segunda-feira, 9 de agosto de 2010

PAPO COM KUBICA

Robert Kubica é daqueles pilotos que não gosta muito de entrevistas. Se dependesse dele, todo o tempo do dia seria dedicado a sentar com os engenheiros em busca de soluções para melhorar o desempenho do carro. Este é o papel que ele assumiu este ano como líder da equipe Renault e nem resultados positivos como os pódios na Austrália ou em Mônaco desviam seu foco do trabalho.

Mas o polonês tem uma visão completa do que faz parte da Fórmula 1 e atende os jornalistas com absoluto profissionalismo. Nos dez minutos desta conversa exclusiva que tive com ele, o polonês discorreu abertamente sobre diferentes temas. E revelou que jamais esteve perto de correr pela Ferrari.

Quando conversamos em 2006, o seu ano de estréia, você disse que na Polônia ninguém conhecia a Fórmula 1 e não havia o menor interesse pela categoria. O que mudou desde então?

Muita coisa. É verdade que antes apenas um grupo muito pequeno acompanhava o automobilismo como um todo. Mas nestes anos todos que pilotei pela BMW e agora pela Renault, as pessoas passaram a viver a F-1 com mais interesse. Acho normal que um esporte novo gere este desejo nos torcedores de saber mais sobre ele. Mas a verdade é que a F-1 não é um esporte fácil de seguir. A tecnologia tem um peso importante e as equipes não gostam de mostrar o que estão fazendo. Mas, mesmo assim, o interesse que há na Polônia é muito maior que no passado, não há comparação.

Falando em comparações, quais as diferenças entre a BMW e a Renault?

Nas quatro temporadas que passei na BMW tive mais momentos bons que ruins. Mas quando a marca deixou a Fórmula 1, tive de encontrar uma nova equipe para mim e escolhi a Renault. São pessoas de nacionalidades diferentes e é natural que haja diferenças de cultura e mentalidade. Mas encontrei aqui pessoas boas, trabalhadoras e que amam a competição acima de tudo. Está ótimo para mim.

A impressão que temos de fora é que você é mais ouvido aqui do que na BMW, conseguindo dar mais suas idéias no desenvolvimento do carro. Confere?

Não podemos esquecer que a situação diferente me coloca numa posição diferente. Quando me tornei piloto da BMW era um estreante na categoria. Aqui cheguei para ajudar a equipe a voltar a crescer e a melhorar o carro. São papéis diferentes. É natural que eu não ganhasse muito atenção quando era um novato e que eu ganhe mais agora, que tenho mais experiência e posso chegar com idéias diferentes.

Na reunião com os engenheiros depois do pódio na Austrália você preferiu apontar os problemas no carro do que comemorar o resultado. É um retrato da sua filosofia?

Momentos bons como um pódio são importantes para o humor e a satisfação pessoal. Mas a F-1 é um esporte muito duro e competitivo. É preciso estar acima dos adversários em todos os aspectos. Por isso eu acho que o momento em que você relaxa achando que está no caminho certo é quando você começa a cair. É muito importante se manter concentrado o tempo todo, trabalhando em cima do que tiver para ser melhorado.

Você acredita que a Renault voltará a fazer um carro vencedor?

Espero que sim! Não tenho 100% de certeza que isso vai acontecer, mas acho que isso vale para todas as equipes: nenhuma sabe se terá um modelo vencedor para o ano que vem. O importante é fazermo o melhor possível do nosso lado para ter o carro mais veloz possível. Mas não podemos controlar os outros! É impossível saber o quão competitivo serão os carros deles. É um esporte muito complexo, no qual detalhes pequenos têm uma influência grande no resultado final.

Seu nome esteve ligado à uma vaga na Ferrari no início do ano. Você chegou a pensar que poderia correr lá em 2011?

Não. Por um lado eu fiquei feliz de associarem meu nome a uma equipe como a Ferrari. Mas, por outro, eu sabia que não havia nenhuma verdade no que diziam. Nunca tivemos nenhum tipo de conversa para que eu pudesse imaginar que correria para eles. Claro que é uma equipe especial, acho que todo o piloto do grid gostaria de pilotar por eles um dia, mas nunca estive em posição para pensar nisso. Foi apenas invenção da imprensa.

O que você gostaria que fosse diferente na Fórmula 1?

