sexta-feira, 24 de agosto de 2007

MINIATURAS - SHADOW DN1

Ah, essas miniaturas da Corgi Toys dos anos 70 são lindas de morrer! Este Shadow DN1, na escala 1:35 (clique para ampliar), pertence ao Fernando Amaral, e é da mesma coleção da Lotus 72 que eu publiquei neste post. Pilotado por Jackie Oliver, o melhor resultado do modelo foi o 3° lugar no GP do Canadá, uma das corridas mais confusas da história. Na verdade, ele quase ganhou. Ou não?

Confira a história desta prova em uma coluna minha, publicada no GP Total em junho de 2003.

se passaram 30 anos, mas nãoninguém na face da terra que saiba apontar com absoluta certeza quem foi o vencedor do Grande Prêmio do Canadá de 1973. Os livros oficiais registram como sendo o norte-americano Peter Revson, mas perguntem a Emerson Fittipaldi o que ele acha. A corrida que marcou a estréia do Safety Car na Fórmula 1 é séria candidata ao título de mais caótica na história da categoria. Os ingredientes são os habituais de provas assim, como Nürburgring-99 ou Interlagos-2003: chuva depois seco, acidentes, Safety Car. Mas um tempero prá de picante foi adicionado na receita: a cronometragem na época era manual, com oficiais e cada equipe tendo sua própria planilha de voltas, que volta e meia não batiam umas com as outras. Na pista de Mosport então, naquele 23 de setembro, ninguém se entendia.

Chuva e neblina adiaram a largada em uma hora. Quando a prova começou, o asfalto permanecia encharcado apesar de não chover mais. Niki Lauda aproveitou o excelente desempenho dos pneus de chuva da Firestone para pular da quarta fila no grid à liderança em quatro voltas. Na 15ª passagem, sua vantagem para o segundo colocado era de 23 segundos. A primeira vitória do austríaco na F1 parecia garantida. Mas a pista começou a secar.

Lauda começou a perder terreno e parou nos boxes para colocar pneus intermediários. A liderança passou então para Jackie Stewart e, depois, para Jean-Pierre Beltoise. Na volta 24 praticamente todo mundo resolveu fazer sua parada ao mesmo tempo e o pessoal da planilha foi à loucura.

Para complicar o quadro ainda mais, houve o acidente entre Jody Scheckter e François Cevert na 33ª volta. Culpa de Jody, como esperado, tanto que Cevert saiu correndo dos destroços de seu Tyrrell para reclamar com o sul-africano. Foi necessária a intervenção dos fiscais de pista para que não houvesse cenas de pugilato. Como havia muitos pedaços de carro na pista, a direção de prova optou pela intervenção do Safety Car.

Vamos fazer uma pausa aqui para relembrar acontecimentos anteriores. O início dos anos 70 foi farto em acidentes fatais e naquele ano haviam acontecido dois terríveis. Em Kyalami, Mike Hailwood havia retirado Clay Regazzoni da bola de fogo que o carro do suíço se transformou após um acidente. Sua coragem lhe valeu inclusive uma medalha de bravura dada pela própria Rainha Elizabeth. Pouco tempo depois, em Zandvoort, David Purley não teve o mesmo sucesso ao tentar salvar a vida de Roger Williamson, em cenas que chocaram a opinião pública. Os dirigentes resolveram reagir e adotaram o Safety Car, que era uma tradição em provas norte-americanas. Na Áustria foi feito um teste durante os treinos livres, com sucesso. No Canadá, a história foi diferente.

Em Mosport, o Safety Car era ocupado pelo piloto local Eppie Witzes e pelo representante da direção de prova, Peter Macintosh. Este ficou de olho na passagem de Jackie Stewart para entrar na frente do escocês, o líder da prova. Mas o piloto da Tyrrell entrou para mais um pit-stop, caindo na classificação da prova. Sem perceber o que acontecia, Macintosh sinalizou para que diversos pilotos passassem o Safety Car, entre eles Revson, Beltoise e Jackie Oliver. Quando perguntou à torre na frente de quem o SC deveria entrar, a resposta foi: “do número 25”.

