quinta-feira, 16 de abril de 2009

CLIMA FERVE NA GELADA XANGAI

Fez muito frio hoje em Xangai, muito mesmo. O dia todo, os termômetros giraram em torno dos 12 graus, chegando a cair para dez na hora de sair da pista. Um contraste violento com a quarta-feira de sol e calor (chegou a fazer 28°C na região do autódromo). Mas foi a quinta-feira mais quente do ano. Pelo menos, no paddock da Fórmula 1.


Tudo começou com Flavio Briatore batendo forte ao comentar sobre a decisão do Tribunal de Apelação da FIA. Enquanto o vento frio da hora do almoço deixava todos à sua volta encolhidos, ele disparou. Chamar Barrichello de “aposentado” e Button de “mais parado do que um cone de trânsito” foi o de menos. Ele disse textualmente que Ross Brawn não agiu corretamente no seu papel de líder do grupo de trabalho técnico da FOTA. “A diferença é que nós somos transparentes, ele não”. Ao mesmo tempo, negou acreditar que a FIA usou o episódio para rachar a associação das equipes. “Seria muito grave imaginar que isso fosse verdade e é algo que nem passou pela ante-sala da minha cabeça”, garantiu (ironicamente?).


O piloto brasileiro da Brawn GP nos atendeu mais tarde, na agradável temperatura climatizada da sua sala pessoal no belo e amplo complexo do autódromo chinês. Depois de revelar que planeja voltar a usar seu capacete com as cores originais neste final de semana, ele respondeu: “uns baixam a cabeça e trabalham, enquanto outras são más perdedoras. Flavio é uma delas”.


Felipe Massa se juntou ao coro caloroso e exaltado dos muitos pilotos preocupados com o desgaste do pneu supermacio da Bridgestone no exigente traçado de Xangai. O medo é a de que estes compostos “acabem” depois de poucas voltas (três, quatro), deixando o carro inguiável depois. “A gente tentou falar, mas não adianta”.


Hirohide Hamashima, diretor-técnico da Bridgestone, apontou a direção da crítica. “Foi a FIA quem determinou a alocação de compostos não-contínuos para este ano”. Rubens Barrichello admitiu que a situação melhora o show para o público, mas faz um alerta. “Existe uma questão de segurança, mas ela nem é a principal. O problema é que você acaba guiando um carro que nem é um Fórmula 1. Rodar cinco, seis segundos acima do seu tempo normal é inadequado. Eu concordo que é preciso melhorar o espetáculo, masum limite e não se pode ultrapassá-lo”.


A noite tinha chegado, o termômetro despencado mais um pouco, quando aconteceu o gran finale. Fazia até mais frio em Woking quando Ron Dennis deu uma coletiva anunciando que estava deixando o cargo de CEO (em português, “manda-chuva”) do McLaren Group para comandar o braço automotivo do conglomerado – a partir de hoje, uma empresa independente. Para quem não se liga a títulos corporativos: ele deixou de ser o síndico do prédio para ir trabalhar em outra portaria (que não tem prédio para vigiar). É muita ingenuidade acreditar nos motivos nobre que ele alegou para isso.


Minutos depois, Martin Whitmarsh nos atendeu numa não tão gelada sala em Xangai. Sem microfone, a voz baixa, ele sambou e rebolou para responder as perguntas dos repórteres. Mas não foi tão incisivo em defender o seu ex-chefe. A maioria das perguntas questionava se a decisão de Dennis carregava uma intenção da equipe ser poupada na decisão do Conselho Mundial da FIA no dia 29, sobre o ‘Liargate’. “Cada um de vocês pode especular como quiser. Seria errado dar minha visão sobre isso”. Um desmentido, para mim, soa bem diferente.


Basta lembrar também queexatos três meses, quando anunciou que entregaria o comando da F-1 para Whitmarsh mas permaneceria como o “manda-chuva” do McLaren Group, Dennis garantiu que acompanharia o Mundial de perto, que iria “a quase todas as corridas, porque acima de tudo eu amo a competição e amo o esporte”. Depois, em entrevistas particulares, disse que a McLaren erasua vida”. Hoje, resolveu abandonar o barco no momento em que este está quase afundando. Estranho para quem sempre vendeu a imagem do capitão valente, ciente de suas responsabilidades.


que Whitmarsh liberou a especulação, vamos . Alguns colegas ingleses insistem que a decisão de Dennis seria quase uma exigência de Anthony Hamilton para reparar o dano que a equipe teria feito a seu filho com o escândalo recente. Difícil imaginar que um pai e empresário de piloto chegue para o homem que bancou toda a trajetória do mesmo, apontando o dedo indicador e mandando ele cair fora de seu (quarto) projeto de vida. Seria preciso um predador bem mais feroz e poderoso para isso.


Se você pensou em um velhote vestindo uma cueca samba-canção e de chicote na mão, provavelmente acertou. Tudo indica que Dennis foi mesmo fiel a seus princípios e que, para salvar uma equipe que era a sua vida, sacrificou a própria posição dentro dela. Teria sido mesmo um acordo de cavalheiros (?) entre ele e Max Mosley, dois velhos inimigos, para evitar uma pena desastrosa para a McLaren no julgamento do dia 29.


