, o pior mesmo é a imagem arranhada. Mas, isto eles sabem, poderia ter sido muito pior. Até porque, quando o campeão da temporada for decidido, ele estará vestindo um macacão prateado com a estrelinha da marca alemã. As queimaduras sofridas hoje em Paris não representarão mais nada diante do bálsamo das imagens distribuídas em todo planeta quando da conquista do título de Pilotos.

No fundo, mesmo diante do que parece ser um caso escandaloso de vantagem indevida, a FIA e as forças dominantes da Fórmula 1 cuidaram de preservar os três principais mercados da categoria na Europa (e, também do mundo, ao lado do Japão). A Inglaterra de Lewis Hamilton, a Espanha de Fernando Alonso e a Alemanha da Mercedes-Benz. A Itália, que terá de se contentar com o Mundial de Construtores, está claramente abaixo destes outros países. Até porque a força da Ferrari só aparece quando se leva em conta o planeta todo – um ajuntamento, mais ou menos residual, de fãs em todos os cantos da Terra.

Para Alonso, foi uma vitória pessoal, já que este veredicto deve destravar sua multa contratual se ele quiser assinar por outra equipe – e há fortes indícios de que ele quer. Mas foi também uma perigosa derrota. O verdadeiro vencedor desta quinta-feira é este guri da foto aí em cima: Lewis Hamilton. Perdido o Mundial de Construtores, a McLaren vai com tudo agora para garantir a conquista entre os Pilotos – algo, aliás, praticamente certo, basta olhar na tabela. Mas, mais do que isso, vai tratar nos pequenos detalhes para que o troféu fique com o bom soldado Hamilton, e não com o marrento e rancoroso Alonso. Eu apostaria nisso.

Assim, foi um julgamento para inglês ver.

+++

Infelizmente esta história não acabou e ainda vão surgir muitas acusações e controvérsias até o fim do ano – e possivelmente muito além disso. Mas, caso Hamilton confirme o título, criará um interessante paralelo com Michael Schumacher. A primeira conquista do alemão foi absolutamente controversa e ocorreu num ano caótico para a Fórmula 1, como este. Obviamente, no desenrolar de sua carreira, ele provou ser um piloto altamente competente e excepcional, não há muito o que discutir sobre isso. O inglesinho se verá então com a mesma tarefa: terá de florescer como um dos grandes pilotos de todos os tempos, colecionando vitórias, títulos e recordes. Mas, se ficar só com essa conquista de 2007, irá se juntar a seus compatriotas John Surtees e James Hunt. Campeões do mundo, sim senhor, mas apenas uma vez – de uma maneira polêmica e, para muitos, considerada injusta.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

O MUNDO É UM MOINHO

Existe maior confissão de culpa por parte de Ron Dennis do que esta campanha que a McLaren está fazendo contra Renault e Ferrari? A primeira, e óbvia, leitura é a de um homem que vê seu império prestes a ruir e, na hora da queda, pretende levar consigo o maior número possível de vítimas. Mas há muito mais por trás disso.

A indigesta pizza servida em Paris no dia 26 de julho causou uma enorme dor-de-barriga na Ferrari. Antes dela, a equipe já entrou em crise – e ainda se encontra nela – ao constatar sua própria incompetência em controlar os atos do insatisfeito Nigel Stepney e a vazão de informações confidenciais para seu maior adversário no campeonato. E sabe também que há outros insatisfeitos em seu quadro que colaboraram com isso.

O problema não é novo. Como bem lembrou o leitor Marcos Smirkoff, a Ferrari já tem em seu histórico recente o desvio de informações suas para a Toyota, ocorrido em 2003 e que resultou em uma ação na justiça. Vale lembrar que a Ferrari levou os dois títulos daquele ano e que a Toyota era – e ainda é – mera figurante. Mas a situação agora é diferente.

Depois que o escândalo estourou e a polícia italiana entrou em ação, a Ferrari certamente soube do conteúdo do material enviado a Mike Coughlan. E, provavelmente com razão, teve a certeza de que a McLaren se aproveitou dele para tirar vantagem no campeonato. Não se trata de copiar uma peça ou algo do gênero. Mas saber coisas como as características do carro adversário, a gama de estratégias de corrida que ele permite, a maneira com que o F2007 é regulado para otimizar o uso dos pneus, tudo isto permitiria à McLaren otimizar o desenvolvimento do seu próprio modelo de maneira a minar os pontos fortes – e explorar os fracos – do adversário.

Todas estas tecnicidades são muito sutis e difíceis de serem provadas. E foi esta a linha que a McLaren tomou desde o início. Em 5 de julho, o dia seguinte ao que o escândalo veio a público, o primeiro argumento usado por Dennis foi “não tem nada deles no nosso carro. Tenho certeza de que a FIA irá comprovar isto agora ou no futuro, e este é o ponto principal”.

Esperto, ele estava falando uma verdade e, ao mesmo tempo, desviando o foco de atenção do ponto principal. Sim, não houve cópia, mas tudo indica que eles tiraram vantagem do mesmo jeito, como explicado acima. Em Monza, em conversas com pessoas de diversas equipes, ouvi de muitos a afirmação categórica de que é possível tirar vantagens sabendo os segredos do equipamento adversário, mesmo sem copiar um parafuso dele. É exatamente isto que a Ferrari está tentando provar há tempos e não vinha conseguindo.

