sexta-feira, 23 de abril de 2010

O SENHOR DOS ANÉIS: OS DOIS TERMINAIS

O segundo dia da aventura começou também cedo, nas primeiras horas chinesas da terça-feira. Pelo menos o café da manhã do hotel de “quatro” estrelas (faz-me rir) era razoável e ainda deu tempo de experimentar uma especialidade local, um folhado cozido recheado com carne, muito bom. Depois, foi encarar mais um taxista maluco e muita confusão no aeroporto. O clima hoje estava bem mais tenso que na segunda e sobraram pessoas explodindo em desespero.

Minha sorte é que a “Sociedade do Futmasaji” ganhou uma família tcheca muito louca. Vó, mãe e genro embarcariam no mesmo vôo que nós e, no dia anterior, haviam trocado informações com Jiri, um compatriota na mesma roubada. A senhora mais velha era um verdadeiro dínamo: baixinha, redonda, barulhenta e valente. O tipo de pesadelo para qualquer funcionário de companhia aérea. Justamente o que precisávamos.


Na cola deles, conseguimos superar a incerteza do overbooking e confirmar nosso embarque no A330-200 com destino a Moscou. O competente russo da Aeroflot conseguiu depois lotar a aeronave, mas a decolagem atrasou em mais de duas horas para que isso acontecesse. Não importava, o caminho era o destino e eu não via a hora de seguí-lo.


O serviço de entretenimento incluía entre os filmes o terceiro da trilogia tolkiana, o que foi uma escolha natural para o clima em que eu estava. Depois de três horas e meia de película, um almoço e mais um bom tempo escrevendo coisas no computador, guardei tudo e fui mergulhar na leitura do livro de Pete Fornatale sobre o festival de Woodstock (que eu recomendo a todos).

Foi quando reparei que o monitor da passageira ao lado não estava funcionando. Ele ficava carregando e entrava em “reboot” sempre perto do final, despejando na tela uma porção de linhas de programação (Lynux, para quem se interessar) antes do próximo ciclo, cada um durando cerca de meia hora. Volta e meia, o carregamento completava, mas bastava ela tentar ver um filme ou carregar uma música que o “reboot” voltava.


Sou daqueles que detesta papo de avião. Sempre que entro em um, coloco meu iPod no ouvido para já deixar claro ao meu vizinho de assento que não estou afim de papo furado. Mas deu pena daquela mulher de uns 40 anos, não muito bonita mas muito bem vestida no estilo russo. Até porque suas duas amigas, na outra ponta da fileira de quatro, não se sensibilizaram em nada com o drama do monitor da colega e estavam mergulhadas em seus respectivos filmes.


Puxei conversa com a pergunta óbvia, para ouvir a resposta mais inesperada. “Vocês são da Rússia?” “Não. Da Abrásia”. De onde??? Abrásia? Que diabo é isso? Nas quatro horas seguintes, a mulher me contou sobre um pequeno país de 300 mil habitantes que fica no sul da Rússia, na fronteira com a Geórgia e que fica entre as montanhas e o Mar Negro. (Nota do Editor: conferindo agora no Google, o nome dado em português ao território é “Abcásia”, uma tradução sobre o nome em cirílico Abkhaziya. Mas este “kh” aparentemente tem o mesmo som do “ch” no alemão, que para nós soa como um “rr” – como em “xumárrer”. Optei por seguir a pronúncia da mulher).


Era um balneário muito querido por soviéticos e alemães orientais na época da cortina de ferro. Mas com o fim da URSS, os geórgios chegaram com tudo - exército e armas - para clamar para si uma região com grande potencial turístico. Mas os abrasianos não se identificam com eles – e nem com os russos. “Somos caucasianos”, explica a mulher, com uma tez de pele um pouco moura e de cabelos pretos como suas colegas.


Perguntei sobre o conflito. “Durou um pouco mais de um ano. E foi uma guerra de contato”. O olhar dela fixa um ponto no vazio. “É uma coisa selvagem e completamente maluca. Você olha no olho da pessoa à sua frente e sabe que, se não atirar primeiro, ela vai atirar”. Deu um frio na espinha imaginar a elegante senhora à minha frente com uma metralhadora na mão, lutando pela independência do seu país.


