sábado, 24 de abril de 2010

O SENHOR DOS ANÉIS: O RETORNO DO KRÁL

Foram apenas três horas de um sono agitado como só os sonhos de jet lag sabem ser. O alarme tocou pouco depois das cinco da manhã, mas foi fácil sair da cama, fechar a mala e deixar o hotel: o objetivo estava cada vez mais próximo. A estação de Roma Termini estava quase deserta nas primeiras horas do dia, assim como o guichê de informações e compras de bilhete. Seria necessário esperar para saber se havia um trem para Viena, mas Jiri tinha um trunfo na manga e era a hora de utilizá-lo.

“Tenho um amigo que está em Monza testando um Fórmula 1. Mandei uma mensagem para ele, que falou não ter problema nenhum para nos levar até Praga, desde que nos encontremos em Milão”, foi o briefing do tcheco. Fiquei imaginando que amigo seria esse que dribla sem cerimônia a proibição de testes da FIA, ainda por cima em Monza. Mas, àquela altura do campeonato, pegaria carona até com Flavio Briatore ou mesmo com Luca Badoer.

Compramos a passagem até Milão numa máquina automática e seguimos a jornada, desta vez em um novo meio de transporte. Tinha até me esquecido como é bom viajar de trem. Enquanto o dia amanhecia iluminando os campos enevoados da Toscana, espetei meu laptop numa tomada e adiantei a coluna da semana para o Diário Lance. Onde eu conseguiria conexão para enviá-la, porém, era algo tão incerto quanto o desenrolar da minha viagem.


Chegamos em Milão pouco antes das dez manhã. Enquanto Jiri recebia uma mensagem do amigo pedindo que pegássemos um trem até Monza para que ele evitasse o insuportável trânsito que liga as duas cidades, nós fomos ao guichê para ver se haveria trem até nossas cidades. Uma extensa fila denunciava os reflexos do caos aéreo nas vias férreas. “Para Viena ou Praga? Só hoje à noite... ou... esperem... não, também está lotado. Só amanhã de manhã”, informou o vendedor. “Sem problemas, vamos querer duas passagens no próximo trem para Monza.” A cara que ele fez foi ótima, tentando entender se éramos apenas dois viajantes perdidos que resolveram passar o tempo saciando um possível fanatismo pela Fórmula 1.

Embarcamos no trem regional em meio a um monte de gente engravatada, partindo para mais um dia cotidiano numa região densamente industrializada. “Vocês são heróis”, falou um deles ao saber da nossa trajetória desde Xangai e rumo à Europa Central. Menos, éramos apenas mais um dos milhares afetados pelo vulcão impronunciável e estávamos apenas curtindo cada segundo do deslocamento.

Chegamos em Monza e fomos a um posto de gasolina em frente à estação de trem para esperar pelo amigo de Jiri. Fiquei imaginando a enrascada que estaríamos se o piloto de F-1 misterioso aparecesse com uma Ferrari – seria necessário tirar o motor para que nossas malas coubessem. A minha maior, aliás, estava com aquele “puxador” quebrado desde a China, fazendo com eu a empurrasse mundo afora no muque. “My Precious” é mesmo um fardo pesado para carregar, não é?


As incertezas se dissiparam com a chegada triunfal do tal amigo. O carro era uma Mercedes GL 450, uma baita de uma SUV. Feita as apresentações de Marek e de sua esposa eslovaca Lenka, a história do teste ficou mais clara. Ele é o editor da versão tcheca da “F1 Racing” e foi a Monza convidado a reportar sobre uma dessas empresas que oferecem a chance de andar com um F-1 antigo por um punhado de grana. Marek deu cinco voltas na Arrows de 1997 de Damon Hill, mas não ficou muito satisfeito. “É pouco. Quando você começa a pegar a mão do carro, as voltas já terminam”, explicou.

