quinta-feira, 11 de novembro de 2010

MORA NA FILOSOFIA

Mark Webber e Sebastian Vettel estão muito próximos. Basta colocar os dados de telemetria de um sobre os do outro. Nesta curva um leva vantagem, o outro está mais veloz em outra mas, no final de uma volta rápida, escassos centésimos de segundo estão os separando. Uma nuance de tempo e espaço.

Mas os dois pilotos da Red Bull não são amigos - em que pese a foto produzida após o acidente entre ambos no GP da Turquia, quando um olha o outro sorridente, com os braços abertos e a palma da mão virada para cima, como quem aceita que contratempos acontecem. A verdade é que o paradoxo de um esporte que é, ao mesmo tempo, individual e de equipe os torna inimigos mortais. Melhor perder o título para qualquer um que não seja o seu companheiro.

Para o bem desse mesmo esporte, o time permitiu que seus pilotos lutassem entre si o tempo todo. O problema é que a corrida deste final de semana em Abu Dhabi pode ser a arena em que dois touros caiam mortos depois de um duelo de chifres, com um toureiro espanhol surgindo triunfante, sem precisar arrastar sua capa vermelha no chão cheio de areia.

Christian Horner, o chefe da Red Bull, já disse que deixará nas mãos de Vettel a decisão de eventualmente ceder a posição para Webber ser campeão, caso uma boa colocação de Alonso no desenrolar da prova elimine suas chances. Pode parecer ousado, mas Horner sabe que o alemão sabe da importância do título de pilotos para a marca. No final, talvez mesmo na última volta, os dois touros podem se unir para exterminar as chances de Fernando Alonso.

Na Ferrari, o mundo animal é outro. Como numa matilha de cães, Alonso chegou e clamou para si o direito de liderá-la. A Felipe Massa, vencido numa briga travada nas pistas e nos bastidores, restou o direito de aceitar a ordem das coisas, ainda que saísse rosnando da luta que definiu isso, no GP da Alemanha.

Mais que um título, o que estará em jogo em Abu Dhabi é uma filosofia: a do time que trabalha em torno de um cachorro-alfa contra aquele que deixa a briga comer solta. De um lado ou de outro, não há espaço para amizades.

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Alonso deixou Interlagos bradando estar “100% confiante” no título. Não convenceu a alguns preocupados jornalistas espanhóis que anteviam um possível jogo de equipe. O piloto os confortou. “Eles não fizeram dobradinha em provas seguidas nenhuma vez neste ano. Não será agora”.

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Já na Red Bull, Webber não escondeu que não entende, mas aceita, a filosofia da equipe em deixar Vettel vivo na briga ao invés de colocar todas as fichas nele. Talvez, a chance de perder o título o preocupe tanto quanto a possibilidade de ganhá-lo no final de mão beijada. Para sua imagem, ficaria mais feio do que uma inversão de posições feita antes.

(Coluna publicada na edição de quinta-feira do Diário Lance! Foto: montagem da Internet sobre original da Red Bull)

7 comentários:

lauro disse...

A analogia da tourada foi perfeita.

Eduardo Malheiros disse...

Também gostei das analogias. Perdoe minha estupidez mas a foto foi modificada de propósito ao sabor do final do post, no melhor estilo: no final é mesmo, Webber contra Webber, ou foi mesmo um erro de busca no Google que veio bem à calhar? Rs

Abraços!

Eduardo Malheiros disse...

Respondido pelo nome da imagem. A hipótese da estupidez mostrou-se verdadeira...

Guilherme disse...

Gostei bastante dessa analogia do toureiro. Confesso que não tinha pescado essa no ar ainda. Pode virar uma boa charge no final do campeonato!

Pois é, esse final de temporada está quente. Se nada correr fora do esperado, Vettel deve pular na frente e, "deixando" Webber passar no fim, sairá com muito mais moral do que se tivesse virado escudeiro desde antes. Talvez queira mostrar que não se submete ao posto de segundo piloto, além de passar certa imagem de generoso e altruísta. Mesmo asim, não acho que desmereceria uma provável conquista do Webber.

Apesar de todos muitos apostarem no Alonso, considero ele o azarão. Hamilto, somente com algum cataclisma.

Abraços!

Érico disse...

Webber é hipócrita e incompetente. Primeiro porque reclamou de favoritismo o ano todo e agora falta ajoelhar e implorar por ajuda. Segundo porque tem comido poeira do Vettel desde Monza e foi incapaz de fechar a fatura por conta própria, apesar de ter o carro mais rápido e perfeitamente confiável desde que reassumiu a liderança na Itália. Será muito ruim ver gente como Rosberg, Sheckter e Rindt de repente terem a companhia dum Weber.

Diogo disse...

Muito boa essa analogia... n tinha como ter alguma coisa melhor para comparar... como sempre excelente texto

Parabens Ico

Abraços

Barata disse...

Ico, imagine a possibilidade. Alonso em terceiro e muito distante do segundo, com os dois Red Bulls na dobradinha faltando 15 voltas pra corrida acabar. Eu, se fosse ele, perderia duas posições para deixar a mosca azul picar os dois pilotos da Red Bull, porque nesse caso seria campeão quem vencesse a corrida. E aí, não é difícil imaginar um choque entre os dois touros e um título caindo no colo do espanhol. Seria um belo desincentivo ao jogo de equipe por parte do espanhol, não?

Abraços