quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

ENCONTROS EXPLOSIVOS

Foi uma das cenas mais marcantes que eu já presenciei na Fórmula 1. Na movimentação frenética do grid em Abu Dhabi, Jenson Button cruzou a reta até onde estava o carro de seu companheiro de equipe. Deu um abraço sincero em Rubens Barrichello e trocou algumas palavras afáveis com ele. Era a despedida de uma dupla de pilotos que, apesar da rivalidade inerente à relação, conseguiu atravessar quatro temporadas e uma disputa de título mantendo o respeito e a amizade.

Difícil imaginar o mesmo acontecendo nas combinações que temos nas principais equipes deste ano. O potencial de faíscas nas disputas internas é óbvio e conhecido, mas vale a pena olharmos com uma lupa para os motivos que sugerem isso. Vamos lá?

McLAREN

Na minha opinião, é a equipe na qual as dificuldades de relacionamentos ficarão mais óbvias, principalmente pelo trabalho que será feito pela turma da Fleet Street (os tablóides sensacionalistas). Jenson Button e Lewis Hamilton disputam o mesmo mercado (de fãs e patrocinadores) e andam batendo cabeças em público desde 2008. Tudo começou num evento promocional da Reebok, na qual Hamilton se dizia “mais em forma que Jenson”. Na semana seguinte, na coletiva de imprensa do GP da Inglaterra, Button contra-atacou desafiando o compatriota para uma disputa pessoal em um triatlo, sua especialidade. Hamilton saiu pela tangente e jamais encarou o desafio.

No ano passado, a maré virou e o piloto da Brawn virou o queridinho dos jornalistas. Enquanto isso, o motorhome da McLaren vivia às moscas – principalmente no início do ano, ainda sob o efeito do escândalo da mentira e da escandalosa mordaça que a assessoria de imprensa da equipe colocou sobre Hamilton. Button jamais admitiu isso “on record”, mas visivelmente apreciou a situação. Sua lua-de-mel com a imprensa britânica foi selada com um convite para jantar numa churrascaria paulistana às vésperas da corrida em que sacramentou o título da temporada.

Mas a simpatia dos jornalistas e da opinião pública acontece na mesma proporção do sucesso na pista. Hamilton sabe e confia nisso para reverter sua imagem controversa. E já tratou de marcar seu território na equipe declarando no início desse ano que “detonou” Fernando Alonso em 2007, quando também tinha um campeão do mundo como companheiro de equipe.

Hamilton é mais piloto que Button, mas o atual campeão do mundo costuma potencializar ao máximo sua pilotagem quando sente que tem um bom equipamento em mãos (vide 2004 e, principalmente, 2009). Se a McLaren vier com um bom carro – e tudo indica que virá – a expectativa é de que a disputa será muito mais apertada do que se imagina. E, sendo assim, ela tem tudo para extrapolar o argumento do cronômetro e descambar para intrigas e politicagens.

MERCEDES

Nico Rosberg vive um pesadelo acordado. Quando assinou com a Mercedes-Benz no ano passado, era a aposta alemã da montadora dentro do projeto de criação de uma equipe própria. Seria companheiro do afável Jenson Button e teria o apoio incondicional de Norbert Haug e Dieter Zetsche nos entremeios políticos que o duelo interno poderia causar.

Mas tudo mudou em dezembro e seu presente de Natal foi a chegada de Michael Schumacher na equipe. Enquanto Ross Brawn e Haug davam saltos de alegria, Nico se dava conta da enrascada em que tinha se metido. Ele sabe muito bem que ser derrotado pelo pensionista Schumacher seria o fim de sua carreira. Sua imagem diante das pessoas influentes da F-1 estaria irremediavelmente manchada. E já percebeu que não terá muito suporte da cúpula do time na tarefa de enfrentá-lo – o episódio de hoje da troca dos números, dando o número 3 para Schumacher, é uma amostra simbólica disso.

Resta fazer o trabalho de provocar o adversário nas entrevistas. Nesta semana, disse a um jornal francês que Schumacher é o número 1 de todos os tempos. “Seguido de Senna e Fangio, Dos três, Senna é meu piloto predileto. E gosto muito também de Mika Hakkinen”, afirmou. Ou, numa tradução clara: “respeito você, mas me espelho nos seus maiores rivais”.

