segunda-feira, 15 de junho de 2009

OS ENGENHEIROS DOS BRASILEIROS: JOCK CLEAR

Quem tromba com Jock Clear no frenesi de um grid momentos antes da largada, acha que encontrou um personagem do filme “Guerra nas Estrelas”. O macacão negro contrasta com a cabeça completamente branca, os pêlos da lateral cuidadosamente raspados para acompanhar uma reluzente careca. A expressão facial é completamente séria, como a de um marechal prestes a entrar em uma batalha. Numa conversa particular, ele faz jus ao sobrenome: é direto e claro nas respostas, como ao descrever o trabalho de um engenheiro de corrida. “Eu sou o cara que fala com o piloto durante a prova. Trabalho com ele em cima do carro, decidindo sobre o acerto e também sobre a estratégia para a corrida e todos os aspectos usuais num final de semana de competição. Durante a semana, sou o principal ponto de contato do resto da fábrica com o carro de Rubens, responsável por passar as informações do que está funcionando e do que tem de ser melhorado, para que os técnicos da fábrica possam trabalhar no seu desenvolvimento a cada semana”.

O inglês de 46 anos é o segundo convidado da nossa conversa com os engenheiros dos pilotos brasileiros. Muitos dos aspectos do seu trabalho com Rubens Barrichello foram explorados nesse post do início de maio, quando comentei sobre a disputa entre o brasileiro e Jenson Button. Para complementar o assunto, uma fala interessante de Clear, ao comparar Rubinho com Jacques Villeneuve, piloto com o qual o engenheiro se sagrou campeão do mundo em 1997. “Acho que seus leitores vão se surpreender com isso, mas eles são tão parecidos como pilotos que chega a ser inacreditável. Ambos são muito bons no feedback técnico. Jacques também podia sentir rapidamente o que estava acontecendo com o carro e ambos são excepcionais para falar sobre o acerto do motor. É um aspecto muito específico do trabalho do piloto e que nem todos conseguem. Mas os dois sabem dizer com exatidão aos engenheiros onde estão os buracos no mapeamento do motor. E o estilo de pilotagem é muito parecido, Jacques também era muito sensível quanto aos freios. Fora da pista, claro, são muito diferentes, cada um tem sua personalidade. Mas sou muito próximo de Jacques, nos vemos muito até hoje. E acho que permanecerei amigo de Rubens no futuro também”, afirma.

Curiosamente, os carros da Brawn sofreram com o mapeamento do motor do último GP da Turquia. Tanto Barrichello como Jenson Button reclamaram que a sétima marcha entrava no limitador por vários segundos na reta oposta. Neste caso, um claro erro da engenharia do time, que desconsiderou a possível ação do vento na hora de definir a relação de marchas. Um tipo de erro que Clear detesta fazer. “Como em toda relação, há momentos difíceis na minha com Rubens. Por exemplo, na classificação do Bahrein, eu o mandei para a pista na hora errada e isso é o tipo de coisa que me deixa chateado por decepcioná-lo. E, em outras ocasiões, ele comete um erro e sabe que não fez a sua parte. Mas ao longo desses mais de três anos, encontramos um bom ponto de equilíbrio e estamos curtindo o trabalho nesse ano com um carro que nos permite andar na frente”.

E como. Apesar do duo Barrichello/Clear ainda não ter conseguido uma vitória, em meio a erros e azares, o BGP001 tem se mostrado um carro praticamente imbatível. O engenheiro admite que a junção do novo equipamento com a proibição de testes formaram o cenário ideal para esse domínio. “As equipes estão projetando e desenvolvendo seus carros agora através de softwares, num mundo virtual. Nós não colocamos muita ênfase nos acertos do ano passado, até porque nosso carro era um ‘balde de merda’, como se diz no jargão da Fórmula 1. É melhor assim. O que faz nosso modelo atual ser tão bom é o trabalho feito pelos projetistas nos supercomputadores e no túnel de vento. É nesse tipo de informação que buscamos nosso acerto e temos conseguido fazer isso com nossas ferramentas de simulação na fábrica”, analisa o inglês.

