domingo, 5 de setembro de 2010

O LEGADO DE JOCHEN RINDT

O espaço da galeria é modesto. Cada espaço na parede é utilizado para abrigar fotos de Jochen Rindt, o velho campeão da Fórmula 1 falecido no dia 5 de setembro de 1970. “Era uma época fantástica. Talvez a mais bonita na história do esporte, mas infelizmente uma em que era muito difícil sobreviver”, diz Gerhard Berger, os olhos fixos nos retratos que registram toda a movimentação em frente ao box da Lotus em Monza naquela fatídica tarde.

Jochen Rindt está falando ao microfone. Ele grava uma passagem para o programa “Motorama” da televisão estatal ORF. É uma iniciativa sem paralelo na história da mídia mundial. Um formato em que a grande estrela da Fórmula 1 aparece semanalmente nos aparelhos de televisão do país dando dicas de condução, numa parte do programa, e atuando como repórter e comentarista sobre a categoria em outra parte.


Um piloto entrevistando seus colegas numa época em que abundava respeito e amizade no paddock: foi uma mistura que rendeu momentos de pura poesia para a cobertura do esporte. Foi ao microfone de Rindt que Jack Brabham deu sua única entrevista após perder a vitória no GP de Mônaco de 1970 na
última curva. “Você danificou muito o carro”, pergunta o austríaco, que herdou o triunfo. “Não, quase nada. Foi o suficiente para você me passar”, explica Brabham. “Então eu tive sorte”, diz, modesto, Rindt. “Sim”, sorri o australiano.

Outra passagem arrepiante foi a feita após o GP da Alemanha, em Hockenheim. “Não estou triste com o segundo lugar. Nós tivemos uma briga muito boa. E foi ela que permitiu que a gente abrisse em relação aos outros pilotos. Eu realmente me diverti muito”, confessa Jacky Ickx a Rindt, que ainda veste a coroa de louros depois de triunfar por apenas sete décimos de segundo.

Em Monza, Rindt relata sobre o carro que está usando. “É a Lotus 72, mas sem os aerofólios porque aqui é importante ter mais velocidade em reta. Não estamos usando a Lotus Turbina. Por mais que seja um projeto promissor, eu não acho que ele já esteja pronto para o uso. Mesmo assim, temos um bom carro para tentar vencer neste final de semana”, diz. O final da última frase sai com a voz abafada pelos motores dos outros carros que cruzam o pitlane na sessão recém-iniciada. Rindt se vira ao diretor de programa, diz que vai dar umas voltas com o carro e que volta em seguida para terminar a gravação. Minutos depois ele estava morto.

Não há fotos do momento do acidente na exposição. Acho que nenhuma foi tirada, mas não seria mesmo preciso. A imagem de um mecânico da Lotus com a mão no rosto em puro desamparo diz muito sobre a dimensão da perda. Mais ainda o instantâneo do momento em que Jackie Stewart está nos boxes dando a notícia de que Rindt havia sofrido um grave acidente para sua esposa Nina. O toque final é dado pela foto do carro acidentado descansando numa garagem da região 25 anos depois, esquecido pela Lotus, pelas autoridades italianas e encontrado por mero acaso por um fã austríaco.
Eram mesmo outros tempos. Eu sempre tracei alguns paralelos entre as mortes de Rindt e de Ayrton Senna: dois pilotos vencedores, sucumbindo na pista ainda no auge de suas trajetórias. Dois homens cujos testemunhos falam acima de tudo do enorme carisma que tinham. Duas tragédias que abalaram seus países de origem, a ponto de todos se lembrarem o que faziam e onde estavam quando o fato ocorreu.

Gerhard Berger me conta: “Eu ainda não tinha me metido com automobilismo. Era um garoto, estava na casa de meus pais e me lembro de ouvir a notícia pelo rádio. Rindt e Senna são feitos do mesmo material. Infelizmente ambos morreram muito cedo. Tinham não apenas a vida inteira pela frente, mas muito sucesso a ser conquistado também. Existe uma divisão especial no nosso esporte de pilotos que estão muito acima dos outros. E os dois estavam nessa divisão, sem dúvida alguma”.

Mas as semelhanças param por aí. Ninguém busca um culpado pela morte de Jochen Rindt – embora alguns jornalistas que eram próximos ao piloto sempre sublinhem a conhecida obsessão de Colin Chapman por materiais leves como a causa da falha de um dos freios que levou ao acidente. Não há qualquer traço de revolta, qualquer acusação de Fórmula 1 assassina, como houve em 1994.

