segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

MODELO ULTRAPASSADO


Se você virar o presidente das Ilhas Vanuatu e quiser organizar uma corrida de Fórmula 1 para mostrar as belezas do seu país e colocá-lo no mapa mundial, é simples: procure o senhor Bernie Ecclestone. Ele vai ouví-lo com atenção e recomendar que, em primeiro lugar, você construa uma pista de corrida no padrão máximo atingido pela FIA. E vai deixar claro que sua única chance de ser aceito no fechado clube que ele promove é se esta pista for planejada e executada por um escritório de arquitetura na cidade alemã de Aachen, onde trabalha o senhor Herrmann Tilke.

A brincadeira vai sair, pechinchando o preço e não querendo fazer nada muito exótico, 500 milhões de Euros. Mas tudo bem, você quer mostrar ao mundo o que é que Vanuatu tem e abre os cofres do governo. Feito isso, você procura Ecclestone, que vai lhe propor um contrato de cinco anos. No primeiro você deve pagar, vá lá, uns 30 milhões. Mas há sempre uma cláusula prevendo um aumento de 15% a cada ano, sendo que no final do contrato você terá de desembolsar mais de 50 milhões.

Isso só pelo direito de fazer a corrida. Os custos para organizá-la, claro, são seus. Teimoso, você fecha o acordo e aparece todo sorridente no grid na prova de estréia. As grandes estrelas do esporte estão lá, o público até que compareceu, curioso com a novidade. Foi um prejuízo enorme, mas valeu a pena, você vai pensar.

No segundo ano, porém, as arquibancadas estão às moscas. O preço dos ingressos, sua única maneira de recuperar um pouco do dinheiro gasto, são irreais para a população local. E o fator da novidade desapareceu. No final do dia, você pega a calculadora e percebe que o país vai quebrar. Desesperado, liga para o chefão para negociar o cancelamento das provas seguintes. Ele vai te lembrar da assombrosa multa que você vai pagar se desrespeitar o contrato. Sem alternativas, você manda toda a população de barco para Papua-Nova Guiné e implode seu país, declarando falência da Nação e riscando-a do mapa.

A fábula acima é um exemplo extremo da realidade que vem assombrando muitos GPs de Fórmula 1. Nesta segunda-feira, um político do estado australiano de Victoria solicitou que Melbourne deixe de sediar sua prova num futuro próximo. E o governador da Catalunha deixou claro que não dá para garantir a realização do GP da Espanha além de 2012. Ambos citam o enorme prejuízo como motivo principal.

São declarações de extrema relevância, já que se tratam de duas corridas que sempre atraem um bom público. Todos sabem que organizar uma prova é perder dinheiro, mas há um ganho embutido no impacto econômico que um evento destes traz para sua cidade e também na imagem que ela ganha perante o cenário internacional.

Se ainda assim não está valendo a pena organizar um GP, está mais do que claro que chegou a hora de Bernie Ecclestone rever o seu modelo, que se tornou absolutamente incompatível com a realidade econômica mundial. Enquanto as equipes fazem um trabalho em conjunto com a FIA para buscar diminuir os custos delas, adaptando-se a um novo cenário surgido depois da crise do final de 2008, Ecclestone continua querendo impor seu mundinho particular. Os países mais tradicionais em termos de F-1 estão jogando a toalha. E o povo dos novos “exóticos” estão percebendo que seus governantes estão jogando uma fortuna pelo ralo, vide as recentes declarações de demonstrantes sobre a corrida do Bahrein.

Se continuar assim, voltaremos num piscar de olhos a ter apenas 16 corridas no calendário. Ou dez. Ou cinco.

16 comentários:

Dudu disse...

Ico,

sempre ouvi dizer que o GP do Brasil dá lucro para a cidade de São Paulo. Essa informação é verdadeira?

Você tem alguma informação a respeito dos valores da prova por aqui?

Marcus disse...

E naturalmente iremos voltar a ter circuitos tradicionais, como o da Cidade do Mexico, Algarve, entre outros, aonde certamente o sr Bernnie, ira mendingar pra ter corridas, e quiça pagar pra se apresentar nesses lugares (sonho meu, claro). Até la vms nos contentando com essas corridinhas mediocres que estamos acompanhando ha anos.

Dé Palmeira disse...

Ico

É no mínimo um contra senso exigir das equipes um um esforço em cortar gastos quando o custo de organizar um GP é inviável pra maioria dos países.

Mas a própria F1 como atividade esportiva já é um modelo ultrapassado.

O que se queima de combustível só pra transportar o "circo" ao redor do mundo é absurdo.