Além do teste, ele pôde emprestar o carrão de um representante da Mercedes em Praga, para fazer um box sobre o carro na revista. Para isso, determinou que não tomássemos o caminho comum de volta, que seria uma enorme e movimentada estrada que liga Milão a Veneza e me lembra muito a Dutra. “Vamos para alguns lugares bonitos, para tirar umas boas fotos do carro”, explicou, enquanto o majestoso carro preto passava pelo lava-rápido como uma modelo que se prepara para ser capa de revista. Claro, vamos nessa!

Passamos em um supermercado para fazer um reforço do café-da-manhã e comprar algumas coisas para levar para casa, basicamente queijo e vinho. Quando me dei conta, estávamos no lago de Como, um lugar de beleza ímpar. A volta para casa já não importava tanto. Fizemos umas fotos e partimos logo para um ótimo almoço na beira da água. Depois seguimos lago acima, cruzamos uma parte dele numa balsa e seguimos Itália adentro em direção aos Alpes. Depois da improvável passagem por Monza, custei a acreditar para que lugar rumávamos.


O GL 450 tinha um navegador de série e Marek vivia recalculando rotas em busca de um caminho mais curto até a autoestrada 22 (meu número da sorte), que nos levaria adiante. Naquela altura,eu já tinha ligado para a empresa férrea austríaca e me certificado que haveria um lugar no trem noturno que sairia de Innsbruck até Viena. Minha viagem no majestoso “Král” (“Rei”, em tcheco) terminaria na capital do Tirol.

Numa dessas mudanças de waypoint, o colega apontou para cidade de Cles. Eu avisei: “já dirigi ali, é bem alto e sinuoso. Melhor tomarmos o outro caminho até Bolzano”. Mas Marek insistiu no trajeto mais curto – pelo menos na metragem indicada no mapa. Não demorou para começarmos a subir em serpentinas intermináveis, muitas vezes tendo de arrastar-nos atrás de caminhões. Vacinados contra qualquer contratempo, Jiri e eu curtíamos a paisagem, mas o casal tcheco-eslovaco volta e meia iniciava uma discussão. Pela velocidade impressionante com que falavam aquele amontoado de consoantes, parecia que eu estava testemunhando um bate-boca entre o José Silvério e o Nílson César. Era engraçado.


Os ânimos se acalmaram quando paramos para tomar um café no alto da montanha. O ar fresco da primavera, com o sol do final da tarde iluminando o topo das dolomitas, nos clamava a atenção por um lugar especialmente bonito, ainda branco da neve que restava de um dos invernos mais rigorosos de todos os tempos na Europa. Foi Jiri quem primeiro identificou o contraste: “Há dois dias estávamos em Xangai, onde a poluição deixa o ar sempre enevoado no meio daquele monstro urbano. Quem imaginaria que a viagem nos levasse até aqui!” Olhei a placa na esquina, no início de uma outra estrada que indicava faltarem apenas 18 quilômetros até Madonna di Campiglio, onde estivera em janeiro no evento da Ferrari. “Pois é: primeiro Monza, agora aqui. Eram os últimos lugares pelos quais eu imaginaria passar”.


De certa forma, as incertezas da viagem terminaram ali para mim. O caminho até Innsbruck seguiu tranqüilo, com muita conversa e boa música. Por volta de dez e meia da noite, o “Král” estacionou em frente a Bahnhof austríaca e me despedi com uma saudável tristeza dos meus colegas tchecos, com a promessa de visitá-los em Praga em breve e de receber Jiri e sua esposa em Viena também num curto espaço de tempo. Mais do que experiências divertidas, a roubada do vulcão me rendeu um amigo. E o valor disso é inestimável.

Corri para um Internet Café para passar a coluna do Lance – não, eu não tinha esquecido. Depois de comer um lanche rápido no Burger King, fui para um dos únicos locais ainda abertos naquele horário. Era um típico “Beisl” austríaco, um bar enevoado pelas fumaças de cigarro e cheio de tipos estranhos. Entrei naquele e dei de cara com um sujeito que só tinha um olho. Pedi uma cerveja e fiquei observando os outros tipos: os bêbados que deviam ir lá todos os dias, o sérvio que estava enchendo a cara ao mesmo tempo que tentava cantar a senhora que servia a todos, os imigrantes que, como eu, estavam ali para fazer hora e esperar chegar o horário de seus trens.