Por mais que eu não goste do jeito de Ron Dennis, acharia injusto a equipe ser massacrada assim por um erro feio, mas que não é novo na F-1 – eles foram burros de ser pegos com a prova do crime nas mãos e não admitir sua autoria. Mas o que a gente acha certo ou errado na história não é tão relevante quanto constatar que, na antiga rixa entre estes dois, um deles foi hoje à lona. A contagem começou e vai ser interessante ver quem realmente foi a nocaute no dia 29: Ron ou a McLaren (e o ex-“manda-chuvarealmente foi sincero hoje).


Olho também na movimentação da Mercedes-Benz num futuro próximo. Richard Lapthorne é o nome do novo chefe do McLaren Group. “Não conheço ele muito bem”, admitiu Martin Whitmarsh, uma constatação chocante sobre quem será seu superior imediato. Vai ver, é uma espécie de “técnico-interino”. E o nome do novomanda-chuva” de Woking terá sobrenome alemão. Falando em bom português, a turma de Stuttgart estava P da vida com a idéia de Dennis de fazer um carro-esporte de luxo para concorrer com a marca da estrela. De repente, a rasteira partiu dali.


Respostas? Com o tempo...

16 comentários:

Luís disse...

O comentário do Briatore me lembra de 2005, quando a mudança do regulamento da época tirou do páreo a McLaren e a Ferrari e permitiu ao Fernando Alonso a conquista do primeiro título mundial pela Renault, equipe comandada pelo próprio Flávio Briatore. Dois pesos e duas medidas.

Thiago Lemos disse...

isto posto, meu palpite: A Mercedes vai comprar a Mclaren - esse ano ainda.

Pedro Meinberg Junior - Três Corações/MG disse...

Duas palavras, Ico: perfeita análise!

Marcelle Costa disse...

Ico isso foi num dia só? rs. Boa hipótese thiago lemos, de repente o bruno pintaria ai.

wolf disse...

Será que esta situação foi quem fez a McLaren, estranhamente, recuar da briga dos Difusores?

Magnum Borini disse...

casseta! que blog legal! vou ler mais!

abração e ate+!

Jean disse...

Esse blog eu deixo para ler depois dos outros, senão eles não teriam mais nenhum sabor.

Depois de se inteirar do arroz e feijão é que se vai ao filet mignon.

Marcos Antônio Filho disse...

análise perfeita Ico, e acredito que a Mercedes agora tem caminho livre pra comprar a McLaren.

Que dia movimentado hein...

Rianov Albinov disse...

Isso é que eu chamo de texto!!!
PERFEITO.

Chorão o Briatore, não?
O clima ai tá frio e quente ao mesmo tempo, hein!
Parabéns Luis

e-mail lucianotr3@hotmail.com disse...

oi, sou luciano do Rio de Janeiro,
maneiro seu blog..gostaria de convidar para visitar meu blog
é esse
http://luciano-2009.blogspot.com/

Henry disse...

ICO,
Parece que a atuação "raposal" do Ross Brawn foi tão grande quanto sua habilidade como engenheiro, não???

Speeder_76 disse...

Gostei, Ico, gostei.

Eu tenho a sensação que isto foi mesmo um "acordo de cavalheiros" (ponho ironia nisto) entre o Whipmaster Max e o Tio Ron. E até acho que, lendo a tua análise, a Mercedes vai comprar a McLaren no final do ano, e deixa cair o nome, que será adquirida por... Ron Dennis. Querem apostar?

Quanto ao Flávio: dor de cotovelo. E mau perder, também. Eu continuo admirado por vert como um tipo que nada percebe de automobilismo, ainda anda à frente de uma equipa como a Renault. Convenço-me cada vez mais que está a seguir os passos de Bernie Ecclestone...

E o resto... veremos ocm o fim de semana. Seria engraçado voltar a ver o Rubinho no pódio, pois faz agora 15 anos sobre a sua primeira vez, em Aida.

Anônimo disse...

A Mercedes ja detem 40% das acoes da McLaren=
"DaimlerChrysler owns 40 percent of the team, the Mumtalakat Holding Company owning 30 percent, and Dennis and TAG Group (Holdings) SA holding 15 per cent each."
O proposto carro novo McLaren P11 seria feito com motorizacao e apoio tecnico da Mercedes.
RDV

itamar disse...

Muito legal essas suas análises. São análises de quem vive o meio, de quem é muito bem informado. Parabéns pelo blog! Muito legal!

Ico (Luis Fernando Ramos) disse...

Oi Divila, tinha tb essa informacao do apoio da Mercedes no carro da McLaren. Mas fomos questionar o assessor dos alemaoes sobre como seria a colaboracao deles na McLaren Automotive. "Que colaboracao? Nao há nada", respondeu.

Ou ele está por fora, ou o projeto do carro (e o relacionamente entre McLaren e Mercedes) mudou muito nos últimos dias.

Abs!

Beatle Ed disse...

Belo texto Ico, e como outros já disseram, excelente análise.

Obrigado.