quarta-feira, 15 de abril de 2009

UM PAÍS MUITO CONFÚCIO

Miserável, desamparado. Foi assim que me sentia quando cheguei ao hotel em Xangai, trinta horas depois de ter saído de casa. Confesso que sou daquelas pessoas que detesta deslocamentos. Se eu pudesse escolher um poder de super-herói, seria o tele-transporte. Não gostaria de voar, de ser indestrutível, de ter garras de Adamantium ou o martelo de Odin. queria ir de um lugar a outro do planeta num estalar de dedos.


Não que as viagens em si sejam uma torturaembora o momento da aviação civil mundial se esforce ao máximo para isso. Eu tenho vinte dias de música no meu iPod; estou me divertindo à beça com “Slam” (mais um livro do Nick Hornby); assisti a um montão de filmes (“Frost/Nixon” é excepcional, imperdível mesmo; “Sete Vidas”, com Will Smith, um porre, foi duro assistir até o finalque, obviamente, é ridículo como os blockbusters americanos sabem ser). Dá para ver que eu me ocupo. Mas abomino esses deslocamentos, acho-os pura perda de tempo produtivo.


A chegada na China, então, foi um pesadelo. Tem a questão do fuso horário, que derruba qualquer um. Teve o horário do vôo que eu peguei, aterrisando no aeroporto de Pudong às duas horas da manhã. E têm os motoristas de táxis chineses...


Toda vez é a mesma coisa: eu chego no aeroporto, vou a um guichê de informações e peço para o cidadão escrever o nome do hotel em que eu me hospedo, perto do circuito, em mandarim. Vou ao taxista, o de ontem com aspecto bonachão e vestindo uma ridícula casaca de marinheiro. Ele sorri, solta um “OK” e desembesta a falar. O motivo eu não sei, porque é óbvio que eu não estou entendendo nada.


(Abro um parêntese aqui. O Japão é outro país ondeum choque cultural enorme. Mas com uma diferença marcante: os nipônicos sabem que você não fala a língua deles. Por isso, se concentram na hora da comunicação e são mestres na arte dos gestos. No ano passado, voltei desesperado a um restaurante e fui explicar com gestos que achava ter esquecido a fonte do laptop na mesa em que havia me sentado horas antes. Em menos de cinco minutos, a garçonete entendeu meu teatro e me levou onde guardava uma caixa de achados e perdidos. A fonte não estava , mas eu fiquei admirado com a perspicácia da mocinha).


Voltando à Xangai: a saída do aeroporto dá numa grande via expressa. E desta vez estava uma neblina dos infernos. O que não impediu o nosso heróico motorista de sacar um celular enquanto dirigia e ligar para um amigo para perguntar onde era meu hoteleu percebia isso porque ele repetia o nome do bairro várias vezes, “Jiading, Jiading”. Pôxa, a expressão assertiva de antes era para quê? “OK mano, eu conheço um hotel em Xangai, vamos torcer para que seja o seu, tá certo?”


Eu lembrava vagamente do caminho que fiz no ano passado, então meu desânimo se transformou em desespero quando o Santanão (sim, aqui quase todos os táxis são o similar chinês do VW Santana) embicou numa ponte que ia para o centro de Xangai. Imagine que você chegou em Cumbica, sabe que seu hotel é em Jundiaí, mas o motorista pegou a Ponte das Bandeiras em direção ao centro. Às três horas da matina! Depois de trinta de viagem!!!


Prático que sou, me apressei no banco de trás para colocar no celular o chip chinês que havia comprado em 2008, rezando para ter crédito. Ligo para meu hotel, mas ninguém atende. “Ótimo”, pensei, “além de não obter ajuda, vou dar de cara com a recepção fechada se chegar por algum milagre”. O roteiro de filme do Martin Scorsese (“After Hours”, sabe?) começou a mudar quando achei um papel com a lista dos hotéis recomendados aos jornalistas pela FIA (sim, quando a viagem é num país exótico, eles nos dão uma mão, Mosley não é tão sádico, afinal).


Havia um outro em Jiading, eu tentei o número e dei sorte. Expliquei à recepcionista meu desespero e passei o celular pro motorista. A conversa entre os dois não durou um minuto, tempo para expirar a réstia de créditos que eu tinha no cartão. antevendo que eu terminaria a noite numa versão xangaia de Parelheiros e preso no táxi de um maluco, soltei um angustiado Hotel, OK?”, quando meu quixotesco chofer sorriu e emendou um ok, ok, ok, antes de virar numa outra autovia à esquerda.


Foram mais uns cinco minutos de agonia até aparecerem as primeiras placas com o nome “Jiading”. Suspirei aliviado, recostei no banco e a viagem seguiu até chegarmos ao hotel... que eu havia telefonado, mas não o que eu estava hospedado! Não fazia sentido tentar explicar com mímicas ao motorista que meu destino era outro, nem a Denise Stoklos seria capaz disso. Fui até a recepção, onde a mocinha arranhava um inglês. Contei que era eu quem tinha ligado antes, mas que, na verdade, estava hospedado no “Blue Palace”, no mesmo bairro.