Pois bem, o resultado do julgamento do fim de julho confirmou a linha de defesa de Ron Dennis. Embora todos suspeitassem do uso das informações para benefício da equipe, não havia como assegurar isto. Por isso, o insólito veredicto do “culpado-inocente”. Não satisfeita, a Ferrari acionou seu pau-mandado Gianni Macaluso, presidente da Federação Italiana de Automobilismo, para pleitear junto a FIA o envio do caso para o Tribunal de Apelação. Com isto, ganharia tempo para ver se encontrava novas evidências.

No dia 30 de julho, Macaluso enviou uma carta simples para Mosley, explicitando que sua federação e a Ferrari estavam insatisfeitos com o veredicto, pois acreditavam que vários membros importantes da McLaren sabiam da existência do material e teriam tirado proveito dele. Ponto final. A resposta do presidente da FIA, porém, foi incrivelmente explícita. Ao invés de simplesmente dizer que a FIA aceitaria o pedido e convocaria o Tribunal de Apelação, ele citou, ponto por ponto, todas as inconsistências na defesa da McLaren, mas afirmou que mesmo assim não havia como provar o uso dos dados. E tornou a carta pública.

Provavelmente, Max Mosley também acreditava que a equipe prateada era culpada. E aproveitou para jogar uma isca para Ron Dennis. Ele a mordeu com uma voracidade de um badejo da Etiópia e a ingenuidade de uma criança de pré-escola. Explicitou em diversos parágrafos que Stepney deu a dica para Coughlan sobre o assoalho móvel da Ferrari, e seu projetista avisou à direção da equipe sobre o assunto. Estes entraram com um protesto na FIA contra o time italiano. Sobre o porque não teria dito a Ferrari que fora Stepney quem lhes passara os dados, Dennis justificou: “Nenhuma equipe pode esperar que seus empregados fiquem quietos se eles suspeitam – neste caso, corretamente – que seus empregadores estão quebrando as regras do esporte. E é do interesse da Fórmula 1 que a ‘deduragem’ seja encorajada, e não o contrário. Se membros de uma equipe acham que suas identidades serão reveladas, eles não irão delatar”.

Foi um tiro no pé. Em primeiro lugar, porque a Ferrari era juridicamente inocente no caso dos assoalhos móveis. Em Melbourne, os comissários realizaram o teste de flexibilidade previsto pela FIA e a peça foi considerada regular. Só quando a FIA anunciou que iria aumentar a intensidade destes testes, é que a equipe (e a BMW Sauber também) colocou assoalhos novos. A interpretação da regra era imoral (o assoalho era mesmo flexível), mas os testes que a FIA fazia a colocavam dentro do regulamento, só se a intensidade fosse muito maior eles seriam pegos: é a popular “brecha” encontrada para tirar vantagens. Sacanagem, sim, mas só encontraremos santos no automobilismo, em termos de burlar um regulamento mal escrito, no campeonato de kart do Vaticano. E ele não existe.

Em segundo lugar, porque Dennis confirmou ali, preto no branco, que os diretores da equipe receberam informações sobre o F2007 que foram enviadas por Stepney para Coughlan. Ainda que o argumento da transparência do esporte seja louvável, juridicamente ele assinou uma confissão de culpa – e em público. Teve gente na Itália que leu o documento com um largo sorriso nos lábios.

Para piorar, os novos elementos surgidos na última semana parecem definitivamente confirmar que a McLaren usou em benefício próprio os dados do F2007. Ron Dennis, em desespero, resolveu contra-atacar denunciando irregularidades nos carros da Ferrari (algo a ser ainda oficializado, se for) e também da Renault – um forte indício de que Flavio Briatore deve mesmo estar envolvido no surgimento destas novas provas contra sua equipe.

Curiosamente, o mesmo amor pela transparência no esporte que ele demonstrara para explicar o episódio ocorrido em Melbourne, só floresceu agora que sua casa, ou seu motorhome de três andares, caiu. Se é este bastião da esportividade que muitos pregam ("ele preferiria perder um campeonato a trapacear", escreveu um badalado jornalista inglês), porque ele esperou até agora para denunciar as falcatruas de seus adversários? Não vejo outra explicação que não o fato dele também ter culpa no cartório.

Certamente, os tiros que ele está dando servirão, no máximo, para ferir seus alvos. É possível e até provável que os carros de Ferrari e Renault, possivelmente o de todas as equipes do grid, possuam peças que interpretam de forma imoral o regulamento, ou mesmo que não o cumpram. Mas a situação é bem diferente do que possuir um dossiê completo do seu principal adversário pelo título – e sabe-se lá mais o que.

Todo este tiroteio que mina ainda mais a credibilidade da Fórmula 1 parece mesmo um ato desesperado de um homem que se vê acuado. De um lado, uma frente de gente poderosa e fortemente armada, disposta a atirar e a ver sangue. Do outro, um imenso abismo. Abismo que ele cavou com seus próprios pés.