A cada gole, o cansaço apertava. No meio do copo, já me sentia como um Frodo cada vez mais no limite de suas forças, quase sucumbindo na base da Montanha da Perdição. Resisti só até embarcar no trem, que partiu às quinze para as duas da manhã de quinta-feira. Numa cabine vazia, me esparramei em três assentos e desmaiei madrugada adentro. Só abria os olhos quando aquele delicioso chachoalhar cessava para olhar onde estávamos: Salzburg, Wels, Linz, Amstetten e St. Pölten, que foi quando o trem lotou com o povo que trabalha na capital, o dia já amanhecendo.

Cheguei em Viena às 7h40 da quinta-feira, mais de três dias depois de ter deixado o hotel que fiquei originalmente hospedado em Xangai. Cheguei em casa, abri a porta e fui recebido com a alegria contagiante da minha pequena Pipoca. Uma festinha de cachorro com a mesma intensidade de sempre, aliás. Para ela, o dono voltava de uma viagem como todas as outras. Para mim, era o final de uma das aventuras mais bacanas da minha vida.

Massagistas chinesas, ex-guerrilheiras abrasianas, boxeadores norte-coreanos, aeromoças russas, executivos italianos, piloto de Fórmula 1 tcheco: a Terra-Média é cheia de personagens diferentes e cheios de estória. Que eu pude conhecer só porque Mordor resolveu jogar uma nuvem negra sobre parte dela. Há males que vêm para o bem e Sauron não contava com isso.

The End


(Fotos Jiri Kranek e Luis Fernando Ramos; Cartaz Rica Ramos)

27 comentários:

Rodrigo Favoretto disse...

Hahahaha Bela aventura Ico e muito bem narrada, sensacional...

Claudio Ceregatti disse...

Sensacional relato!
Vale a pena se perder pelo mundo, trilhando os caminhos mais improváveis, à mercê das forças da natureza e da sorte.
Histórias pra contar... Que delícia.

Carlos disse...

Muito legal a sua aventura.

Claudio disse...

Boa noite, ICO.

Espero que outros vulcões entrem em erupção... Para que tenhamos outras belas histórias como essa...

Parabéns pela narrativa...

alberto medros disse...

morri de inveja!

Juliano Duarte disse...

Nossa ! Fantástico Ico...um dia quero te encontrar e contar uma história parecida quando fui para Montmelò em 2006...Abração !

Caio Lucci disse...

Caraca Ico otima historia !!!!

Devia mandar pra alguma produtora pros caras fazer um filme hehehehah ia ser interessante, eh daquelas estorias que quanto mais voce le mais voce quer ler otimo.

Carlos Rossine disse...

Essa montagem ficou hilária!

Guzz disse...

Que as próximas aventuras como essa rendam outras boas histórias!

Renato disse...

Ri bastante quando você mencionou que aceitaria até a carona do Briatore, hehehe.

Paulo Coruja disse...

Aceite esta sugestão, criar um blog só sobre as aventuras de viagens... Sria sensacional... ótimos os 3 posts!

José Eduardo disse...

Olá Ico,
Muito legal a narrativa da "aventura",seu texto esta ótimo e, acompanhando-o pela F.1 então,sensacional !!! Parabéns.
Abs,
J.E.Ávila

Anônimo disse...

Muito legal mesmo Ico! Confesso que fiquei preocupado contigo devido ao caos aéreo...e muito mais contente em poder acompanhar tentando imaginar essa grande aventura espetacular! Ri e curti muito toda essa estória...Show, agora o esperamos na pista!
John White

elieser34 disse...

super, super legal esta aventura. Ico.
Escutei ontem na radio bandeirantes e vim conferir no blog.
Demaiiiissss

JcroB disse...