Isso sem contar o que se gasta de combustível num fim de semana, além é claro, da poluição sonora.

Se contarmos isso com a total inviabilidade econômica de um GP, não me surpreenderá se daqui a pouco começarem uma campanha contra a F1 no mesmo molde em que fazem contra a indústria tabagista.

A F1 precisa se adaptar ou será extinta.

luiz carlos disse...

Assino embaixo. Não sei como certos lugares se submetem aos contratos e exigências de Bernie.

Arthur disse...

Ico,admiro a sua força para não dar uns socos nesse anão brocha quando vocês se encontram nos GPs.

Como vascaíno,digo:Ecclestone está para F1,assim como o Eurico Miranda estava para o Vasco.

Dois cânceres.

coldeturini disse...

Ótimo texto, Ico. Sensacional mesmo.

O engraçado da Fórmula 1 é isso. Todos os envolvidos reclamam de altos custos e baixo retorno -menos um dos lados do tripé. Mas todos seguem lá, firmes.

Será que um dia as equipes/organizadores se aperceberão de que os gritos de liberdade no (ARGH!) 'mundo árabe' podem ser um sussurro de como a vida pode ser melhor sem o atravessador?

Sobre o GP do Brasil dar lucro... Até dá. Mas é aquela coisa. Investimento estatal, lucro privado. Se vale a pena... Daí não sei. Mas que seria um baque politico negativo para um prefeito a perda da F1, seria.

Abraços!
Kohara

Anselmo Coyote disse...

Ico,

Muitos eram os motivos para esse GP não acontecer. A começar pela sua existência, em si próprio.

De minha parte eu achei bom por:

1. É um absurdo fazer espetáculo para ladrões e assassinos sanguinários.

2. A segurança da já sofrida e estropiada população estava ameaçada. Sabe Deus (ou Alá) o que seria feito com os nativos que aproveitassem o evento para mostrar sua indignação ao mundo.

3. Corrida péssima.

Abs.

Marcos Antônio disse...

o único lado que não reclama de lucrso é o Bernie que sempre achou gente que pagasse seus exorbitantes preços. Se futuramente não achará mais, ele que trate de se reinvetar se isso ainda for possível pra ele.

Leandro Martinuci disse...

Muito bom texto Ico, porém, não esquecemos que o Bernie é mestre em reinventar seus argumentos e sua capacidade de articulação é espantosa. Não ficarei surpreso caso ele consiga novos contratos e/ou 'clientes' querendo vender seu país.

Eu particularmente adoraria que não houvesse este monte de corridas na ásia e OM, já que a maioria das pistas são um saco. Sou extremamente a favor da volta de corridas em pistas clássicas.

Barata disse...

O problema é que para cada louco que desiste outros loucos aparecem (Corrida no Texas? Na Rússia?). Infelizmente, acho que o baixinho ainda tem muitos trouxas em quem passar a perna antes de precisar mudar o seu modelo de negócios. Infelizmente mesmo.

Herik disse...

Gostaria de saber se a caixa preta dos gastos do Gp Brasil um dia será aberta. Países bem mais ricos chiam a um bom tempo sobre os custos da F1 e a turma de São Paulo não fala nada. Seria uma teta das boas?

Flavio disse...

O Bernie se esquece que um dia irá morrer, assim como todos nós, e não levará nada consigo, a não ser, sua ganância ilimitada...

Alex disse...

Deveriam pegar esses 50 milhões de Euros e distribuir para os protestantes xiitas do Bahrein. A visibilidade que eles estão conseguindo para o país é muito maior que todos esses anos de F1.

E respondendo ao amigo lá em cima, acredito que o GP do Brasil não dê lucros diretos à cidade. Os lucros que a cidade recebe vêm da rede hoteleira, restaurantes, o comércio em geral, que tem uma alta de movimentação durante a semana da corrida.

Eduardo Casola Filho disse...

Passou da hora do Bernie parar. Ponto!

Anônimo disse...

Esse cara ainda é o principal mofo a ser removido deste esporte!
Marco, JFora/MG

fernando disse...

não acredito no retorno da F1 ao Bahrein. duvido que a rivalidade entre as duas facções religiosas se resolva ou se acomode num sistema democrático. creio que apenas abu dhabi permaneça, de tão elitista e colonizado que é o ambiente.

como também não acredito no sucesso do futuro GP da Rússia, me parece impraticável garantir segurança para o evento.

quem sabe após a morte do referido chefão as coisas mudem, as corridas diminuam de quantidade e a F1 se renove.