Descobri que na Abrásia o aeroporto local está fechado há vinte anos, que estão reconstruindo hotéis para receber os turistas e que a culinária local é baseada em polenta. A capital é conhecida como Surrumi (Sukhumi). Mas se chama “Aqva” no idioma deles, cujo significado é mesmo água. A Rússia já reconhece o país, mas a comunidade internacional ainda não. Segundo ela, é porque a Geórgia é muito alinhada com os Estados Unidos e questiona a independência deles. Descendo em Moscou, a mulher me desejou boa sorte na minha aventura rumo à Terra-Média. “Meu problema é fácil de resolver. Boa sorte à Abrásia”.

Toda a conversa tornou o vôo agradável demais e o tempo voou junto, algo bom especialmente nesses trajetos longos e diurnos, sempre uma chatice sem fim. Fiquei pensando em quantas oportunidades de conhecer gente interessante eu perdi sempre que fiquei preso ao meu iPod. Lição aprendida, aqui.

O atraso na saída de Xangai determinou que a transferência no aeroporto de Moscou teria de ser muito rápida. Num final de tarde chuvoso, um ônibus nos deixou no terminal F onde foi indicado que subíssemos uma escada para passar pelo controle dos passageiros em trânsito. Chegando aos guichês, ficou claro que isso seria impossível: havia apenas uma mulher para receber uma centena de passageiros desesperados para pegar vôos para diferentes destino. A fila inicial virou uma anarquia descontrolada em poucos minutos, até que a coitada gritou um “vôo para Roma pela Aeroflot sai do Terminal D”. Só não sabia dizer como fazer para chegar lá.


Descemos a escada e fomos na imigração normal para entrar em Moscou. Com a quixotesca família tcheca liderando a turba (a avó durona falava russo e foi de um valor inestimável), tentamos furar a fila e o caos fez com que os enrolados funcionários do aeroporto de Sheremetyevo agissem. Nos conduziram até uma porta lateral, onde um grupo de boxeadores norte-coreanos (!?!) já esperava. Enquanto eu conversava sobre Copa do Mundo com um deles, a porta se abriu e subimos em um ônibus para nos levar ao Terminal D.


O pesadelo parecia ter acabado. Passamos por um controle das passagens de mão, mas o desânimo foi total ao dar de cara com um grande saguão com uns vinte jovens espalhados pelo chão, enconstados em suas mochilas e com uma cara de desânimo total. “Esqueçam. Não há ninguém para nos atender no balcão e não estão deixando entrar no terminal quem não tem cartão de embarque”.

Opa! Nós tínhamos o tal do cartão. Fui na frente do grupo para o único guichê com uma policial para fazer o controle dos passaportes. Mostrei o meu junto do cartão que assegurava meu assento no avião para Roma, mas a policial com cara de pesadelo não quis nem saber. “Niet! Sem carimbo, não passa”.


Não adiantou argumentar que o vôo estava para sair e que as trinta pessoas ali precisavam estar dentro dele. A mãe Rússia tem mesmo o sobrenome Burocracia. Depois de uns cinco minutos, como num milagre, apareceu um funcionário da Aeroflot que deu a ordem: “deixem os passar, vai sem carimbo mesmo”.


Entramos no avião dez minutos depois do horário previsto para a decolagem, mas ela ainda demoraria mais de uma hora para acontecer. Mesmo assim, a aeronave não lotou e encontrei um assento com espaço à frente para esticar as pernas e relaxar um pouco. Por volta da meia-noite, pousamos em Roma.


A família tcheca disse ter reservado um ônibus de Roma até Praga pela Internet, que sairia as duas da tarde do dia seguinte. Jiri e eu decidimos que o melhor a fazer seria arrumar um hotel perto da estação de trem de Roma Termini para embarcar em um na manhã seguinte. Pegamos um ônibus do aeroporto até lá e encontramos quartos em um hotel logo em frente. Uma “Nastro Azzurro” serviu para brindar o fim de mais uma etapa. Agora é desmaiar, que o despertador vai tocar muito cedo: se a viagem de trem até Viena/Praga não der certo, a nossa alternativa vai exigir um deslocamento para o norte o mais rápido possível, seja qual for o meio que arrumarmos para isso...

