Acabo de retornar do jantar de abertura da 20ª edição do Wrooom, o tradicional evento que marca o início da temporada da Ferrari e, desde alguns anos, também da equipe Ducati da Moto GP. Na minha terceira passagem por aqui, os rituais vão se repetindo e o clima é o de primeiro dia de volta às aulas: reencontro com os colegas da sala de imprensa, desejos de feliz ano novo e troca de impressões sobre o que foi feito nas férias de fim de ano.
O evento ocorreu no “Salão Hofer”, uma sala histórica do tempo em que os Habsburgo comandavam a região, que ainda fazia parte do Império Austro-Húngaro. Época em que surgiu esse vilarejo, com uma igreja, um hospício e um hotel onde um “Não-sei-o-que-lá Hofer” pintou os afrescos que adornam as paredes até hoje.
Em meio a um farto bufê que, claro, continha as indefectíveis especialidades da região (a saber: o queijo de Trento e a polenta), os pilotos apareceram e ocuparam seus espaços de maneiras diferentes. Nicky Hayden passeou com tranqüilidade pelo salão, mas sempre com a expressão séria. Difícil ver este moço sorrir. Já Casey Stoner estava com cara de doente. Podia ser mero enfado, mas sua bela e solícita esposa Adriana cuidava de fazer todos os mimos para o australiano enquanto ele ficava enfurnado num banco de madeira.
Felipe Massa comprovou seu status de membro querido da família Ferrari, sendo cumprimentado efusivamente por membros da equipe e patrocinadores por onde passasse. Na breve conversa que tive com ele, reafirmou a grande alegria com o nascimento do filho, demonstrou ânimo com a temporada e deu a entender que é mais um dos muitos pilotos do paddock a ser mordido pelo bichinho do pôquer – aliás, já que a Ferrari conta ainda com os contumazes jogadores Giancarlo Fisichella e Fernando Alonso, melhor comprar logo uma mesa para colocar no motorhome e contratar um croupier.
Falando no espanhol, ele parecia mesmo aquele menino estreando numa escola nova. Chegou tímido, pela primeira vez de vermelho e ostentando o logotipo da Ferrari. Instalou-se num canto do salão longe da muvuca e só saiu de lá depois que os colegas da imprensa espanhola apareceram. Mas demonstrou simpatia às diversas manifestações de boas-vindas que recebeu e chegou até a brincar no momento das fotos oficiais, roubando o equipamento de um cinegrafista e filmando a bagunça.
A sessão de fotos, aliás, foi o ponto culminante dos inevitáveis micos que esses eventos criam. Depois que alguns pares vestidos a caráter dançaram meia-dúzia de valsas, os pilotos tiveram que ficar ao lado do casal “Franz Josef e Sissi” (que, naturalmente, não falavam uma palavra de alemão) para fazer a festa dos fotógrafos. Foi curioso, criou um clima de baile imperial, mas combinou só com o “Salão Hofer”, não com o resto. Porque a tradição nobre e afrescalhada dos Habsburgo nada tem a ver com a tradição latina e barulhenta da Ferrari.
A turbulentatemporada da Fórmula 1 teve pontosnegativos de sobra. Aqui a minhacompilação do quemais chamou a atenção nesse quesito. Infelizmente, os escândalos estiveram no topo de tudo e sobraram opçõespara uns quinze itens. Espero no anoque vem termais dificuldades para essa seleção.
10 – Adrian Sutilem Cingapura
Já cansei de veressetipo de manobra no Grand Prix Legends, masnão esperava isso na Fórmula 1. Depois de baterrodascom o errático Jaime Alguersuari e rodar, Adrian Sutil resolveu darumcavalo-de-pauparavoltarpara a pista – bem no meio do tráfego. Arrebentou o carro de Nick Heidfeld e o respeitoque os colegas tinham porele. Foi o “MomentoPaul Tracy” do ano. Da década, melhor dizendo.
