quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O MURO DA VERGONHA

Este era o apelido dado à faixa de concreto que separava a cidade de Berlim em duas partes, um monumento involuntário à estupidez da Guerra Fria. Antes de sua destruição, em 1989, visitá-lo era um programa obrigatório para quem passava pela cidade. Vê-lo de perto, tirar fotos, sentir o ambiente em torno do muro parecia necessário para entender o significado por trás dele.

No crepúsculo de ontem, em Cingapura, os turistas e curiosos que faziam um passeio pela pista ainda não totalmente fechada paravam invariavelmente no local onde o Renault de Nelsinho Piquet bateu na corrida do ano passado. Faziam como na Berlim de outrora. Buscavam marcas no muro, que obviamente não estão mais lá. Faziam com as mãos a trajetória de rodada do veículo, o braço direito mais esticado indicando que o brasileiro manteve a aceleração plena durante todo o balé.

Perguntei a um grupo de estudantes locais o que pensavam do episódio. “Eu estava na corrida no ano passado, mas na arquibancada em frente à primeira curva. Não pensei em nada na época e deixei a pista orgulhoso do espetáculo que tinha visto e que Cingapura tinha oferecido para o mundo. Hoje, o símbolo que fica daquela prova é o de um carro batido nesse muro. É uma vergonha”, foi a análise rápida e precisa de um deles (aliás, que povo mais articulado e inteligente, o daqui).

Havia, claro, os que passavam ao largo do fato, como um turista chinês. “Eu li alguma coisa. Mas você acha mesmo que foi de propósito”, perguntava, reagindo com um incerto “oh” à afirmação que, sim, era de propósito, os envolvidos na encenação já admitiram isso em público.

Pouco antes da sala de imprensa fechar ontem, os monitores exibiam imagens com os melhores momentos da prova do ano passado, para testar o equipamento. Me senti constrangido como o estudante de Cingapura, como se a sombra do muro encobrisse toda a disputa esportiva, as ultrapassagens e os dramas inerentes à uma corrida de Fórmula 1. Um ano depois, a sensação em torno da pista é por uma torcida para que os potentes holofotes do circuito de rua espantem de uma vez por todas o fantasma da batida ordenada.

13 comentários:

Tohmé disse...

ICO, acho que sempre que houver uma batida dessas "inexplicáveis", haverá uma ponta de discussão.

LeandroSpectreman disse...

Bem, Ico, é muito legal que você nos traga o depoimento do torcedor que frequenta os autódromos.É o melhor termômetro pra aferir a temperatura da repercussão das "artimanhas" políticas e dos bastidores nada assépticos da F1.

Daniel Médici disse...

Conheci um argentino que morou um ano ou dois em Cingapura, e, de fato, era um cara inteligente e articulado.

Acho que entendo um pouco a posição do cara como torcedor. Meu primeiro GP in loco foi o do Brasil de 2003. Sem desfile de pilotos, largada em movimento, bandeira vermelha, pódio com dois pilotos. Saí com uma sensação de que não tinha visto um espetáculo completo. E no meio da semana ainda descobriram que tinham premiado o piloto errado...

Ron Groo disse...

Pronto! Tá batizado...
Se em Montreal tem o muro dos campeões em Cingapura vai ter o muro da vergonha.

É o gp cingapuriano ganhando história.

Anônimo disse...

Ico, o importante é que todos foram punidos com a safadeza de Singapura, ao contrario do Brasil que o MENSALÃO, ALOPRADOS, SAIRNEZADAS, o gosto de roubar e tanto que o governo lula está criando novas estatais para colocar sindicalistas e companheiros não muito serios.

Fernando Mayer disse...

Bem Amigos da Rede Blogo!!rsrs

Apesar de as tentativas de mudanças nos carros, no aspecto aerodinâmico para que as ultrapassagens fossem mais frequêntes, ter se mostrado um fiasco ainda acredito que o campeonato tem nos dado motivos para nos lembrar que ainda existem pessoas que amam o que fazem e se dedicam muito a isso de forma limpa e honesta. Que seja a hora do Rubens Barrichello mostrar o quanto ele é bom piloto e que seja mais um passo rumo ao título.
Esta "Balada" noturna será maravilhosa aí em Cingapura, podem apostar!

Abs

Fleetmaster disse...

Ico, gostei do paralelo feito por você. Gostaria de saber oque os pilotos vão pensar quando passarem por ali. Serão que serão cautelosos para evitarem comparações?

[]´s

Eugenio disse...

Ico, eu realmente não entendo como possa a grande maioria aceitar o verdito assim, sem questionamentos...

voce escreve " sim, era de propósito, os envolvidos na encenação já admitiram isso em público."

verdade... todos os que saiam ganhando admitindo admitiram... o unico que saiu perdendo apenas fica calado (provavelmente com bastante dinheiro para continuar calado)...

parece a velha historia do professor de escolinha que chama o aluno e diz "eu sei que voce é culpado, mas se entregar seu amiguinho eu nao te dou punição.... entrega?"... a FIA é assim.... a renault só foi mais esperta da mclarem e nem tentou se defender, isso nao demostra culpa, é só a aceitação que o verdito ia ser politico e nada mais...