Morrer fazia parte do jogo. “É uma sensação que come seus nervos, porque a morte é a sua co-piloto. E se você se esquecer disso por um segundo, ela ganha a disputa”, escreveu o cantor Udo Jürgens na canção-homenagem “Der Champion”. Mesmo os personagens vivos hoje suspiram resignados e murmuram que “Jochen teve azar”. Nina Rindt, em entrevista à ORF: “Algumas vezes nós saíamos, esposas e namoradas de pilotos, para comprar um vestido preto para o próximo enterro. Pode parecer insensível, mas era mesmo assim naquela época”.Sua morte, brutal e registrada em Tecnicolor na freada da curva Parabólica, foi apenas a coroação de um ano maldito que levou também Bruce McLaren e Piers Courage. A lista continuaria no ano seguinte com Ignazio Giunti, Pedro Rodriguez, Jo Siffert... “Você morreu fazendo o que gostava”, discursou ao microfone o sueco Jo Bonnier no enterro de Rindt em Graz. Palavras que seriam repetidas dois anos depois no enterro do próprio Bonnier na Suécia. Uma época em que desafiar o cronômetro era bailar numa corda bamba cujo fio era o de uma navalha.

E ninguém, ninguém mesmo bailou tão bonito sobre este fio como Jochen Rindt. “Ele foi um dos pilotos mais rápidos que já existiram. E quando se tratava de andar perto do limite, nunca houve alguém como ele”,
fala Helmut Marko, amparado por imagens que mostram os carros de Rindt atravessados numa curva, o piloto cruzando o braço no contra-esterço com o olhar firme na saída dela, o pé cravado no acelerador para domar aquela veloz banheira de ferro e combustível.

Marko era mais do que o amigo do ginásio de Rindt, uma dupla cujos rachas pelas ruas de Graz eram tão famosos quanto indesejados. Era também um dos que devem a ele a chance de fazer uma carreira toda no esporte. As vitórias, a presença na mídia através do “Motorama”, a criação da feira “Jochen Rindt Show” (uma exposição especializada em automobilismo realizada anualmente em Viena e contando com a presença maciça dos maiores nomes da época): o piloto com um nariz inacreditável, bem a seu estilo explosivo, viciou uma nação inteira em velocidade.

“Antes de Jochen, pensar em automobilismo era algo como ir para a Lua. Mas foi através do seu sucesso que as portas se abriram para mim, para Lauda e para a construção dos circuitos na Áustria, o de Zeltweg e o de Salzburg”, diz o hoje conselheiro da equipe Red Bull. Helmut Marko também é firme ao especular sobre o que Rindt faria se tivesse sobrevivido ao voraz automobilismo dos anos 60/70. “Ele descobriu muito cedo o potencial do lado comercial do esporte, organizou as exposições de automobilismo. Estaria hoje ao lado de Bernie Ecclestone comandando o circo da Fórmula 1”. Não é exagero. O homem-forte da Fórmula 1 era uma espécie de empresário de Rindt na época, além de um grande amigo pessoal. E os dois tinham planos para abrir sociedade e fundar uma equipe de Fórmula 2 em 1971. Hoje, Bernie não economiza nos superlativos na hora de falar sobre a qualidade do piloto austríaco. E empregou a filha de Jochen, Natasha, durante muitos anos na empresa que comanda a F-1. Só fecha a cara quando lhe pedem para falar do fatídico 5 de setembro de 1970. “Não quero lembrar desse dia”, disse numa entrevista à tevê austríaca, os olhos úmidos de lágrimas. Ecclestone foi até a Parabólica e constatou de perto a morte de seu parceiro. Pegou o capacete cheio de sangue, caminhou até os boxes e enfiou a peça numa bolsa de couro. Fechou o zíper e nunca mais abriu a boca para dizer o que sentiu naquele momento.

Jacky Ickx também está presente na exposição em Viena. A pele traz rugas que o mesmo Ickx retratado nas imagens das paredes não tinha. Mas o espírito da época permanece. “Jochen liderou o campeonato até a última corrida. Sinceramente, ele merecia mais do que ninguém aquele título. Quando eu tive um problema na prova de Watkins Glen que me jogou para trás, achei que tinha sido uma coisa muito boa. Prefiro perder o único título que poderia ter ganho na Fórmula 1 para alguém como ele do que superar um adversário que não tem como defender os seus pontos. Nunca tive problemas com essa situação”, explica o belga.


Na porta da galeria Westlicht já se formou uma multidão. São duas, talvez três centenas de pessoas, ansiosas para entrar no modesto espaço e reverenciar seu maior ídolo. Já se passaram quatro décadas, a Áustria fez um tricampeão do mundo, ganhou algumas dezenas de corridas, não há como ignorar o homem que deu asas ao sonho dessa torcida. “Se existe um céu, Jochen está olhando hoje para este ponto. E sorrindo ao ver que n
ão se esqueceram dele”, aponta Ickx. Jochen morreu há 40 anos. Jochen vive.