Por mim, eu voltaria ao sistema de classificação com apenas uma volta rápida para cada piloto. Também queria ver novamente a competição entre diferentes marcas de pneus. Me lembro que em 2006 tínhamos muitos testes por causa disso, então eu também traria de volta os testes durante a temporada. Talvez não tantos como naquele tempo. Uma ou duas sessões por mês estaria bom.

Uma coisa diferente neste ano é a presença de comissários de prova, que estão de forma geral punindo menos, dando mais advertências. Na pista, você se sente com mais liberdade na hora de disputar posição?

Para mim não muda nada. Eu sempre tento ser um piloto limpo. Na hora da disputa você age instintivamente, seja para defender ou para ultrapassar, mas não dá para pensar na hora como uma ação pode ser interpretada pelos comissários. Eu só tento seguir as regras, porque elas existem para serem respeitadas.

Você tem muitos hobbies. Qual você gosta mais, boliche ou pôquer?

Ultimamente não tenho jogado muito pôquer, então acho que gosto mais de boliche. Até participei de alguns campeonatos da modalidade no ano passado.

Mas o Rubinho disse que você é um bom jogador de pôquer.

Sério? Não, não acho. Jogando online sou ruim, mas no ano passado ganhei muito jogando ao vivo. Mas o mais importante é se divertir na mesa e isso eu sempre fiz.

Neste ano, você tem disputado algumas provas de rali. Isto tem te ajudado de alguma forma?

Eu sou um grande fã de rali, é uma paixão que eu tenho. Graças à Renault estou participando de algumas etapas neste ano. Ainda que não esteja pilotando o carro mais tecnicamente desenvolvido, tenho me divertido bastante.

Para encerrar, o que você acha do circuito de Interlagos e do Brasil como um todo?

O Brasil é um lugar que eu gosto de visitar. As pessoas têm uma atitude diferente. São fãs muito legais. Mesmo que eles estejam torcendo para os pilotos locais, o clima na pista é excelente. O traçado é interessante, muito desafiador com as mudanças de nível e uma boa mistura de curvas. É uma corrida que dá gosto ir disputar.

9 comentários:

Peixe Antenado disse...

Grande Robert, não vejo a hora deste camarada disputar o título pra valer, ele merece mais do q a maioria q está disputando este ano.
valeu!

Eduardo Malheiros disse...

Essas entrevistas com os pilotos são sempre muito legais. Aquela com o Sutil mudou bastante minha percepção para com ele, foi muito bacana. Acho que o Kubica é mais um para a lista. Pé no chão e trabalhador, um tipo comum entre os pilotos mas difícil de encontrar alguns degraus acima. Que sirva de modelo para esses...

Silvia disse...

Gostei da entrevista, sujeito bacana esse Kubica, não quis falar mal da BMW, um cara realista e esforçado...um futuro campeão com certeza!

Valeu pela entrevista, Ico. Abs.

Érico disse...

Tenho que tirar o chapéu pro Kubica. Além de excelente piloto, ele não deixou que o mundo corporativo da F1 o contaminasse, seja para se tornar um mero papagaio dos RPs ou metido e cínico.

Anônimo disse...

Ico, mesmo de férias você não está deixando a peteca cair, Como habitue de seu Blog agradeço a consideração.
BRAVO!

brasil disse...

Infelizmente a falta de um carro campeão faz com que muitas injustiças sejam cometidas na F1.

Kubica tem feito um grande ano, e é possível que algumas das melhores pilotagens do ano sejam dele. Mas como os resultados não refletem isso, nunca se saberá o quão bom aquilo foi. Rubens falou disso esses dias. Lembro dele ter dito que algumas das melhores corridas dele foram pela Honda, em termos de pilotagem, mas o resultado - um 11º lugar, por exemplo - nunca mostrará isso. Robert ainda terá a sua chance num carro de ponta, e o amadurecimento natural o ajudará muito na busca de um título.

Ótima entrevista, excelente poder conhecer os pilotos além das notícias e das imagens. Valeu!

Ron Groo disse...

Grande Kubica, e grande Ico, que soube extrair o melhor do piloto em dez minutos.

Leonardo disse...

Parabéns Ico! Mais uma vez um ótimo trabalho, grande entrevista, com um dos pilotos que mais vem se destacando na fórmula 1 atualmente.

Ridson de Araújo disse...

puxa...que boa reportagem. E torço pro Kubica conseguir melhorar a Renault. Mais uma equipe brigando é muito bom.