O detalhe picante: Rosberg terá Jock Clear como engenheiro de pista – o mesmo que conduziu Jacques Villeneuve ao título de 1997 contra Michael Schumacher. Desde a polêmica decisão de Jerez, Clear nunca escondeu de ninguém o que pensa do alemão. E sabe muito bem a receita para derrotá-lo: pressão, o tempo todo. Fora das pistas, seu pupilo já anda praticando. Mas o fundamental é encarar Schumacher dentro delas. A aposta de Nico Rosberg é que Schumacher demore um pouco para se readaptar - e que ele consiga nesse meio tempo abrir uma vantagem na tabela que impeça o trabalho de equipe a favor do heptacampeão mais para frente. São muitas as variantes para que ele suceda na disputa e o favoritismo no duelo é todo de Schumacher. Mas, com sua reputação em jogo, a briga será quente.

RED BULL

Em comparação com as rivais, a sensação é que a paz vai imperar na Red Bull. Afinal, Sebastian Vettel e Mark Webber já trazem a experiência de um ano de convivência na mesma garagem e superaram a tensão da disputa com bravura. O australiano é do tipo que não hesita em aplicar jogos psicológicos para tentar desestabilizar seus companheiros, mas percebeu rapidinho que Vettel é inteligente o suficiente para não entrar na sua onda. Além de responder no cronômetro, o alemão alfineta seu adversário com sutileza e simpatia em outras ocasiões, como na mensagem de Natal da equipe (“I hope mine was much funnier than Mark”, diz ele, sendo que foi mesmo muito mais engraçado). A disputa interna da equipe será uma que não vai transparecer. E que, por isso mesmo, pode fazer a diferença no resultado final do campeonato.

FERRARI

Na semana do “Wrooom” em Madonna di Campiglio, Felipe Massa e Fernando Alonso sorriram juntos para fotos enquanto Stefano Domenicali garantia que ambos sabiam como funcionam as coisas na Ferrari. Tudo muito belo na teoria, mas a prática pode trazer uma história diferente.

A verdade é que a relação entre o brasileiro e o espanhol já começa cheia de cicatrizes. Numa entrevista que fiz com Massa no final de 2008, ele contou que a discussão com Alonso em Nürburgring-07 era um dos episódios que mais o magoara na F-1, porque foi “totalmente injustificável a acusação que ele fez”. Mas o espanhol pediu desculpas depois e Massa afirma que deu a história por encerrada.

Será mesmo? Não podemos esquecer que há também a questão de Cingapura. Na última semana, Alonso afirmou estar feliz pela “absolvição” de Flavio Briatore. Minutos depois, no mesmo auditório, Massa deixou claro sua aversão pelo episódio e a torcida para que algo do gênero nunca mais acontecesse “pelo bem do esporte”. Falou também ter questionado Briatore e Nelsinho sobre a armação antes mesmo dela ir à tona. Mas não citou se conversou com Alonso sobre o fato. Sabemos, porém, que ele (e muita gente) pensa que o espanhol sabia do plano antes mesmo da corrida acontecer.

Além das opiniões diversas, temos o exemplo da passagem de Alonso pela McLaren em 2007, uma das raras ocasiões em que teve um companheiro de equipe veloz. Por mais que o time tivesse uma quedinha por Hamilton, fazer chantagem com o chefe da equipe mostra do que o espanhol é capaz quando a pressão do duelo interno chega às alturas.

Juntando as diferenças pessoais dos pilotos, a necessidade de resultados e a tradicional pressão feita pela imprensa italiana, Stefano Domenicali pode se preparar para um ano de muito trabalho.

16 comentários:

Marcelo Urânia disse...

Ico, e vc, acha que Alonso sabia de tudo antes mesmo da prova em Cingapura?

Eu não consigo acreditar que um bicampeão não sabia de algo tão engenhoso.

Sobre o clima nas equipes, só não vejo a Red Bull como incendiária. Às outras citadas, basta uma fagulha.

Abraços!

Ron Groo disse...

Se todos estes ingredientes convergirem para uma disputa acirrada dentro das pistas, vai ser o maior campeonato dos ultimos anos.
Sem duvidas.

Marcos Antônio Filho disse...

realmente existem muitas duplas com muita polvora, só tá faltando alguém riscar o fósforo.O Campeonato promete

Anônimo disse...

