quinta-feira, 2 de setembro de 2010

ALERGIA AO TILKE

O traçado do circuito de Austin, no Texas, foi divulgado ontem na Internet. Como reza o procedimento exigido por Bernie Ecclestone, o projeto ficou a cargo do arquiteto alemão Hermann Tilke. E carrega consigo suas marcas registradas: a reta dos boxes precedida por e precedendo uma curva lenta; um trecho bem travado e uma reta muito longa.

Tilke também resolveu temperar a receita com idéias “emprestadas” de outros circuitos. Colocou uma seqüência de curvas de alta velocidade que emula o complexo Becketts/Maggots de Silverstone. E outra para repetir a curva 8 de Istambul, sua criação mais famosa. O resultado é pouco promissor. O arquiteto parece carecer de inspiração e está buscando fontes no trabalho de outros para misturar com o seu. Que nunca foi lá essas coisas.


Outro circuito também está rendendo notícias nos últimos dias. O circuito da Coréia do Sul não ficou pronto a tempo do prazo-limite de 90 dias dado para a inspeção final da FIA. A entidade fez vistas grossas e espera por um milagre para a pista ficar pronta em 24 de outubro. Pelos relatos que escutamos sobre o ritmo das obras, é difícil imaginar que isto aconteça.


É de chorar. Os autódromos construídos por Hermann Tilke são modernos, espaçosos, seguros e... sem graça. O de Abu Dhabi, opulento como a riqueza dos xeques que o construíram, lembra um Shopping Center. Mas o que mais interessa, a qualidade da corrida ali, não correspondeu ao investimento. A prova que encerrou o Mundial do ano passado foi muito chata. E a deste ano, última do calendário, pode decidir o título.


Depois de uma prova como a Spa-Francorchamps, é de se lamentar a política atual de organizar provas em praças estranhas à categoria, a custos astronômicos e com pistas enfadonhas. Pude dar uma volta em ritmo de passeio nesta segunda-feira pelo circuito e o que mais chama a atenção é a maneira como as curvas seguem com naturalidade a topografia do terreno. Sem necessitar de trechos lentos, de uma curva com ângulo agudo a cada quilômetro.


Será que o mala do Tilke não vê isso?

(Coluna publicada na edição de hoje do Lance!)

16 comentários:

Dennis disse...

Também não vi nada de mais na pista Ico, mas acho que somos minoria nesta. Em outros blogs, o que se vê são elogios.

Marcos Antônio disse...

ele não vê Ico, é ridiculo como um cara desse continua a fazer pistas pra F1. E o futuro é esse, boas corridas serem substituidas por esses tilkodromos...

Raphael disse...

Que parece CTRL+C - CTRL+V de outras pistas, isso parece. Até aquele grampo lá em cima parece a La Source-- ops, me perdoem pelo sacrilégio.

Vamos ver no que vai dar isso aí. Um dia o sr Ecclestone morre... Já está velhinho e gagá...

Daniel Médici disse...

Sempre prometem algo novo, sempre rasgam seda para a forma criativa com que Tilke emprega os vultuosos recursos... e sempre ele entrega resultados muito iguais.

Faz muita falta alguma variedade nos traçados, orincipalente agora que todos saem do forno com algo entre 5,2km e 5,8km. A temporada precisa de disparidades, como, por exemplo, uma volta em torno de 2m30. Já pensou?

Érico disse...

Eu gostei do traçado. Entre cortes, recortes e cópias, Tilke conseguiu desenhar/juntar algo menos travado e lento que seu (medíocre) usual.

Em sua defesa, devemos lembrar que as normas de segurança da FIA para a construção de circuitos estão cada vez mais apertadas. Elas seriam as mesmas para qualquer um que quisesse construir uma pista nova. Ninguém recriará algo como Eau Rouge num circuito novo.

E não devemos esquecer que há um mapa prevendo as elevações do circuito. Essas elevações podem adicionar muito a trechos que são aparentemente ruins. Até mesmo um mero hairpin pode se tornar desafiador e traiçoeio, assim como você falou da Rivage num de seus posts sobre Spa, que era muito mais inclinada que aparentava ser pela TV.

Érico disse...

Daniel Médici, pense um pouco. Uma volta em 2:30? Ou isso seria um traçado lento e enfadonho, ou uma pista com 8km ou mais, ou ambos.

Agora, diga-me: quem quer uma F1 correndo por circuitos lentos e travados? Imagine uma Hungaroring com 6km ou mais? Eu não. E quem iria gastar milhares de dólares em ingressos e pacotes para um GP se só visse os carros uns poucos segundos a cada 2 minutos ou mais? É um tremendo contra-senso.

O que você propõe seria chato de ver pela TV e pior ainda para ver das arquibancadas. Sem contar na total inviabilidade econômica de se arcar com os custos de construir e manter circuito dessas proporções.

Não sou defensor do Tilke. Está mais que provado que seus circuitos são ruins e desanimadores. Mas, para o criticarmos, temos ao menos que ter certa medida de bom senso.

Al Unser Jr. disse...

Até que enfim alguém com a mesmo linha de pensamento minha, ref. a essa pista-curva de Austin.

Agora... Icooo... põe mais vídeos de SPA "home véio"!!!

Parabéns pelo blog.

fidalgo disse...

