terça-feira, 11 de setembro de 2007

O MUNDO É UM MOINHO

Existe maior confissão de culpa por parte de Ron Dennis do que esta campanha que a McLaren está fazendo contra Renault e Ferrari? A primeira, e óbvia, leitura é a de um homem que seu império prestes a ruir e, na hora da queda, pretende levar consigo o maior número possível de vítimas. Masmuito mais por trás disso.

A indigesta pizza servida em Paris no dia 26 de julho causou uma enorme dor-de-barriga na Ferrari. Antes dela, a equipe entrou em crise – e ainda se encontra nela – ao constatar sua própria incompetência em controlar os atos do insatisfeito Nigel Stepney e a vazão de informações confidenciais para seu maior adversário no campeonato. E sabe também queoutros insatisfeitos em seu quadro que colaboraram com isso.

O problema não é novo. Como bem lembrou o leitor Marcos Smirkoff, a Ferrari tem em seu histórico recente o desvio de informações suas para a Toyota, ocorrido em 2003 e que resultou em uma ação na justiça. Vale lembrar que a Ferrari levou os dois títulos daquele ano e que a Toyota era – e ainda é – mera figurante. Mas a situação agora é diferente.

Depois que o escândalo estourou e a polícia italiana entrou em ação, a Ferrari certamente soube do conteúdo do material enviado a Mike Coughlan. E, provavelmente com razão, teve a certeza de que a McLaren se aproveitou dele para tirar vantagem no campeonato. Não se trata de copiar uma peça ou algo do gênero. Mas saber coisas como as características do carro adversário, a gama de estratégias de corrida que ele permite, a maneira com que o F2007 é regulado para otimizar o uso dos pneus, tudo isto permitiria à McLaren otimizar o desenvolvimento do seu próprio modelo de maneira a minar os pontos fortes – e explorar os fracos – do adversário.

Todas estas tecnicidades são muito sutis e difíceis de serem provadas. E foi esta a linha que a McLaren tomou desde o início. Em 5 de julho, o dia seguinte ao que o escândalo veio a público, o primeiro argumento usado por Dennis foi “não tem nada deles no nosso carro. Tenho certeza de que a FIA irá comprovar isto agora ou no futuro, e este é o ponto principal”.

Esperto, ele estava falando uma verdade e, ao mesmo tempo, desviando o foco de atenção do ponto principal. Sim, não houve cópia, mas tudo indica que eles tiraram vantagem do mesmo jeito, como explicado acima. Em Monza, em conversas com pessoas de diversas equipes, ouvi de muitos a afirmação categórica de que é possível tirar vantagens sabendo os segredos do equipamento adversário, mesmo sem copiar um parafuso dele. É exatamente isto que a Ferrari está tentando provartempos e não vinha conseguindo.

Pois bem, o resultado do julgamento do fim de julho confirmou a linha de defesa de Ron Dennis. Embora todos suspeitassem do uso das informações para benefício da equipe, não havia como assegurar isto. Por isso, o insólito veredicto do “culpado-inocente”. Não satisfeita, a Ferrari acionou seu pau-mandado Gianni Macaluso, presidente da Federação Italiana de Automobilismo, para pleitear junto a FIA o envio do caso para o Tribunal de Apelação. Com isto, ganharia tempo para ver se encontrava novas evidências.

No dia 30 de julho, Macaluso enviou uma carta simples para Mosley, explicitando que sua federação e a Ferrari estavam insatisfeitos com o veredicto, pois acreditavam que vários membros importantes da McLaren sabiam da existência do material e teriam tirado proveito dele. Ponto final. A resposta do presidente da FIA, porém, foi incrivelmente explícita. Ao invés de simplesmente dizer que a FIA aceitaria o pedido e convocaria o Tribunal de Apelação, ele citou, ponto por ponto, todas as inconsistências na defesa da McLaren, mas afirmou que mesmo assim não havia como provar o uso dos dados. E tornou a carta pública.

Provavelmente, Max Mosley também acreditava que a equipe prateada era culpada. E aproveitou para jogar uma isca para Ron Dennis. Ele a mordeu com uma voracidade de um badejo da Etiópia e a ingenuidade de uma criança de pré-escola. Explicitou em diversos parágrafos que Stepney deu a dica para Coughlan sobre o assoalho móvel da Ferrari, e seu projetista avisou à direção da equipe sobre o assunto. Estes entraram com um protesto na FIA contra o time italiano. Sobre o porque não teria dito a Ferrari que fora Stepney quem lhes passara os dados, Dennis justificou: “Nenhuma equipe pode esperar que seus empregados fiquem quietos se eles suspeitam – neste caso, corretamenteque seus empregadores estão quebrando as regras do esporte. E é do interesse da Fórmula 1 que a ‘deduragem’ seja encorajada, e não o contrário. Se membros de uma equipe acham que suas identidades serão reveladas, eles não irão delatar”.