13 comentários:

Alcivio disse...

Excelente!!
Além de entender muito de F1 és um grande contador de histórias.

Carlos Rossine disse...

Sensacional! Quando se aposentar da profissão de repórter, escreva um livro com suas memórias de viagens, eu comprarei!

Othon disse...

Muito bacana, todas as viagens merecem um post, contando sobre os bastidores !

TRON disse...

Se eu não gostasse tanto de voce Ico , torceria para toda viagem sua dar problemas para termos histórias excelentes como essas que estamos lendo.
Como gosto muito de suas matérias e postagens, somente posso elogiar e torcer para que voce nos brinde com novas histórias nas proximas "aventuras" que tiver sem esse sufoco e desespero do Vulcão com nome impronunciável EYE-a-fyat-la-jo-kutl.... (Eyjafjallajökull )

Inacio disse...

Muito bom! Muito bom MESMO!

Alexandre Perin disse...

Quando criança, com 1 ano de inglês no colégio, fui com meu irmão de avião Rio-Porto Alegre, sem meus pais. Fiquei junto com estrangeiros e passei o tempo todo conversando. Sempre que possível tento trocar experiências com pessoas diferentes, acho isto sensacional.

Mario Lago disse...

cara, que aventura!!!! confesso ansiedade na espera pelo próximo capítulo...

Ron Groo disse...

Uma Odisséia!

É... Eu também costumo colocar fones de ouvido e evitar conversas em viagens (de ônibus, que eu não vôo nem a pau) e fiquei pensando depois de ler seu relato: "-Realmente, quanta gente posso ter deixado de conhecer..."

Agora, eu vi no widget do tuiter em seu blog um link para uma canção, e quando cliquei nela, meu Deus! Ten years After! E tocando If you shold love me!
Vale cada ponto de exclamação que eu grafei!

Daniel Médici disse...

Ao contrário de, por exemplo, Matrix, a segunda parte da trilogia se mantém fiel à qualidade da primeira.

Quanto à pronúncia da Abrásia, (Abhrázia?), acredito que você tomou a decisão certa. Eu não falo nada de russo, mas minha namorada fala, o que significa que eu entendo alguma coisa.

E nesse ponto, as transliterações do cirílico para o português geralmente são ruins, pois passam por outras línguas até chegar a nós. Por exemplo, aqui no Brasil conhecemos o contista e teatrólogo Tchekov, mas esse "k" é o mesmo de Ab'k'ázia... Na Rússia, ninguém conhece Tchekov - o escritor, para eles, é algo parecido com 'Tcherraf'.

De disse...

"Fiquei pensando em quantas oportunidades de conhecer gente interessante eu perdi sempre que fiquei preso ao meu iPod."

Ico, pense no lado positivo, quantas pessoas chatas vc evitou conhecer por causa do seu iPod.

;-)

Anselmo Coyote disse...

Ico,

Vc perdeu com o iPod. Mas aprendeu. Isso é tudo.

Lembre-se sempre que um bom contador de histórias é sobretudo um bom ouvinte.

Quanto à aventura, putz... vc deve ter algum pacto com o sobrenatural para escrever assim.

Grande abraço.

Abs.

Paulo Cunha disse...

Muito bom, e não é fácil encaixar uma série de bons textos; parece que o terceiro está para nascer em boas mãos...

Desligar o iPod foi consequência de fazer mágica para um bando de velhinhos, sempre se corre um risco (grande) de receber um bafão, mas algumas coisinhas compensam... E claro que certas horas se está simplesmente cansado e querendo ficar na sua.

Jiri lhe colocou em outro nível de sensibilidade. Olha que eu achava que você já tinha um olhar para o diferente, seus relatos antigos não eram nada fechados no seu mundinho. Mas o Írji foi mestre, ter percebido a possibilidade de encantar aquela situação é ter o olhar para um momento poético.

Kico disse...

Os passageiros agradecem por mais essa viagem...

Abração ICO