terça-feira, 28 de outubro de 2008

UMA ÓTIMA CONVERSA

Segundo dia de Brasil e ainda lutando com um fuso horário confuso desde as corridas asiáticas. Desperto às cinco e meia da manhã e fico adiantando trabalho. Depois, sem muito a fazer, vou para a coletiva da Allianz, patrocinadora da Williams, com uma hora de antecedência. Achei que ficaria um tempão olhando as paredes e fazendo hora, mas acabei batendo um dos papos mais divertidos de toda a temporada.


Foi com o alemão Christian Danner. Como piloto de Fórmula 1, ele nunca me empolgou: correu apenas em equipes pequenas e sempre lutou do meio para o final do pelotão, embora um quarto lugar no GP dos EUA de 1989 com uma Rial (foto acima) devesse figurar como um dos maiores feitos na história da categoria.


Mas Danner ganhou outra dimensão depois de alguns anos morando na Europa e ouvindo seus comentários na transmissão da RTL alemã, observações sempre inteligentes, corretas e diretas. E com um senso de humor afiado, ainda mais para um tedesco. Detalhe: ele não é um grande fã de Michael Schumacher, mas nunca o vi deixar de elogiar o heptacampeão quando cabia, nem de criticá-lo quando era merecido.


Hoje, überpunktlich como convém a um alemão, ele estava aguardando o início da coletiva da qual participaria e me atendeu com simpatia quando pedi uma mini-entrevista para a rádio. Depois, microfone desligado, ficamos cerca de 40 minutos numa conversa animada sobre automobilismo – e bilateral, já que ele me perguntou muito sobre o que eu achava da situação dos pilotos brasileiros, de cada um deles, incluindo os que podem ascender à F-1 vindos da GP2 (fico imaginando se parte do conteúdo da conversa será reproduzida na transmissão da prova no domingo).


Ao contrário do Nico Rosberg falou depois, durante a coletiva (o áudio você pode conferir no Tazio), Danner acha absolutamente improvável que a decisão pelo título envolva algum tipo de contato entre os postulantes à taça. “Massa e Lewis são inteligentes o bastante para saber que uma manobra dessas tiraria completamente o brilho da conquista”, falou.


O alemão disse também que não torce para nenhum dos dois em especial, mas vê Hamilton mais merecedor do que Massa. Disse também ser um grande fã de Lucas di Grassi. “É um ótimo piloto e uma pessoa muito inteligente. O trabalho que ele fez na GP2 neste ano foi incrível. Eu tenho um ótimo contato com o Gerhard (Berger) e disse para ele o que eu penso. ‘Você deveria pegar o Lucas’. Seu engenheiro na GP2 trabalhou comigo no passado e me contou que o retorno dado por ele na hora de acertar o carro é excelente”.


Mas, falando na Toro Rosso, Danner também acha que Bruno Senna seria uma boa opção para a equipe. “Gerhard se dá bem com ele e Giorgio (Ascanelli) é uma ótima pessoa para trabalhar com pilotos jovens, para extrair o máximo deles. E tem Franz Tost, que é uma pessoa dura, mas direta. O tipo do cara que combinaria com o jeito do Bruno trabalhar”.


Novamente contrariando o que Nico disse na coletiva, Danner observou muito bem que o grande número de pilotos alemães na Fórmula 1 é fruto de uma estrutura de automobilismo no país sem igual no mundo. “O kartismo já é forte. Depois há uma séria de categorias pequenas, lideradas pela Fórmula BMW mas há outros campeonatos também. E a F-3 Européia, com a maioria das equipes com base na Alemanha, há anos enterrou a F-3 em outros países, incluindo a Inglaterra. Fora os que já estão na Fórmula 1, vem mais gente por aí. Veja por exemplo o Nico Hülkenberg: colocaram ele na melhor equipe da F-3 e ele foi o campeão. Agora, vai disputar a GP2 pela ART. E tem o Willi Weber como empresário. O trabalho ali é muito sério”, opinou.