9 – Coletiva de Lewis Hamilton na Malásia
Com a cara de umfilhoteexpulso da ninhada e a vozhesitante, Lewis Hamilton encarou os jornalistas da Fórmula 1 parapedirdesculpas públicas pelo chamado “escândalo da mentira”. Ummomento constrangedor de tentarexplicar o inexplicável. A mídia inglesa, paraquem a maneira de se comportar de umcampeão do mundo e tãooumaisimportanteque o feito, caiu de pau. Teria sido melhorficarquieto. Michael Schumacher nunca teve queexplicarporque transformou a Rascasse num estacionamento.
8 – Kazuki Nakajima
Se a Williams perdeu o sextolugar no Mundial de Construtores para a BMW Sauber na últimacorrida, a culpa foi de Kazuki Nakajima. Afinal, os 34 pontos e meio conquistados pelaequipeem 2009 vieram do outrolado da garagem, o do alemão Nico Rosberg. Comoumautênticozero à esquerda, o japonês chegou ao fim do anosemterseunome ligado a nenhuma equipe, mesmo o pessoal na finada Toyota havia perdido as esperanças nele. E, o pior, ninguém no ambientesemprecínico da Fórmula 1 perdeu tempo falando mal dele. Vai embora e ninguém vai percebersuaausência.
7 – Giancarlo Fisichella na Ferrari
Claro, Luca Badoer foi a catástrofe do ano: irremediavelmente lento, completamentefora do ritmo e semconfiança no equipamento. Trágico, sim, mas a posterior participação de Giancarlo Fisichella com a equipe de Maranello salvou a imagem do pobre Luca. Afinal, além de limitado, Badoer não disputava uma corrida há mais de dezanos e não teve contatocomum F-1 nesta configuraçãoaerodinâmica e compneus slicks antes da estréiaemValência. Eraumnaufrágio anunciado. Já Fisichella é umpilotomaiscompetente e chegou na Ferrari depois de umresultadoimpressionantecom a Force Índia. Suamissãoeraajudar a Ferrari a se manterem 3° lugarentre as equipes, somando alguns pontinhos. Falhou fragorosamente. Seusonho de pilotarpelaequipe virou umpesadelo – e uma das maioresdecepções da temporada.
6 – Romain Grosjean
Nãoprecisanemlevaremconta a confusãoque a decisão gerou: estava na caraque a chegada de Romain Grosjean na Renault era a troca de seispordemi-douzaine. Foi atépior, pois o desempenho do francês nas provasque disputou lembrou o Nelsinho Piquet do início de 2008: afoito, inseguro, commuitoserros, acidentes e nenhuma produtividade. Além de queimarseunomepara a categoria, as setecorridasque fez serviram paraconfirmarque as apostas de Flavio Briatore, na maioria das vezes, são furadas.
5 – BMW Sauber
Em 2008, a equipe bávaro-suíça abdicou do desenvolvimento de seucarro – e portabela de brigarpelotítulo da temporada – para se concentrar no modelo deste ano. Também foi o timequemais insistiu no uso do KERS, apostando que seria a armasecretaparadominar o ano. Doistiros n’água. O F1.09 foi umcarronatimorto: o dispositivonão funcionou a contento e foi logo descartado, depois do projetotodoter sido feitoemtorno dele. Depois do fracassoesportivo, veio o inesperadoanúncio de que a marca estava deixando a categoriadepois de apenasquatrotemporadascomoequipeprópria. Com o raboentre as pernas.
4 – Heikki Kovalainen
A McLaren começou o anocomum dos piorescarros do grid, mas conseguiu virar o jogo a partir do meio da temporada e venceu duas corridascom Lewis Hamilton. Heikki Kovalainen? Bem, não subiu nenhuma vez ao pódio, umfeitoparticularmenteincrívelemValência, uma pistaondenão há pontos de ultrapassagem, quando largou da segundaposição e terminou emquartolugar. O finlandêsnão é nenhumnovato e teve a partir da Alemanha umequipamento competitivo emmãos. Mesmoassim, terminou com o mesmonúmero de pontosque Felipe Massa, quesó pôde disputarnovecorridas no ano. Umdesastretotal.