Miss Pit Lane (f1girls) disse...

Se "o próprio" sente vergonha, ainda não estou muito convencida. Acho mais é que a vergonha foi pela demissão. Mas que é um muro, ao menos, da vergonha alheia, daqueles que gostam do esporte e do espetáculo (no bom sentido), ah, é! :-(

Aderson disse...

Esse assunto ainda vai render um bocado. Muito comentario, muita falação.
Até que aconteça algo novo na F1. Uma nova historia, alguma coisa fora do comum.
Só assim, esse assunto Cingapura vai ser aos poucos esquecido.
Quem é que ainda comenta a mentira da Mclarem na Australia ou o video porno do Mosley?? Quase ninguem.
E assim vai ser sempre.

Blackbird disse...

Quanto drama... Não tem necessidade de se fazer biquinho toda vez que se fala de Cingapura.

Daqui 10 anos vc ainda vai lamentar o dia que o Nelsinho bateu no muro?!

Torquemada disse...

Ico:

Li com paciência oriental o julgamento, e achei algumas coisas risíveis e outras nem tanto, tipo assim:

Primeiro, o Conselho é um misto de paternalismo e autoritarismo, e daí que faz total sentido o “I am the maker of rules/dealing with fools/I can cheat you blind”. A lei é mesmo o Max Mosley e estamos conversados.

Segundo, a regra número um para o Conselho parece ser o velho princípio que o meu pai aplicava em relação a mim quando eu tinha 5/8 anos de idade, ou seja, “quem fala a verdade não merece castigo”. Nessas, é um barato observar que quem colaborou até o talo, como o Nelsinho, obteve perdão integral. Quem colaborou um pouquinho, como o Symonds e a Renault, obteve punição pela metade, e quem não confessou, colaborou ou admitiu coisa alguma feito o Briatore, levou todo estoque de chumbo disponível.

Terceiro, a misteriosa testemunha X - que não mais de meia dúzia de pessoas ficou sabendo quem é, mas cujo depoimento foi determinante para a condenação do Briatore - não é citada apenas de passagem como eu imaginava, mas aparece em várias citações do julgamento. Oras, como a manutenção de um segredo entre meia dúzia de pessoal é algo praticamente impossível, a divulgação do nome dessa figura é mera questão de tempo.

Quarto, de maneira surpreendente, ao menos para mim, de repente surge algo de positivo em favor do Nelsinho, e que se resume no seguinte:

Finally, Mr Briatore was Mr Piquet Jnr’s manager. Not only did he hold a
responsibility to the team, he had a responsibility to guide and assist Mr Piquet
Jnr in his career and to offer advice as needed. The WMSC regard it to be
unsatisfactory that any Team Principal should manage any driver as it can lead to
the kinds of conflicts of interests that plainly arose here. In this case Mr Briatore
manifestly did not guide Mr Piquet Jnr appropriately and indeed allowed and
seemingly encouraged him to engage in potentially ruinous and life-threatening
activities.



De fato! Além de chefe da equipe o Briatore geria a carreira do Nelsinho. Não fazia isso de graça ou de favor. Ao contrário, recebia uma grana e tanto para defender os interesses do cara, para cuidar da sua carreira, orientá-lo, aconselhá-lho, e em vez disso o levou direto e sem escalas para os quintos do inferno.

Vale dizer, ainda que o NAP fosse um zero à esquerda e não tivesse discernimento algum, cabia a ele, Briatore, não só como chefe da equipe, mas muito em razão de acumular as funções de manager, preceptor, conselheiro pago, e muito bem pago, conduzir o Nelsinho pelo caminho certo, jamais permitindo que ele se desviasse ou mergulhasse de cabeça na imoralidade, na bandalheira, no esgoto da F-1.

Pouco importa se foi o Symonds ou o próprio NAP que sugeriu a tramóia. Cabia ao seu manager, se sério e responsável fosse, tirar por completo a idéia de jerico da cabeça de um ou de outro. E não vai nisso nenhum apelo piegas ou moralista.

Havia entre eles um contrato oneroso, gerando direitos e obrigações, de modo que disso jamais poderia resultar um mau conselho, má orientação, a escolha do caminho errado, imoral, desonesto e ruinoso para o gerenciado.

Definitivamente, não é para isso que se paga um gerente, um manager, um conselheiro, um procurador... O Nelsinho se queixou que o Briatore se apropriava de uma parte do seu salário, é verdade, mas não soube argumentar, fazer a imprensa enxergar a verdadeira implicação que havia nisso, sob o ângulo que o Conselho (acertadamente na minha opinião) enxergou e expôs no julgamento.

É pena, pois tenho impressão que se tivesse trabalhado esse aspecto, batido insistentemente nessa tecla, a sua imagem poderia ter saído um pouquinho menos arranhada.

Abraços.

Anônimo disse...

Desta vez o Alonso não vai poder contar com a ajuda de ninguem para bater no muro da vergonha, parece que o Grosjean teve uma dor de barriga muito forte e não vai correr