(Fotos: Alois Rottensteiner/Archiv Klein - topo; Max Scheler - as outras três)

30 comentários:

Alexandre Carvalho disse...

Belíssimo texto, Ico. Mas há uma pequena correção a ser feita na data que você citou, no parágrafo sobre Bernie Ecclestone. É 5 de setembro, e não 5 de julho.

Speeder_76 disse...

Andei a ler, e claro, gostei muito. Bastante, mesmo! Acho que deve ser das melhores que já li aqui no teu blog. E de facto, Jochen vive, mesmo depois de Lauda, Berger, Gartner, Ertl, Ratzenberger, Wurz, etc...

Simplesmente fantástico.

Paulo Cunha disse...

Parabéns pela homenagem a Rindt. Concordo com o Speeder, acho que foi o melhor texto que li aqui.

Douglas Fortes disse...

Sem Palavras Ico, excelente texto, ótimo, emocionante.

abraço.

Ricardo disse...

BRAVO!!!!!!!!

Rafael disse...

incrivel, e infelizmente temos que lamentar esses efeitos negativos que o esporte traz - estranho é pra apaixonados da velocidade, criar tal "proximidade" com um piloto ou alguém desconhecido e distante, sentimos tal perda de maneira nada indiferente (ha outros pilotos que ainda tinham uma vida pessoal e profissional pela frente, e também se foram)

tibone disse...

Fantástico texto, Ico, percebe-se em cada paragráfo a dedicação e paixão pelo automobilismo, tanto de Jochen, cuja trajetória tenho de admitir que não conheço muito bem, quanto a sua, por retratar o momento da exposição e nos mostrar o quanto ele ainda é admirado e reverenciado na Austria e por aqueles que puderam conviver com ele, belissimo texto.

andre disse...

que lindo texto ico!!! foi essa a época em que comecei a acompanhar a F1, suas palavras me trouxeram de volta muitas emoções, gracias!

Fabrício Martins Tavares disse...

Parabéns pelo texto Ico. Talvez a trajetória de Rindt não seja conhecida pela maioria aqui, mas os seus posts nos ajudam a conhecê-lo melhor. Me parece que o Rindt teve, em relação à Austria, o mesmo papel que o Emerson teve com os brasileiros: abriu as portas do automobilismo mundial e da F-1 e mostrou o caminho para os que o seguiram. Para nossa sorte o Emerson foi um sobrevivente dos anos 60/70 e, considerando que andou na Lotus por quatro temporadas, a palavra sobrevivente, não soa pequena.

JCROBI disse...

Um fato lamentável de tantos anos, emoções sempre renovadas no silêncio entre as palavras.
Parabéns mais uma vez Grande Ico.
Saudades.
Pai

Érico disse...

Putz, é foda ler seu texto hoje e não pensar no acidente do Tomizawa ontem. Os caras morreram não só fazendo o que eles amavam, mas o que nós amamos. A distância no tempo e espaço não (eu nem estava vivo em 70) alivia a dor. É quase como se uma parte de nós tivesse ido junto, tributo pela paixão e vício pelas corridas. Esses caras são heróis.

Vladimir "Charles" Brown disse...

Maravilhoso o texto sobre um fenomenal piloto.

Quase valeu a pena ter vindo trabalhar nesta segunda.

L-A. Pandini disse...

Falar o quê, camarada? Dizer que está "duca" é chover no molhado. Maravilhoso! (LAP)

Fernando Mayer disse...

Que belo trabalho hein, Ico!!

Com isso você contribuiu para que despertasse, em mim e em outros fãs de automobilismo, um grande interesse em conhecer melhor a trajetória deste mito que sem dúvida nunca será esquecido!

Parabéns!

Celso AM disse...

uau! excelente texto Ico, parabéns!

Live Jackass disse...

Sensacional o post, belas imagens e o texto perfeito como sempre.

aqui deixo um convite para que conheçam um novo blog sobre F1, é o www.blog-motorhome.com.br, derivado do Forum Motorhome é lançado hoje com um podcast em video falando sobre F1!

Ituano Voador disse...

Sensacional, Ico! Um texto à altura do Jochen.

Vitor, o de Recife disse...

Belíssimo texto Ico, parabéns!

Lucas Carioli disse...

Além de toda essa herança que ele deixou para a Áustria, não podemos esquecer que ele era amigo de Emerson Fittipaldi e sua morte, por acaso, abriu o caminho do Brasil na Formula 1. Ou seja, além de tudo, Jochen tem muito a ver com nossa história na Formula 1 e nosso hábito de ver corridas.

No mais, ele sempre foi um dos meus pilotos favoritos. Acho que se tivesse sobrevivido, teria sido tão vencedor quanto foi Lauda.

Anônimo disse...