3 – FIAversusFOTA
A brigapelopoder na Fórmula 1 neste ano lembrou a de temposremotos, quandosó algumas letras eram diferentes: Fisa versusFoca. E foi o motor de todos os outrosescândalos do ano, tudomanobraspolíticas no complexotabuleiro da categoria, onde o bem-estar da mesmanão preocupou ninguém. O duelosónão ocupa o topo dessa listaporque (infelizmente) aindanão acabou. E a impressãoque fica é que “casualidades de guerra” como Max Mosley e Flavio Briatore farão de tudoparavoltar aos holofotesassimquepossível. Embrulha o estômagosó de imaginar...
2 – Falta de ultrapassagens
Novopacote aerodinâmico, asasmóveis, KERS. As novidades no regulamentotécnico da Fórmula 1 visavam apenasumobjetivo: melhorar as chances de ultrapassagem. Mas as corridas de 2009 foram, com raras exceções, uma procissão de monotoniacomapeloreservadopara os que se interessam ementenderquestões de estratégia. Se os difusoresduplos foram o instrumentopara o fracasso da idéia, a (proposital) indecisão da FIA na hora de esclarecer a regra manchou o início do campeonato e o trabalho de muitagente. Novasidéiaspara 2010, principalmente o fim do reabastecimento, podem causaralgumimpacto no problema. Resta ficarmos na torcidaparaque, desta vez, seja umimpactopositivo.
1 – Cingapura 2008
É mesmomuitograve a conspiração de causarumacidenteparafavorecerumoutropiloto da equipe e conseguirumresultadoque salvasse a pele de todos? É óbvioquesim. A Fórmula 1 já viveu suashistórias de espionagemindustrial e a flutuação de informaçõesque acompanha as transferências de engenheiros é inevitável e maisoumenos aceita. Assimcomopilotosque recebem ordensparacederposição ao companheiro de equipe. Mas naquela noite de setembro os já frágeis alicerces do esporte foram completamente ignorados, assimcomo a segurança do executor, de seuscolegas e também do público. Foi umgolpemuitobaixo, de gentesemescrúpulos e/ouforçamoral. E a motivação vingativacomque a históriaveio à tonamostramesmoque se trata de umconto de desclassificados, aindaque o efeitocolateral do episódio – a saída de Briatore do esporte – tenha sido positivo.
Nadacomoumespecialparacelebrarumfinal de temporada, não é? Preparei um em três partes, começando com os dez melhores da temporada na minha opinião. Discorda de algum ponto? Faltou alguma coisa imprescindível? Dê a sua opinião! E amanhã tem mais especial, aguarde!
10° lugar – Kamui Kobayashi
Em duas corridas, o japonês da Toyota trouxe uma (enorme) lufada de arfrescopara a Fórmula 1, mostrando agressividade, executando ultrapassagens e deixando marcas no conceito de muitosnovatos (e veteranos, e mesmo do campeão do mundo).
9° lugar – Pole de Buttonem Mônaco
Seudesempenhonos treinos livrestinha sido bom, masnãoexcepcional. No Q2, Button ficara apenasemoitavolugar e, no Q3, estava estacionado emposições intermediárias quando foi parasuaúltimavoltarápida. Umgirodeterminado, no limite e perfeito, quelhe garantiu uma pole position da qualjamais pareceu candidato.
8° lugar – Lewis Hamilton
Depois do chamado “escândalo da mentira” e de uma atuaçãotriste na suacasaem Silverstone, o ano de Lewis Hamilton parecia fadado ao fracasso. Mas a McLaren soube lhedesenvolverumcarro competitivo e o inglês retribuiu com duas vitórias e maisumpar de grandesatuações. Acima de tudo, mostrou que o maismenino dos campeões mundiais está maismaduro do quenunca.
7° lugar – Circuito de Suzuka
O pessoal do Mobility Land gastou umbomdinheiro na reforma de Suzuka e mostrou quemesmo uma pista tradicional pode atender aos padrões da Fórmula 1 moderna, comumpaddock e boxesamplos e instalaçõesconfortáveis. E o traçado de John Hugenholtz provou mais uma vezserum dos mais desafiadores do mundo. A novageração da categoriaque o diga.
