terça-feira, 14 de outubro de 2008

NO JAPÃO

No Japão há um festival de gestos. Difícil ver um povo mais gestual. O ápice provavelmente foi na sala de imprensa do circuito de Fuji, onde um segurança em vistoso uniforme chegou saudando todos com uma continência. Deve ter percebido que, pelo número de profissionais e a movimentação dele, acabaria entrando para uma espécie de “Guiness” militar. No sábado, apenas curvava o corpo para frente.

No Japão têm celulares. São objetos cultuados e pacientemente decorados, com amuletos e badulaques. Ao esperar o metrô em alguma das movimentadas estações de Tóquio, basta olhar para o lado e perceber um fenômeno assustador: são centenas de pessoas com o celular aberto, os olhos fixos na tela e os dedos deslizando ágeis no premer dos botões.

No Japão, basta atravessar uma rua para encontrar em seu extremo o conflito entre o tradicional e o moderno. De um lado, está o Kabuki-Za, o tradicional teatro onde histórias dos períodos dos samurais são contadas, com a ajuda do som calmo melancólico de um Shamisen e o bonito bater de blocos numa superfície de madeira do Ki. Uma faixa de pedestres à frente está um templo do Pachinko, uma “slot machine” japonesa que funciona à base de bolinhas de metal ao invés de moedas. São milhares de pessoas jogando e o som metálico se mistura com o da música dos aparelhos, criando uma sinfonia contemporânea ensurdecedora.
No Japão os táxis estão em todos os cantos. Todos impecáveis na limpeza, com um pano bordado na base e no encosto dos assentos traseiros, onde o passageiro é alojado. Alguns motoristas usam luvas brancas, outros equipam o carro com uma série de agrados: lenços, balinhas, uma senhora que me conduziu colocou até um vasinho de Bonsai para decorar. E quando eu falei que ia para o hotel Formule 1, ela riu e exclamou: “Speedo Racero”!

No Japão as pessoas contam, literalmente. Passa uma esquina e lá estão eles, sentados numa cadeira portátil, vestindo a máscara bucal contra germes e portando uma jaqueta de segurança laranja com faixas refletoras. Nas mãos, um ou mais contadores automáticos, acionados furiosamente à passagem do objeto de estudo. O que contam? Não sei: pedestres, carros (no total ou de determinada marca), orientais, ocidentais, compradores de peixe, turistas, segundos, minutos. Juro que abordei um deles e tentei perguntar mas... lost in translation!No Japão há uma preocupação enorme com o que se veste. Os executivos circulam pelas cidades ou nos Shinkansens (trens de alta velocidade) em ternos brilhantes e lisos. Os jovens abusam de um estilo chamativo, mas sempre com roupas de grife. Entre as mulheres, a combinação de bota e minissaia é a campeã e, mesmo quando está um pouco frio, basta colocar uma meia-calça mais grossa que resolve. E num dia livre em um templo budista, o uso de kimonos tradicionais é costume. No meio de tudo isso, nós pobres ocidentais parecemos maltrapilhos. Dá para ver de longe.

Em 16 corridas, nenhum lugar ou cultura me impressionou tanto quanto o desse país insular do pacífico. No meio de tantas viagens, poucas deixaram na boca um gostinho tão inquietante de “quero mais”. O Japão foi uma delas. Arigatô, Nippon!

9 comentários:

costa disse...

f1 é cultura também!

Paulo Maeda™ disse...

Belo texto. Eu, descendente de orientais, sei bem sobre tudo o que vc falou no texto, é realmente coisa de outro mundo.

muito legal o blog, sempre que eu puder passarei por aqui.

Rodrigo disse...

Ico, o que são aquelas embalagens exatamente? Parecem peixes pequenos.

Ron Groo disse...

Não sei se é a resolução do meu micro, mas as fotos de paisagens estão meio azuladas... O País tem esta caracteristica?

Smirkoff disse...

Conheci Osaka e região em 2005. Foi inesquecível. É um país admirável, ao qual pretendo mesmo voltar.

Flávio disse...

Parece ser muito interessante mesmo conhecer o Japão, obrigado por essa boa descrição do país Ico.

Hugo Becker disse...

F1 é cultura... e põe cultura nisso! Sempre quis trabalhar com jornalismo esportivo e cobrir o esporte que amo, que é a Fórmula-1. Cobrir as etapas in loco parece ser tão cansativo quanto prazeiroso, e o Ico pode dizer isso melhor do que eu! hahaha...

Ico, voltei com meu blog, Motorhome, e fiz um texto sobre Hamilton e no que pode se transformar sua carreira após a decisão do título de 2008. Se puder, dê uma olhada.

Abraço!
Hugo Becker

Ico (Luis Fernando Ramos) disse...

Rodrigo, sao peixinhos sim, prontos para comer como se fosse um salgadinho... Nao me pergunte, eu nao comi! ;-)

Groo, pode ser as características de uma nova câmera digital que eu comprei para substituir a velha. Vou ver o q consigo fazer a respeito, mas sou daqueles que deixa a tecnologia me levar.

Eloisa disse...

Meu marido morou no japão e esses 6meses renderam historias que ele conta quase 10 anos depois!
ele tem uma otima dentro de um trem todo mundo apontando pro nariz dele e rindo.. ahhaha

ele disse tambem que saindo de Tokio tudo muda e fica um pais bem diferente, muito tradicional.