Macintosh não acreditou e repetiu a pergunta duas vezes, obtendo a mesma resposta. Quando passou o número 25, o Safety Car finalmente entrou na pista. O piloto em questão era o neo-zelandês Howden Ganley, que ficou surpreso e assustado ao ver aquele Porsche 914 amarelo à sua frente. “Sou eu mesmo o líder?”, sinalizava pros boxes.

Não era, mas resolveu aproveitar a chance do erro dos organizadores para acelerar quando o Safety Car voltou aos boxes, cinco voltas depois. Com o modesto Iso-Ford da pequenina equipe de Frank Williams, Ganley se manteve na ponta por três voltas antes de ser ultrapassado por Emerson e, depois, por Stewart. “Nunca guiei tão depressa e com tanta vontade como nestas três voltas. Bufei tanto que quase fiquei sem respirar”, contou o neo-zelandês depois da prova.

Emerson liderava, mas começou a circular nos boxes a versão de que o verdadeiro líder era Jackie... Oliver? O inglês da Shadow seguia pouco atrás do brasileiro na processão formada logo após a saída do Safety Car, o que significava que Emerson tinha de descontar praticamente uma volta de desvantagem.

Ainda faltavam 40 voltas, metade da corrida, e o Lotus 72 era o carro mais estável daquela tarde. Juntando isto com o talento de Emerson, a recuperação não era apenas possível, mas provável. Na fase final da corrida, Oliver começou a se debater com problemas de acelerador e o brasileiro começou a descontar diversos segundo por volta, alcançando o rival e o ultrapassando na última volta.

Após quase duas horas de caos e confusão, Emerson Fittipaldi cruzou a linha de chegada com Oliver colado na sua traseira. O chefão da Lotus, Colin Chapman, estava na beira da pista para jogar seu boné para o altosua marca registrada a cada vitória da equipe. Mas o boné de Chapman caiu no chão e o oficial ainda não havia mostrado a bandeira quadriculada.

Instantes depois, um grupo de quatro carros passa embolado na reta e a bandeira é agitada para um deles – Revson! A confusão é geral, mas depois de cinco horas vendo e relendo uma montanha de planilhas de tempos e voltas, o resultado é confirmado: Revson venceu, com Emerson em segundo e Jackie Oliver em terceiro.

O curioso é que, na largada, o norte-americano teve problemas e caiu para último lugar. Mas a sorte estava a seu lado. No momento de intervenção do Safety Car, Revson foi um dos pilotos que teve a passagem permitida pelo fiscal Peter Macintosh – e descontou naquele momento a volta que tinha perdido para os líderes. Depois, com os problemas de acelerador de Oliver, acabou ultrapassando o inglês quase que desapercebidamente, quando este fez uma espécie de “drive-through” pelo pit lane tentando resolver o problema. Por isso, Revson venceu. Ou não?"

3 comentários:

Anônimo disse...

Que historia !
Olha Ico,acho que atualmente as regras estão dando uma sopa danada para novas confusões .
Mas essa de 73 foi incrivel.

Jonny'O

Saco de Gatos disse...

Essa corrida é histórica!
Lembro que quando folheei uma Auto Esporte na Bibilioteca Nacional há tempos e vi o Iso-Marlboro atrás do Safety Car, eu não acreditei... mas o mais frustrante é um piloto subir no pódio, a bandeira ser içada e depois a organização o manda descer. Foi isso que aconteceu ao Emerson, que já tinha perdido o campeonato para o Stewart no GP anterior em Monza graças ao Chapman.

L-A. Pandini disse...

Eu não lembrava dessa tua coluna. Se lembrasse, certamente a teria consultado antes de escrever sobre "o primeiro GP com safety car". (LAP)