Esse campeonato será de Ham X Vet até a penúltima corrida.

Anônimo disse...

É por tudo isso que eu quero que o campeonato comece logo... março tá muito longe!!

um abraço,
Renato

Nicholas disse...

Ico...parabéns...

palavras claras sobre tudo o que envolve os "entre meios" da F1..assim como o Groo se tudo se convergir para o plano real...será uma grande temporada!!!..

abraços..

Leandro Martinuci disse...

Parabéns Ico.

Mais um excelente texto que sintetiza tudo que rondeia esse período pré-campeonato.

Anônimo disse...

Não sei quanto a vocês, mas tenho a sensação de que o Rosberg pode surpreender. Vem "com a faca nos dentes" por ter um dos maiores pilotos da história como companheiro e, com certeza, é uma ótima chance para deixar de ser apenas uma promessa.

Fabio disse...

Ótimo post Ico!

Realmente esse campeonato promete principalmente pelas disputas nessas equipes. Torço para que essas quatro equipes venham com carros competitivos e sem muitas diferenças de performances entre si, aí teríamos o melhor campeonato dos últimos tempos.

Anônimo disse...

Ico, O Ross Brawn não é flôr que se cheire, acredito que o alemaõzinho vai ser fritado, quanto a Ferrari grandes emoçôes, quanto ao ingleses vamos ver do que Jason é feito.
GRANDES EMOÇÕES NOS AGRADAM.

Thom disse...

Excelente texto, Ico! Dos melhores que li em bastante tempo!

Sobre ele, alguns pitacos: Não acho que Button entra num jogo com Hamilton. Ele é experiente, inteligente e sabe onde tá pisando, que Lewis é cria da casa. Além do mais, não é do perfil de Jenson sair esbravejando por aí, ele é mais aquele cara bacana ali do lado mas que, com um bom carro, vai lá e faz o dele bem feito.

Agora, será que só eu acho que Rosberg tem mais a ganhar do que a perder correndo com Schumacher? Quero dizer, acontecer com ele da mesma forma que aconteceu com Felipe. NINGUÉM fala isso e eu estou até encucado com isso. Tudo bem, o alemão está indo para a 5 temporada (Massa correu a 4 ao lado do alemão), mas é jovem e tem muito potencial. Pode até ser que esse ano seja meio sacrificante para ele mas, no longo prazo, será muito bom para ele, se souber se aproveitar da oportunidade, como Massa.

Abraços catalães!

Daniel Médici disse...

Engraçado, o ano passado começou com o quadro de pilotos praticamente estável em relação a 2008, com tudo mais ou menos assentado. Por alguma lei obscura da física, a entropia chegou ainda mais forte - diversas mudanças de cockpit durante o ano e uma dança das cadeiras com requintes de movimento browniano (resisto aqui bravamente ao trocadilho 'movimento brawniano').

Isso é bom, porque vai alimentar a expectativa para a primeira corrida, que por si só não empolgaria tanto - convenhamos, um início de temporada no Bahrein é muito mais brochante que em Melbourne.

Vermeulen disse...

Essa história que o Hamilton disse que "detonou" Alonso é uma mentira deslavada. Empataram na pontuação e venceram o mesmo número de provas, além de o inglês ter sido muito favorecido pela equipe a ponto de Ron Dennis justificar a pataquada de Xangai dizendo que "corríamos contra Alonso, não contra Räikkönen." No mais, aposto que Button na Mclaren e Vettel na Red Bull. Na Ferrari e Mercedes, confesso que não me interessa muito. Acho que Barrichello pode surpreender: a Williams naturalmente faz ótimos chassis e, se o motor Cosworth render o esperado (afinal, ainda pode ser melhorado até ser congelado em março), poderemos ver o ressurgimento da tradicional equipe.

Marcelle Costa disse...

Esse ano promete. Mas acho que só haverá confusões entre os pilotos citados se houver chances reais de vitorias e titulos. Se a ferrari, por exemplo, for uma draga como em 2009, não acontecerá farpas entre alonso e massa, acho .

Pedro disse...

Acho Trulli e Kovalainen uma dupla muito mais explosiva. vai explodir a paciencia do chefe da Lotus, haha... Brincadeiras a parte, que isso signifique disputas na pista, pelo amor de Bernie Ecclestone!

From Hell disse...

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