A única equipe que conseguiu até agora interromper a série vencedora da Brawn foi a Red Bull, tornando o Mundial de 2009 uma reedição de um duelo antigo na Fórmula 1: Ross Brawn contra Adrian Newey. Clear já trabalhou “do outro lado”, com Newey na época da Williams. E acha que a briga é bem mais acirrada que os resultados sugerem. “Muita gente achava que Newey era uma coisa do passado, que seus carros eram bons nos anos 90, mas que esta é uma nova época. Eu não acredito que ninguém perde sua inteligência e nem a paixão pela vitória. Tenho certeza que Adrian é tão inteligente, apaixonado e afiado como sempre foi, mas com dez anos a mais de experiência. E trabalhando agora ao lado de Ross, o vejo ainda mais motivado pelo sucesso agora que está numa equipe que carrega seu nome. Vai ser uma batalha fantástica”, aponta.

Para encerrar a conversa, Jock Clear demonstra compartilhar da mesma paixão pelo GP do Brasil que a quase totalidade do paddock da Fórmula 1. O motivo? A paixão dos torcedores locais. “Para mim, é uma das corridas que dão o sentido da temporada, ao lado de lugares como Spa, Monza e Silverstone. Enfim, esses lugares que você associa com a Fórmula 1 propriamente dita. É uma corrida tradicional. Para nós, o que é um pouco decepcionante nestas novas corridas, em novos países, é que você vem ao autódromo no sábado ou no domingo e não sente a paixão. Em Monza, na classificação no sábado, o circuito parece ter vida própria. O mesmo vale para Silverstone e também para o Brasil”.

Mesmo que o título esteja definido a favor de Jenson Button até lá, certamente Jock Clear estará com o mesmo ar sério e compenetrado no grid de largada em Interlagos. Afinal, ele não vai querer desperdiçar a chance de viver essa vibração da torcida com uma possível vitória de Barrichello diante do público local. Uma chance que, nos três anos anteriores, eles nunca tiveram um equipamento capaz de conseguir realizá-la.

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Os engenheiros dos brasileiros: Phil Charles

9 comentários:

Ron Groo disse...

Então é este senhor que sofre toda vez que o Barricas reclama do carro?

Hugo Becker disse...

Pô, é verdade, ainda não tinha pensado nesse detalhe... em 2009, será novamente Barrichello o "dono da festa" em Interlagos, algo que não ocorria desde 2004... será que dessa vez ele "desencalha" e vence em casa? Tem tudo pra isso...

Zani (AutoZani) disse...

Conhecendo o retrospecto desses dois, que é no mínimo respeitável, dá prá perceber que nem só esforço e competência são suficientes para se ganhar um campeonato. A coisa não é brincadeira e depende de índices de acertos que nem todos conseguem. Exceto Button, que parece 'O Mago' de 2009.

Anônimo disse...

Ico, já tá rolando nos bastidores que o Rubinho tem quer ganhar em Interlagos? vai ser por contrato ou por pena? É algum tipo de prêmio de consolação? tu ainda tá nesse papo de azar? fala sério....... o que falta é braço, personalidade, velocidade, etc etc etc.

karkara disse...

Azar por algumas corridas é azar mesmo... agora, azar por 17 anos já não é mais azar; é ruim de roda mesmo! uahauhauahuahuahauha A Hortência tem toda razão!

marconi disse...

O quê nos resta mesmo é torcer pela tão sonhada vitória do Rubinho em Interlagos.
O campeonato já acabou! Uma pena. Depois de duas temporadas (07 e 08) equilibradíssimas estamos tendo um campeonato tedioso graças a competência de Jason Button e Ross Brawn.

leandro disse...

Ico,parabens pela matéria,para mim está sendo muito interessante saber o que se passa nos bastidores. E acho que se o Rubinho adotasse um discurso mais ¨mineirinho¨seria uma estratégia melhor,ao invés de soprar aos 4 ventos que na próxima corrida ele vence e coisa e tal.

Diego Camargo - Floripa/SC disse...

Ótima entrevista Ico! Realmente um lado que a gente não vê muito nem em sites especializados e você pública aqui para a gente.

BAJA SAE Brasil disse...

Parabéns, competições de velocidade não são somente os pilotos, mas também os técnicos, mecânicos e engenheiros.