O sorriso da jovem veio mais amarelo que sua pele: “I’m soly, Sãl. I ave no Idea whel’s the Blue Palace”. O condutor-marinheiro pergunta o que está acontecendo, os dois conversam em Mandarim e ele, resoluto: “Hotel, ok, ok”. Tão resoluto que eu nem cogitei não entrar no táxi para mais uma aventura maluca num país mais doido ainda. O passeio a esmo seguiu por uns vinte minutos até chegarmos a uma esquina onde meus instintos gritaram e eu gesticulei freneticamente: “here, left, left!” “Ok, ok!” Mais duzentos metros: “now, right, right”, “Ok, ok” e o portal modernoso do Blue Palace despontou sobre a carenagem do Santana.


Táxi pago, ando até a recepção onde três funcionários checavam papéis com concentração e disciplina oriental. “Welcome, Sãl!” “Hi! Don’t you ever listen to the telefone ringing?” “Ok, ok, sãl, youl name, plís?”


Trinta horas depois de sair de casa, às 4 da manhã do horário local, desmaio na cama me sentindo um miserável e convencido que o inferno é um país com 1,35 bilhões de pessoas que dirigem feito loucas, comem cachorros e ignoram quegente no planeta incapaz de compreender o idioma deles.


+++


Acordei por volta do meio-dia e, como ainda amanhecia na Europa e o veredicto da FIA ainda demoraria, fui passear pelo centro do distrito de “Jundiaíng”. Dei de cara com algumas ruas históricas, subi no alto de um lindíssimo pagode e depois visitei um templo de Confúcio, onde havia uma exposição sensacional sobre os exames de aptidão das dinastias chinesas. É a base de um sistema educacional inteligentíssimo que impulsionou a expansão de seu povo e de onde surgiram conceitos filosóficos e mesmo religiosos que tiveram uma influência esmagadora na raça humana como um todo.


Foi uma grande tarde que me deixou alegre, leve e maravilhado com tudo o que eu vi. Peguei um táxi e, enquanto esticava a mão para dar ao taxista um papel que eu pegara na recepção com o endereço do hotel em mandarim junto de um mapa, pensava num velho dito confucionista: mesmo nas situações mais pobres uma pessoa que vive corretamente será feliz. Esqueçam a visão do inferno. A China é um país interessante demais. É vê-lo com o espírito certo...

31 comentários:

Dan G. disse...

Ico, deu uma inveja boa da sua aventura chinesa!

Excelente texto e excelente humor!

Abraços!

Willian Freitas disse...

Que aventura hein?!
Mas tudo isso é recompensado não é?
Bom trabalho esse fim de semana!

Ok Ok OK!

Fernando Tumushi disse...

"Versão xangaia de parelheiros", essa ganhou hahaha


Se em português é tenebroso, em chinês é 1000 vezes pior....

Raul Costa disse...

Eu trocava um baço pra estar na sua situação!

amo taxistas/motoristas gringos!

Já viajei muitas horas com um austríaco e foi muito divertido. "conversamos" muito! Mais do que conversei com a maioria dos austríacos!

Marcio - Informatica disse...

Ico, eu ja estive em Pequim e sei exatamente o que vc passou na mao do taxista, os caras ai na China sao meio loucos mesmo , rs

Abs. Marcio

bruno disse...

Já tive um passeio com um taxista da Mauritânia, em Kansas City. O inglês dele era tão bom quanto meu árabe. A conversa acabou sendo em francês (meio enferrujado, mas rendeu).

Taxistas estrangeiros são divertidos.

Marcelo Urânia disse...

muito bom os chineses falando inglês. haha

bela leitura pra distrair um pouco a cabeça desse dia de labuta ferrenha. no brasil, 16h. vc deve tá curtindo um ronco aí na "jundiaí" de xangai. haha

boa corrida pra nós, brasileiros!

Aguinaldo disse...

Legais essas histórias, Ico. To esperando o podcast dessa semana.

Grünwald disse...

Nossa, enxerguei no seu texto algumas coisas em comum com as minhas incursões em São Paulo! Inclusive esta filosofia de ver as coisas pelo lado bom. É algo extremamente necessário...

Gustavo disse...

Ico, muito interessante ler essas aventuras internacionais!

Carlos disse...

Ico:

Para descontraíres, aqui vai uma piada que tem a ver:


- Um inglês visita a China, ainda no tempo do Mao Tse Tung. Na praça Tian-an-men, enquanto contemplava o retrato gigante de Mao, vira-se para o seu guia chinês e pergunta:

- Do you have eLections here?

Responde o guia:

- yes Sal... we have eLections evLy moLning!


Abraço e bom trabalho aí na China Ico.

Victor disse...

E o precinho da 'corridinha' de taxi, 'justissimo' ou não?

Daniel Médici disse...

Ico, parabéns por ter chegado ao seu hotel! Já passei por situações semelhantes, embora não tão extremas, em lugares muito mais ocidentais. Muito mais...

Ulisses disse...