Gostaria de assistir este programa Motorama. Não achei no youtube. Alguém sabe onde posso assistir.

Do lado esquerdo da mesa onde o Rindt fala ao telefone, tem uma Playboy. A moça da capa se parece a Nina. Será que é ela? Ela era modelo?

Rodrigo

roger disse...

Um texto rICO ! Nada a comentar! Palmas!

Ico (Luis Fernando Ramos) disse...

Bacana a repercussão do texto, obrigado a todos! Acho que desde o do Ratzenberger escrito em 2004 eu não ficava tão satisfeito. Se for sina de falar sobre austríacos mortos, melhor preparar ensaios sobre Markus Höttinger e Jo Gartner...

Rodrigo, a Nina era modelo, mas que eu saiba ela nunca posou para a Playboy. O que obviamente é uma pena.

Abs!

Alexandre Carvalho disse...

Markus Höttinger... grande lembrança. Mais uma vítima de Hockenheim, ao lado de Clark e Depailler. Mal posso esperar para ler também sobre Jo Gartner.

Ah! E estou no aguardo sobre o filme do Rindt! Pena que jamais veremos esse material passando em um dos canais esportivos no Brasil. :-(

Sobre a Natasha Rindt, que eu me lembre, ela é piloto profissional (de aviões) e, durante muitos anos, comandava o jatinho executivo do Max Mosley em suas andanças pelo mundo.

blog da pos disse...

Ico, quanto mais leio seu blog, menos vontade tenho de ler os outros! Mais uma vez parabéns! espero que vocÊ não se canse tão cedo deste blog. E já que Maomé não vai até a montanha, a montanha irá até ele. Estou finalizando junto com amigos um mod para rfactor de formula vee. Eu garanto que é muito parecido com o GPL, embora com motor de kombi 1200cc. Quem sabe dessa vez vocÊ não passe a gostar do rFactor? Quando sair te aviso. 1 abraço

CLAUDIO ANTONIO disse...

Simplesmente show.Estava lendo as revistas 4 rodas que a abril digitalizou como presente pelos 50 anos da revista e . a minha leitura favorita eram as colunas de Emerson e Stewart e o que mais me surpreendeu é a forma muito respeitosa deles se dirigirem a seus adversários .Cara, seu texto foi muito bem feito , dá a impressão de que voce deixou a emoção falar.Rindt e Peterson se tornaram meus favoritos dos anos 70 por causa do seus estilo de pilotagem tipo traseira nas zebras.Nunca vi Rindt pilotar mas depois de ler sobre seu estilo passou a ser um de meus favoritos

José Maria disse...

Ico, não vou ser repetitivo, todos já disseram TUDO, então fico com um MUITO OBRIGADO por nos dar a chance de nos emocionarmos como você com certeza se emocionou ao visitar tão nobre local!!
E registre-se com louvor, foi o único da imprensa especializada brasileira a prestar homenagem pela ocasião dos 40 anos da morte do grande campeão!
Como já foi pedido acima, alguma chance de postar as fotos para nós?
Ou pelo menos um link para elas?
Mais uma vez, OBRIGADO!
No meu caso, tinha de 10 para 11 anos quando passei a acompanhar a F 1 e Rindt sempre me chamou a atenção, primeiro por ser um nome dificil de ser pronunciado por um menino brasileiro, depois e lógico pelo estilo de pilotagem e disputas com os grandes da época, como Stewart, Ickx, Brabham!
Abraços e até. . .

fernando disse...

Parabéns Ico

esse post está excepcional, é muito emocionante saber a carreira dele como você mostrou. O texto se lê com gosto. Muito bom.

Se me permite, quero sugerir a todos ler, após esse, o post do Mestre Joca sobre o tema, com o relato do Carlo Gancia, que estava lá e vivenciou a tragédia. Serve de complemento, e também muito emocionante, a este post.
abs

Billy disse...

Inacreditável, excelente, fantástico. Parabéns pelo texto. A Áustria ainda chora pela morte de seu ídolo, mas sem histeria na busca por culpados. E 5 de setembro é foda: Jochen Rindt morreu em 70, Wayne Rainey fica paraplégico em 93 e, agora, Shoya Tomizawa morre em 2010. Fora von Trips, que morreu no dia 10 junto com outras 12 ou 13 pessoas. Todos na Itália. E fora outros, como Senna, Ratzenberger, Ronnie Peterson, Renzo Pasolini, Jarno Saarinen. Mas é do jogo.

Anônimo disse...

Obrigado pelas homenagens!
Estou muito emocionado...
Estou sim muito feliz por não terem se esquecido de mim e minhas realizações, mesmo 40 anos depois.
Estou hoje, muito bem.
Fiquem em PAZ.

Jochen Rindt

Hugo Becker disse...

Espetacular, Ico.