sábado, 6 de novembro de 2010

O SUPER-HOMEM

O apelido óbvio é o de “Incrível Hulk”, mas o que Interlagos testemunhou hoje foi o dia em que Clark Kent rasgou seu terno e revelou a fantasia do Super-Homem. A discussão se ele estava ou não com acerto para a pista molhada (o engenheiro dele jura que não) é inócua para explicar uma vantagem de mais de um segundo para uma Red Bull de um especialista em chuva como Sebastian Vettel.

A verdade é que Nico Hulkenberg fez as voltas mais alucinantes e perfeitas da sua vida. Entrou numa espécie de “Rush”, aquele estado que parece um transe em que você consegue atingir níveis inimagináveis de performance. Comparando as voltas e não os pilotos, foi o mesmo que Ayrton Senna sentiu no treino de Mônaco-88.

Nas condições de asfalto secando, era claro que a última das voltas cronometradas seria a melhor de cada piloto. Todos foram aos boxes a cinco minutos do final do Q3 para colocar um jogo novo de pneus slicks. A chave era aquecê-los rapidamente, algo que o piloto da Williams fez com maestria: três voltas seguidas, com a agressividade na dose certa e sem jamais sair um milímetro do trilho desenhado no asfalto paulistano. Um monólogo shakespeariano declamado sem tropeçar numa vírgula.

Na área reservada às mídias eletrônicas, perguntei a Hulkenberg sobre a metáfora do homem de aço. “Não, não me sinto como o Super-Homem”, riu. “Só me sinto muito bem. É um sonho, conseguimos alto fantástico. É só uma pena que não se ganha pontos pela pole position. Mesmo assim, temos o direito de festejar e saborear o resultado de hoje”, respondeu com olhar sorridente e cara de quem não estava com a ficha caída.

Aos favoritos azuis, restou capitular e reconhecer o inacreditável. Vettel: “Perder a pole por um segundo nunca é legal. Mas estou muito feliz por Nico. Nos conhecemos há muito tempo, tivemos disputas no kart e agora na F-1. Mesmo assim, me mantenho animado com minhas chances amanhã. A corrida é longa”.

A expectativa aponta um primeiro lugar de Hulkenberg se evaporando rapidamente com o clima seco que se anuncia para a prova. Só Mark Webber aponta que, se depender mais da motivação do que do carro, o alemão de Emmerich vai ser um fator na corrida dos candidatos ao título. “Ele vai abaixar a cabeça e pisar fundo com certeza. Está numa ótima posição para conseguir um bom resultado para sua equipe, mas terá muito trabalho pela frente”, avaliou.

Numa temporada de contornos épicos, a Fórmula 1 ganha um super-herói improvável nas páginas finais da saga. E é isso que a torna tão fascinante.

(Foto Williams)

9 comentários:

Ron Groo disse...

Tá bom... Foi meio que circunstancial, eu aceito. Mas ver uma Williams na posição de honra para largar é maravilhoso. Achei que nunca mais veria tal feito.

Vou passar a noite ouvindo os Black Crowes tocando She talk to angels e lembrando da volta do Hulke...

Ah sim, me parece que depois da classificação a Williams deu uma tuitada dizendo que ele fez isto com carro acertado para seco. Confere?

Herik disse...

Que sina é esta a do Barrichello? Ver o companheiro fazer a pole em Interlagos, sua casa, com um carro mediano e depois de conduzir a melhora da Wilians durante todo o ano deve ser de lascar.

Situação muito semelhante ao Gp da Europa de 1999, quando Hebert ganhou a corrida com uma Stewart, mesmo levando entubada do brasileiro durante toda a temporada.

Parece que tem sempre alguém para colher os frutos de seu trabalho.

Spec-Velox disse...

Circunstancial? Tá, mas as "circunstâncias estavam lá para todos. E de todos, Nico foi o mais competente, o mais brilhante, o mais destemido. Aplausos efusivos para o garoto.

Luiz disse...

Realmente, chega a me assustar essa sina do Barrichello de ser o melhor piloto da equipe, mas perder o grande momento para o companheiro. Aconteceu com o Herbert, com o Button e agora com o Hulk.
Por mais dinheiro que ganhe, a vida é muito cruel com ele em alguns momentos-chave. Um 3º lugar do Hulk no grid de Abu Dhabi já seria uma derrota pessoal. Mas, não: precisava ser a pole, precisava ser com 1.8 de vantagem para o 2º colocado, precisava ser em Interlagos.
Rubens Barrichello na F1 é o Tântalo da mitologia grega.
(e curiosamente, minha palavra de verificação é justamente MITIC)

Kico disse...

Parabéns ao Hulk. E a disputa entre os 3 está fantástica (Vettel, Webber & Alonso) pq querem muito este título. Por uma questão de 3 corpos não poderem ocupar o mesmo espaço, só sai 1 campeão. Tá imprevisível. Agora, melhor o Vettel ficar à frente do Webber, pq se precisar ultrapassá-lo, o australiano não vai deixar nem a pau, Juvenal. E, acho q o Hamilton tb, mesmo fora, dará espetáculo.
Abs

Welton Martins disse...

Por favor, leiam a materia da Autosport "Hulk pole not down to setup" e entendam os fatos, com critérios técnicos, antes de botarem explicações mitológicas (!) para o ocorrido. Aproveitem, passem na livraria e comprem o livro "Outliers - fora de série". É excelente e se encaixa bem no assunto

Celso AM disse...

Ico, sem querer ser pessimista ou estraga prazeres mas, pelo histórico de largadas (ruins) da Williams, acho que o 'super homem' do dia perde pelo menos 3 posições nas primeiras curvas...

pelo menos teve seu dia de exposição (para Deus e o mundo) e complicou um pouco a vida do venezuelano aspirante à vaga da equipe...

Torço pelos azuis e por uma boa recuperação de Kobayashi...

No mais, boa transmissão!

Abraço!

Marcos Antônio disse...

digo que foi um dias mais felizes que já tive na F1. Eu como torcedor da Williams, estou ligado até agora imaginado a gama de possiblidades que pode acontecer aamnhã. Mas mesmo que o GHulk bata na primeira curva, já estou feliz, a Williams pelo menos hj, mostrou que ainda pode ser grande. Depois volteraemos a realidade, mas hj só resta comemorar ess grande feito!

GO HULK GO!

Luiz disse...

Passe na livraria e compre um livro de interpretação de texto para iniciantes, Sr. Welton (!).
Não dei "explicações mitológicas" para a pole do Hülkenberg. A citação ao mito de Tântalo foi apenas uma metáfora sobre um tipo de situação que, constantemente, se apresenta na carreira do Barrichello.