Fazendo uma comparação com o passado, Danner disse que na sua época tudo era muito diferente e que só conseguiu chegar na Fórmula 1 graças ao apoio da BMW, segundo ele, a única marca alemã que investia a sério no automobilismo em sua época. “Eu comecei a correr tarde, só com 18 anos. E nunca tinha pilotado um monoposto antes de chegar na Fórmula 2. Fiz umas provas de turismo na Alemanha, corri na Procar e o Dieter Stappert, que faleceu recentemente aliás, me convidou para correr de F-2 na equipe de fábrica. Aceitei na hora.”


Danner contou ainda que disputará o campeonato completo da Speedcar, a “Nascar das Arábias”. “Vai ser uma reunião da turma antiga: Alesi, Morbidelli, Johansson, o Jacques Villeneuve também deve correr. O carro não é lá essas coisas, mas vai ser divertido”, falou, animado.


Mas a empolgação aparece mesmo quando eu toco no assunto GP Masters. “Aquilo era um tesão. Mesmo! Um monoposto rápido prá caramba, mas não rápido demais a ponto de ser brutal. O clima das corridas era ótimo, todo mundo ganhava a mesma coisa para correr e a disputa na pista era muito saudável. Mesmo para quem estava parado muito tempo, bastava acelerar o carro a primeira vez que tudo voltava na hora. É engraçado, um piloto jamais esquece o que aprendeu. Além do mais, o clima fora das pistas era muito bacana. O René Arnoux era um dos caras mais engraçados que eu já vi. É um campeonato que tem que voltar um dia”, suspirou.


Se deixassem, a conversa ia embora por mais tempo. Mas a hora da coletiva tinha chegado. Pena. Mas o papo já valeu a semana. Ano que vem, vou alugar ele mais vezes...

6 comentários:

Hugo Becker disse...

A GP Masters tinha tudo para ter um grande apelo de público, realmente... mas pelo que Danner disse, parecia ser verdadeiramente especial para os pilotos "das antigas" recriar todo aquele ambiente de competição, sem aqueles ânimos acirrados das disputas na Fórmula-1...

Quanto ao Di Grassi, que nunca foi um piloto muito badalado e sempre pareceu bastante "pés-no-chão", espero realmente que ele apareça em 2009 como titular, de preferência na própria Renault. Acredito mesmo que ele tem tudo pra ter uma brilhante carreira, sem fazer muito alarde.

Rianov Albinov disse...

Sensacional Ico!

Parabens. É só eu ver uma Rial no topo que fui correndo ler o texto!

Suas matérias 'in loco' da F1 são geniais!

Anônimo disse...

GP Masters era uma excelente idéia. Só o fato de juntar um punhado de pilotos veteranos voltando a guiar monopostos já garantia um ar nostálgico. O que que essa turma iria querer além de se divertir? E para quem assistia, era muito mais divertido do que bobagens como essa superliga de times de futebol. Ô categoriazinha exdrúxula...

Vitor, o de Recife

Smirkoff disse...

Puxa, não sabia da morte do Dieter Stappert. Ele foi o responsável pela ida da BMW à F1 com a Brabham, nos anos 80, uma história que daria um bom filme. As turras entre Stappert e Gordon Murray foram sensacionais.

Anônimo disse...

Realmente a GP-SERIES era demais!
Um projeto de renovar a categoria com um maior apelo de público e com mais carros no grid seria espetacular.
Mansel, Patrese, Moreno, Johanson, Alesi, Arnoux, Prost, Hill e tantos outros que teriam condições de fazer uma brincadeira bem legal...

Rodrigo Mattar disse...

Dieter Stappert depois trabalharia no Mundial de Motovelocidade, como chefe de equipe do alemão Ralf Waldmann (lembram?)... o Danner também nunca me empolgou não, mas pelo visto é um sujeito de excelente humor e alto-astral... a GP Masters, é fato, faz muita falta.