domingo, 12 de abril de 2009

SOBRE DAMON

Foi muito interessante ver as manifestações de vocês sobre Damon Hill nos comentários deste post. Confesso que nunca havia enxergado grande coisa no piloto inglês. Mas minha visão começou a mudar aos poucos com a argumentação do Tiago Mendonça, grande colega meu do anuário AutoMotor Esporte e grande fã do campeão de 1996.

Hoje posso dizer que ele possui uma das trajetórias que eu mais admiro. Ao olhar a história do automobilismo, com suas grandes pilotagens e todo o drama contido ao longo de corridas e campeonatos, muitas vezes ignoramos o lado humano dos fatos. E, para entender o sucesso de Damon Hill, é preciso voltar à fatídica noite de 25 de novembro de 1975.

Foi quando aconteceu o acidente aéreo que tirou a vida de Graham Hill, do piloto Tony Brise, do chefe de equipe Ray Brimble, do projetista Andy Smallman e dos mecânicos Terry Richards e Tony Alcock. Os seis voltavam de uma bateria de testes com o GH2, o novo carro da equipe Embassy Hill, no circuito de Paul Ricard.

Graham pilotava seu avião particular, um Piper PA 23-250 Turbo Aztec ‘D’, e havia sido informado pelo controle aéreo de Londres que a visibilidade no aeródromo de Elstree, onde pretendia pousar, era péssima por conta de uma densa neblina. Há evidências que lhe foi recomendado que pousasse no aeroporto de Luton, a 25 quilômetros de distância, onde aparelhos especiais seriam capazes de guiá-lo num pouso que seria cego. Graham rejeitou.

Confiando apenas na sua experiência como aviador, o bicampeão mundial aparentemente confundiu uma estrada que lhe servia como referência visual e embicou para o pouso três milhas náuticas antes do correto. Ao invés de encontrar a pista do aeródromo de Elstree, encontrou as árvores do campo de golfe de Arkley. Nenhum dos ocupantes da aeronave teve a menor chance de sobrevivência.

Quando soube do acidente, Chris Amon ligou para o jornalista e amigo particular Nigel Roebuck. “Parece que é Graham. Posso até ouvir a velha história de ‘há neblina, vamos para Luton’ e ele respondendo ‘não, que se dane, nossos carros estão estacionados em Elstree’”.

O relatório oficial do acidente apontou uma série de irregularidades. As principais: a aeronave estava com o registro vencido (e isto implicou em uma série de outras infrações, como a realização de um vôo oriundo de fora do Reino Unido sem licença e também sem os instrumentos adequados para tal); e a licença de Graham Hill não lhe permitia realizar um pouso naquelas condições de visibilidade.

O saldo da tragédia para Bette Hill foi imensurável. Além de perder o marido e provedor da família, teve de ir a outros quatro enterros na mesma semana - o de um mecânico coincidiu em dia e horário com o de Graham. E, depois que o relatório foi divulgado, perdeu todos os bens que a família havia acumulado para pagar as indenizações às famílias das outras vítimas. Estava viúva, falida e com filhos para criar. Completamente destruída.

Damon, então com 15 anos de idade, teve sua vida marcada por esse drama. Da infância alegre com um pai herói, muitas festas e grandes brinquedos, virou o arrimo de uma família em pedaços. E já afirmou em muitas entrevistas que devolver uma vida confortável à mãe foi uma motivação para nortear sua carreira tão ou mais importante do que honrar o nome do pai que tanto amava e perdeu ainda jovem.

É por isso que, hoje, sou mesmo um grande admirador de Damon. A citação fria do fato dele ser o único filho de campeão a igualar o feito do pai não conta metade da história. O interessante ali é ver um conto de superação dessas armadilhas amargas que a vida prepara para algumas pessoas. Hoje, a família Hill vive muito bem e Damon sucedeu a Jackie Stewart na presidência do BRDC, o British Drivers Racing Club. Um posto do qual Graham, lá no céu, deve se orgulhar muito em ver o filho ocupando.

19 comentários:

F-1 A.L.C. disse...

bom, fora da F1, a dinastía andretti tenta fazer a mesma coisa, ne?

mais igual assim, não tinha reparado no fato de Damon ser o único filho de piloto a cumprir com o prometido.. muito bom o post, parabéns

Anônimo disse...

Tive a honra de conviver com o Damon, e so posso acrescentar que alem de bom piloto, e um cavalheiro (gentleman) do velho estilo, honrado, honesto e discreto.Um exemplo de civilidade, que faria bem a muitos outros pilotos o emular.
Ricardo Divila

Anônimo disse...

O senhor não enxergou porque não quis, só preferiu olhar com bons olhos o rapaz quando soube que ele foi tocado pela tragédia. Preferiu ignorar os bons desempenhos em equipes como Arrows e Jordan depois de sua passagem pela Williams. Pelo menos não ignore seus sentimentos sobre um desempenho que na sua opinião poderia ter sido melhor.
Luís

Paulo Coruja disse...