Ico:
Acabo de ler e curti muito sua aventura...Maravilha. Merece mesmo um livro ou um roteiro. As fotos e o cartaz do Rica também encantam o olhar.
Parabéns e saudades.
Pai

Anônimo disse...

Muito bom o texto! E sua aventura, também...

Talvez, fosse sua viagem de retorno mais rápida, não teria sido tão boa - ou rica de acontecimentos/experiências.

Acredito que nós precisamos 'pisar no freio' de vez em quando e observar o que vai ao nosso redor (mesmo que a paixão pela velocidade pareça nos pedir o contrário!). O planeta está girando mais rápido e a gente não pode se perder nessa espiral de velocidade...

De novo, belo texto!

um abraço,
Renato

(não sou o Renato aí de cima, KKKKK)

Talita disse...

Belas Fotos
A neve então...
.
Sou nascida no dito Tirol brasileiro, muitas lembranças desse meio. Mas confesso que queria ouvir o bate-boca do casal.Gente é tudo igual mesmo.

Mas se deu pra tomar uma cervejinha e se esparramar na poltrona, a viagem fechou com chave de ouro!!
.

Na próxima Ico, pede uma viagem com vulcão no meio do caminho, que tal?

;>)

Ron Groo disse...

FANTÁSTICO! ISTO QUE É AVENTURA, ISTO QUE É VIDA!

Faço coro pela publicação de um livro.
E este cartaz é hilário.

Cris disse...

É por posts como esse que me obrigo a ler o seu blog todo o santo dia.
Obrigado Ico. Imensamente grato

Ridson de Araújo disse...

Primorosa sua viagem. Devia fazer um livro de crônicas sobre sua cobertura da F1, e em especial esses momentos de volta para casa.

Garanto que compraria, se chegar aos mundos paralelos de Fortaleza, Ceará. rsrs



Ico, é um convite a vc, por ser jornalista, a ler este último post que fiz. Entre uma reflexão e um desabafo, tento desmistificar a pretensa neutralidade e impessoalidade nos discursos (inclusive nos jornalísticos), em especial dos amantes de esporte.

http://historiasevelocidade.blogspot.com/2010/04/sobre-pretensa-impessoalidade-e.html

Abraço.

]muguello[ disse...

Confesso que fiquei com uma ponta de inveja da parte Europeia de sua aventura... Perguntinha... voce aceitaria carona de Briatore... e de Nelsinho? Nao sabia que voce morava na Austria, alem da F1, o que mais voce cobre jornalisticamente?

Rosa disse...

Belíssima narrativa, Ico. Parabéns! Seria ótimo se vc nos contasse mais de suas aventuras. Também faço coro para um livro.

Abç,

Rosa

Nicholas disse...

Incrivel essa sua "épica" volta para casa, os relatos me fizeram não parar de ler um momento, ISSO QUE É VIDA, as interperies nos colocam em lugares maravilhosos, legal o piloto de F1, a nova familia amiga e sem duvida o cartaz Ico "Frodo" Ramos!!!....

Parabéns!!!

edsonsandrade disse...

Ico,

cada dia fico mais fã de seu blog.
Essa sua odisséia me causou um inveja danada. Esse trecho final deve ter sido bem legal. Pela vista e pela companhia.
Keep up the good work!

Edson Andrade

Anselmo Coyote disse...

Essa é a história do cara que era mágico e não sabia. Enquanto todos espraguejavam com o azedume do limão ele fez uma limonada digna dos deuses.
Abs.

Anônimo disse...

Cacete e vc mora em Viena !!!! to achando que de lá vc iria pegar um voo para o Brasil !! ahahahahah

Anônimo disse...

Puta aventura, Ico! Vc em Xangai lembrou o que passei em Viena, indo pra onde o nariz apontasse.

Nem pensando durante semanas, eu conseguiria descrever a atmosfera de um Beisl tão precisamente.

Grande Abraço
Rafael Inouye