6° lugar – Mark Webber
“Webbo” passou o ano de cama e a pré-temporada submetido a uma intensafisioterapia, incluindo sofridas sessõesemcâmaras criogênicas (sim, aquelesambientes gelados usados embancos de esperma, porexemplo). O esforço foi recompensado com duas vitórias e umritmomaispróximo de Sebastian Vettel do quemuitagente imaginava, configurando suamelhortemporada na Fórmula 1.
5° lugar – GP do Brasil
Interlagos estabeleceu-se comopalco de decisões, mas o GrandePrêmio do Brasil foi além disso. Seu traçado garantiu ótimas disputas, a dosehabitual de confusão (o drama do sábado, Trulli e Sutil, Kobayashi e Nakajima) e a tradicional e inigualávelpaixão da torcidapelacategoria, que faz do evento o favorito da maioria de seuspersonagens (pilotos, membros das equipes, jornalistas, etc).
4° lugar – Adrian Newey
Emsuaquartatemporada na equipe Red Bull, o “engênieiro” inglês justificou cadacentavo de seuamplosalário projetando o melhorcarro da temporada. A mudançaradical nas regras permitiu queele exercesse suacriatividade; a confusãocom a regra dos difusores impediu quesuacriação dominasse o anotodo. Mesmoassim, Newey correu atrás do prejuízo e realizou commaestria as adaptações necessárias ao difusorduplo. As trêsvitórias no final do ano ficam comoprova.
3° lugar – Giancarlo Fisichella em Spa
O mundo parecia girar ao contrário naquele final de semana de setembro. Giancarlo Fisichella colocou o carro na nanica Force Índia na pole position e sónão venceu a provaporque havia um inspiradíssimo Kimi Raikkonen em uma Ferrari com KERS pararesistir à suadiabólicapressãodurante umas 40 voltas. Com o melhorcarro daquele final de semana, o italiano exibiu a melhorfaceta do esporte, antes de fazerum dos “worst career moves” da história.
2° lugar – Sebastian Vettel
Está certo, ele cometeu a suadose de erros, como a desnecessária e desastradadefesa de posiçãocontra Kubica na Austrália, a batidaoriunda de purafrustraçãoem Mônaco ou o erro na primeiravolta na Turquia. Mascomotudo na trajetória de Vettel é natural, ele aprendeu rapidinho e fez uma tremendasegundametade da temporada. E deixou a impressãoque, apesar das falhas, o título se perdeu mesmonosproblemas de motorque teve. E vê-lo comofuturocampeão do mundojá deixou de serimpressão. Virou certeza faz tempo.
1° lugar – Brawn GP
Uminverno de absolutaincerteza – a únicacertezaque tinham é que o carro projetado eraexcepcional – criou uma unidade poucas vezesvistaem uma equipe de Fórmula 1. E foi esta união o principalsegredo do sucesso da Brawn GP em 2009. Se Jenson Button deu o tom e praticamente garantiu o título na primeirametade do ano, Rubens Barrichello mostrou o caminhopara a equipemanter a trajetóriadiante do crescimento dos adversários. E para a turmaque sofreu como poucas nas duas temporadas de fracassoque culminaram com a saída da Honda, a duplaconquista de 2009 foi aindamais saborosa. Numa temporada em que a “insurreição das pequenas” foi o principal fato, o sucesso da trupe mais fraterna e cúmplice, por tudo o que passaram, foi merecidíssima.
Na pauta desse blog, discussõessobre a Fórmula 1 emtodos os seusaspectos: histórias do passado, análises do presente, bastidores da cobertura e curiosidades. E muitamúsicaparatemperar essa mistura de razão com a paixãoque o automobilismo desperta.
Repórter de Fórmula 1 do Grupo Bandeirantes de Rádio, do diário Lance e da revista Racing. Apreciador de boa música, viagens e velocidade. Guitarrista amador, corredor de rua e piloto virtual.