Além de toda a sua epopéia, Damon conseguiu algo insuperável, na minha modesta opinião: luz própria. Falar em Damon, não significa dizer automáticamente "filho do Graham", como acontece com vários filhos de outros pilotos. É uma pessoa impar com certeza.

luis disse...

Grande Damon.

Anônimo disse...

Pô, que história !!! Comecei a admirar mais o Damon Hill depois dessa. Vida longa à ele !

Ituano Voador disse...

Grande post, Ico! Li uma vez que Damon começou a correr de moto porque trabalhava durante a semana como motoboy, e usava sua moto de trabalho para as corridas, quando dava. Evidente que nõa o conheço pessoalmente, mas por suas entrevistas e pelo modo de se manifestar, parece-me possuidor de grande caráter. Esse é mesmo um 'old school driver', como o pai e aqueole senhor montado no tratorzinho que está sendo empurrado na foto.

Lucca disse...

É quase surreal ver Damon Hill empurrando um veículo de...Jim Clark!!

Anônimo disse...

belo texto.

é da minha indole desconfiar do senso comum. diziam hill é piloto fraco, burocrático, só chegou por cauza do nome, etc.

alguns anos atraz F1 em interlagos fiquei na freiada para curva do lago.

a se destacar primeiramente dois pilotos, shumacher e panis. os dois igualmente sobravam. freiavam meio metro depois dos outros,esparramavam sobre a zebra e vamos embora.

sai dali com a certeza que se eu fosse dono de equipe com só um carro este seria de damon hill. freiava com delicadeza, deixava sempre igualmente dois centimetros até a zebra, o que se repetia volta após volta.

acabou sendo campeão.

neste esporte ninguem é "campeão por acaso"

abraço. emerson santos sp

Mário Salustiano disse...

muito bom esse post, faz justiça a um piloto que sempre foi elegante dentro e fora das pistas, primeiro nunca alardeou sua tragédia pessoal para conseguir a condolencia de ninguem, segundo se voces lembrarem quando ele foi tirado da corrida da Australia pelo Schumacher não ficou criticando a atitude do alemão, ao contrario ficou na dele e nunca abriu a boca para chamar o alemão disso ou daquilo, essa sua postura por si só já diz muito do carater,fui fã de seu pai que até hoje foi o unico piloto a ganhar a triplice coroa do automobilismo e a única familia que teve pai e filho campeões de F1, PARABÉNS!!! espero que o neto de Graham venha e também ganhe a F1

Luiz G disse...

Parece que Damon, por sua carreira e compostura, é digno do título de "Sir".

Anônimo disse...

Outro fato é que Damon chegou tarde na F1 ,aos 30 anos ,o que não é facil .Quando Hill fez a pole no GP da França em 1993 em cima de Prost já dava mostras de que não se tratava de um piloto apenas mediano ,e ainda venceu 3 Gps naquele ano .

Gosto do argumento de que Damon Hill alcançou o maximo de suas possibilidades.

Jonny'O

José disse...

Damon Hill certamente teria sido um grande campeão, não tivesse dado o azar de entrar na F1 para disputar justamente com Schumacher. Se ele não era genial, com certeza era um piloto que hoje teria ganho muito mais do que um título mundial, se estivesse no carro certo e na hora certa. Para mim, será sempre o grande rival do Schumacher na história da F1.

Luiz G disse...

Acho que o grande rival de Schumacher, além de Damon, era Hakkinen, já que os dois já lutavam nas formulas de acesso.

...E como todos sabem, Damon seria Bi-campeão, não fosse a manobra "Dick Vigarista" de Schumacher na Austrália em 1994.

Smirkoff disse...

Belo post, Ico. A carreira do Damon parece ter sido sempre marcada por grandes desafios. Além da morte do pai e da morte do Senna, é bom lembrar que seu filho mais velho tem síndrome de Down.

Luis disse...

Sempre tem um pra contar a "estoria" de 94 pelo meio... Triste isso...

Quanto a Damon, sempre teve meu respeito, eu o vejo tal qual Mansell. Não os admiro tanto pelo que fizeram na pista, mas pelo que tiveram de enfrentar fora...

Ricardo Montesano disse...

Tive o prazer de encontrá-lo em Brands Hatch numa cobertura do DTM! Uma pessoa simples, de bem com a vida e atencioso com a imprensa.. Hoje é presidente do BRDC e tem uma banda de rock que reproduz sucessos antigos dos Beatles e Rolling Stones.

Ricardo Montesano
Race TV

Marcos Antônio Filho disse...

Pra mim um grande piloto e um dos meus preferidos. Sempre frio e concentrrado, um grande acertador de carros. Teve muito da sua real capacidade questionada por ter um super carro,por ser filho do graham, etc. Ele mostrou principalmente na Jordan e Arrows o pilotaço que ele era.

Cezar Fittipaldi disse...

Tive a honra e o prazer de conviver com Damon, e sempre o tive em grande conta como ser humano, e como piloto, pois não se ganha 22 GPs por sorte ou por acaso, mesmo competindo sozinho. Conheço bem a história porque parte dela me foi contada pelo próprio.
Abraços