Penso em quanto saiu essa corrida toda. hahaha

Diego Camargo - Floripa/SC disse...

Que aventura! Típico daquelas coisas que no caminho dá tudo errado mas no final acaba bem.

F-1 A.L.C. disse...

os argentinos Vào te dar o endereço errado para você achar que buenos Aires é mais grande, os franceses vão fazer de conta que não entendem por causa do teu sotaque, os Mexicanos vão mudar a conversa e preguntar do Brasil sem importar se são 4 da manhã.

mais o importante é o espirito de viagem, que consiste em esquecer de todo o cansanço depois de cruzar a porta do aeroporto

eh... não é facil depois de 30 horas de vôo..

Beatle Ed disse...

Ico, por favor compra um GPS!

Nunca mais você vai ficar na mão de motorista mané!

Depois de várias aventuras como a sua ao redor do planeta eu resolvi que não tenho mais paciência pra situações desse tipo.

Pra qualquer lugar que eu vá levo o meu GPS. Que fala mandarim inclusive!

Abraços e bom trabalho

JOTACE disse...

Muito legal o texto. Ainda bem que valeu a pena! heheheh

Paulo Coruja disse...

Jundiaing é sensacional! ótimo texto, invejável sua aventura!

Tho disse...

Fantástico, Ico!
Aventuras de viagem são excelentes histórias. Mesmo as coisas que achamos meio bestas, na verdade, são interessantíssimas para outros, vendo com o espírito certo =).

Abração!

Vinícius Perazzini disse...

Ico, parabéns pelo texto! Me senti como se estivesse aí na China!

Certamente, essas hsitórias dariam um excelente livro sobre crônicas de viagem, como os feitos pelo Veríssimo.

Muito bom, ver o país por sua cultura. E nada melhor do que uma boa noite de sono para fazer a cabeça funcionar melhor! rs...

Abraços!

Rodrigo T. Lamonato disse...

Quando á Fórmula 1 vem ao Brasil, a FIA também distribui uma lista com os lugares recomendados?

Pergunto para saber se ainda somos "exóticos".

Tohmé disse...

Caramba, me vi dentro do taxi com você...
Adorei a parte da Denise Stoklos

Fábio Andrade disse...

Que epopéia é essa?!

Eu teria perdido a paciência...

Capelli disse...

"nem a Denise Stoklos seria capaz disso"

huauhauhauhauha

Genial, Ico!

Ingryd Lamas disse...

uhhauhau sensacional!!
China é um dos meus próximos destinos, já está na listinha aqui, em terceiro lugar!
me admira muito a cultura e a história desse gigante!

mas tenho de concordar, esses voos sabem ser exaustivos, mas o meu ultimo voo foi sensacional, estava vazio, eu levantei os apoios de todas os acentos ao meu lado, deitei como que em uma cama, e assisti uns 3 filmes de uma sessão especial leonardo dicaprio que havia a disposição, escolhi rede de mentiras, infiltrados e gangs de NY, e ainda escutei mais algumas horas e musicas vídeos e coisitas no meu ipod.
qd cheguei no heathrow, nao tinha um chines, mas um arabe com um sotaque carregadiiiiiiiissimo que dificultou muito a minha vida...

uhauhauahuhahauhauahuahuahua
viagens e translados são sempre a mesma coisa, só muda o país e o dialeto!


bjoos

Ron Groo disse...

Ico, me perdoa, mas estou rindo muito aqui com a chinesinha que nem tinha ideia de onde ficava o Blue Palace.

Ce devia escrever um livro, com certeza ficaria melhor que o do Flavio Gomes, que também é bom, acho que teria mais verve humoristica que ele.

Mudando de assunto, este livro do Nicky Hornby é tão bom quanto o "High Fidelity"?

Léo Engelmann disse...

Ico, parabéns duplo.

Pela maneira de contar e pela enorme sacada do título do post.

Ico (Luis Fernando Ramos) disse...

Valeu pessoal, bacana que vocês se divertiram! :)

Rapidinho, preciso desmaiar na cama:
- Carlos a piada é sensacional, grande hit na sala de imprensa!
- Ulisses, o preço da viagem foi “só” uns 40 reais acima do preço que falaram que eu pagaria normalmente. Mas eu desconfio que este também estaria superfaturado.
- Rodrigo, não, o Brasil não é “exótico”. A FIA só nos garante “auxílio-moradia” (mas não paga nada) em China, Bahrein e Japão.
- Groo, melhor que o High Fidelity? Impossível! Nem About a Boy, que é sensacional (o livro, o filme não faz jus) chega perto de High Fidelity...

Abs!

Bruno A. disse...

Po Ico, eu ri pra caramba da sua saga!!

quando me pego nesse tipo de situação, primeiro bate um leve desespero, que logo vira em um monte gargalhadas, mesmo se eu ainda estiver vivendo a situação.

Lucas Carioli disse...

Muito legal o texto Ico, faz a gente ler até o final. Só uma coisa: acho que os Santanas de taxi na China não são clones são os mesmos feitos aqui em São Bernardo do Campo! Se não me engano, a VW exportava eles pra aí...