Daniel Médici, fiquei pensando na sua ideia e numas contas rápidas que fiz aqui (espero que não me tenha enganado em nada), uma volta de 2m30s, num circuito de 7km (que tenho ideia que é o máximo permitido pela FIA para F1) daria uma média de velocidade de 165kmh.
Comparando com o actual calendário, somente seria mais lento que o GP do Monaco, e apenas por 6kmh (dados de 2008).

Não parece viável.

Smirkoff disse...

Também não vejo graça na maioria dos Tilkódromos, mas o problema dessas pistas passa pela própria configuração da F1. Vi corridas de outras categorias em pistas do Tilke com pegas e ultrapassagens sensacionais. Acho que a revisão técnica que a F1 vai passar em 2013, se feita com bom senso, pode melhorar a impressão do público em relação aos Tilkódromos.

Thiago Wilvert disse...

Só sei de uma coisa, esse "Monopólio Tilke" é uma droga! Ele já está viciado nas "ideias". Chamem logo outras pessoas para projetarem pistas e ouçam os pilotos também!

Abraço!

Ron Groo disse...

Tilkódromos? Stambul e Malasya são bem passáveis, mas os outros?
Não valem a borracha que os carros perdem freando na entrada da Parabólica...

Este ai então... O cara faz Crtl C Crtl V nas próprias obras.

Fernando Mayer disse...

Ico e amigos
Boa Tarde!

Parte da culpa desses circuitos do Tilke serem o que são se deve as normas de segurança. Isso parece um ponto indiscutível. Mas o grande problema é que as partes envolvidas nesses processos de criação dos circuitos só querem saber de uma coisa: din-din!
Não é a toa que fizeram de tudo pra voltar a um país que nem é e nunca foi tão apreciador da F1.

Se nem Indianápolis, conseguiu convencer os americanos, creio que um Tilkodromo que nem de longe é sinônimo de grandes disputas na pista como os americanos tanto adoram, vai fazê-los mudar de idéia sobre nosso amado esporte.

Sou mais Watkins Glen que já recebe a Indy e mesmo sendo uma categoria completamente distinta da F1, não creio que esteja tão fora dos padrões de segurança exigidos pela FIA.

E ainda querem trazer a Danica...

Meu Deus!!!

Abs

Eugenio disse...

... e nos EUA teria tanta pista maravilhosa...

road america, mid ohio, laguna seca...

as da indy que nao sao ovais ou de cidade são super bonitos...

Eugenio

Anônimo disse...

olá Ico

tinha visto esse layout em outro blog e notei a mesma coisa que você, a sequência nitidamente inspirada naquele trecho de Silverstone e também a outra semelhança com a curva 8 de Istambul. Legal a coincidência nas análises.

Interessante o que o Smirkoff disse acima, faz pensar com que talvez o problema seja toda essa eficiência nos projetos dele, onde os carros da F1 podem render o máximo possível - o que significa o máximo possível de aproveitamento aerodinâmico daí levando à real impossibilidade de, ao menos, se tentar disputar posições em pista, nos GPs.

Quanto às voltas em 2m30s levantadas pelo Daniel: o Interlagos antigo, de quase 8 kms, ao final dos anos 70 era percorrido nesse tempo pelos F1 de então - se bem me lembro a uma média de quase 180 por hora (posso estar errado, estou dizendo sem pesquisar).

Pessoalmente não acho mal voltas muito curtas, taí Interlagos pra mostrar que isso não implica em corridas chatas, e tem um adicional positivo (mas para o qual boa parte das pessoas, a princípio, torce o nariz) que é assistir o classificatório em pista curta, ainda mais com ótima visibilidade para o público, como aqui em SP, é muito emocionante. Eu acho um dos grandes pontos positivos de Interlagos hoje em dia, penso que até compensa a falta de uma curva verdadeiramente de alta no traçado paulistano atual - eu já assisti, in loco, classificatórios e corridas em Interlagos e também em Spa (duas vezes), e os classificatórios aqui em SP me pareceram sempre mais interessantes pois, naquele anfiteatro natural, é realmente excitante acompanhar o desenrolar da disputa pelo grid, é fácil perceber quem está sendo rápido, especialmente tendo-se visão do S do Senna e do Sol.
Em Spa, ano passado, vi o treino na Bus Stop, e a dependência das informações do telão era total - aqui se pode perceber e até antecipar a informação que virá sobre quem está mais rápido. É um prazer comum nas pistas ovais norteamericanas, mas raro na F1, a exceção sendo Interlagos.
grande abraço

fernando amaral

Anselmo Coyote disse...

Isso é um microscópio? Com certeza esse cara sabe fazer uma pista decente. É óbvio que ele está obedecendo ordens expressas de alguém para fazer isso.
Abs.

Arawak Deserter disse...

O Fernando Mayer lembrou bem: Watkins Glen já sediou a F1 uma pá de vez -- e não me parece que seja tão ou mais "perigosa" que Mônaco...

... trazer a Danica??? Por muito menos grana eu faço muito menos bobagem na pista do que ela! Pra onde eu mando o currículo?? Ra ra ra ra ra ra!!! :O)

Chorei de rir com o "microscópio" do Anselmo Coyote... Não tinha reparado, mas é bem isso mesmo!!!

A impressão que fica é a de que o Tilke, ao contrário dos demais desenhistas, não usa a mão pra desenhar. Usa o intestino!

e-braço!