Foi um tiro no . Em primeiro lugar, porque a Ferrari era juridicamente inocente no caso dos assoalhos móveis. Em Melbourne, os comissários realizaram o teste de flexibilidade previsto pela FIA e a peça foi considerada regular. quando a FIA anunciou que iria aumentar a intensidade destes testes, é que a equipe (e a BMW Sauber também) colocou assoalhos novos. A interpretação da regra era imoral (o assoalho era mesmo flexível), mas os testes que a FIA fazia a colocavam dentro do regulamento, se a intensidade fosse muito maior eles seriam pegos: é a popularbrecha” encontrada para tirar vantagens. Sacanagem, sim, mas encontraremos santos no automobilismo, em termos de burlar um regulamento mal escrito, no campeonato de kart do Vaticano. E ele não existe.

Em segundo lugar, porque Dennis confirmou ali, preto no branco, que os diretores da equipe receberam informações sobre o F2007 que foram enviadas por Stepney para Coughlan. Ainda que o argumento da transparência do esporte seja louvável, juridicamente ele assinou uma confissão de culpa – e em público. Teve gente na Itália que leu o documento com um largo sorriso nos lábios.

Para piorar, os novos elementos surgidos na última semana parecem definitivamente confirmar que a McLaren usou em benefício próprio os dados do F2007. Ron Dennis, em desespero, resolveu contra-atacar denunciando irregularidades nos carros da Ferrari (algo a ser ainda oficializado, se for) e também da Renault – um forte indício de que Flavio Briatore deve mesmo estar envolvido no surgimento destas novas provas contra sua equipe.

Curiosamente, o mesmo amor pela transparência no esporte que ele demonstrara para explicar o episódio ocorrido em Melbourne, floresceu agora que sua casa, ou seu motorhome de três andares, caiu. Se é este bastião da esportividade que muitos pregam ("ele preferiria perder um campeonato a trapacear", escreveu um badalado jornalista inglês), porque ele esperou até agora para denunciar as falcatruas de seus adversários? Não vejo outra explicação que não o fato dele também ter culpa no cartório.

Certamente, os tiros que ele está dando servirão, no máximo, para ferir seus alvos. É possível e até provável que os carros de Ferrari e Renault, possivelmente o de todas as equipes do grid, possuam peças que interpretam de forma imoral o regulamento, ou mesmo que não o cumpram. Mas a situação é bem diferente do que possuir um dossiê completo do seu principal adversário pelo título – e sabe-se mais o que.

Todo este tiroteio que mina ainda mais a credibilidade da Fórmula 1 parece mesmo um ato desesperado de um homem que se acuado. De um lado, uma frente de gente poderosa e fortemente armada, disposta a atirar e a ver sangue. Do outro, um imenso abismo. Abismo que ele cavou com seus próprios pés.

6 comentários:

Herik disse...

... e no final das contas, Spyker campeã!
Mas toda esta história é lamentável e gera um anti-climax em relação à categoria. Pode ser ótimo para encher páginas de jornais, mas enche mesmo é o nosso saco.
Penso que a maior responsável por toda essa confusão em que a F1 mergulhou é a FIA, com seus regulamentos confusos e cheios de detalhes. Isso é o sonho para um advogado competente. São tantas voltas no regulamento, tanta picuínha atrás de cada vírgula, que são possíveis centenas de interpretações. Todas corretas e erradas ao mesmo tempo, variando conforme o gosto do freguês que pagar mais.

Caíque. disse...

Ico, Seu texto só reforça o que penso. McLaren OUT, junto com Alonso e sua Soberba e Hamilton com sua Falsidade Bucaneira.

Valeu!!

Anônimo disse...

Como eu queria que isso tudo fosse um pesadelo!!!!

Pena que não é.

Essa denuncia me lembra da Frase de Ross Brawn sobre as asas flexiveis da Ferrari.

"Se nosso carro é ilegal, todos são"

A falta de transparencia dá nisso.E não tenho esperanças que todas as nuances do desse julgamento sejam expostas.

Tomara que todos saiam de Paris minimamente satisfeito e enterrem esse caso de uma vez por todas!!!

Anônimo disse...

preparem um ossário pois o que deve aparecer de esqueleto nessa reunião não vai ser moleza !

abs

Filipe W

Fleetmaster disse...

Belo texto! REsta saber oque vai sobrar depois da reunião : Mortos e Feridos ou Pizza !

Berto disse...

Bom texto, porém continuo a achar estranho o porquê de não se ter verificado esta caça as bruxas no caso da Toyota, é certo que eles não lutavam contra a Ferrari, mas é o mesmo crime (se confirmar no caso da Mclaren) penso que a punição deveria ser a mesma.

Mas é triste que vamos ter dois campeões, os reais na estrada e os falsos na secretaria.