quarta-feira, 17 de março de 2010

PAPO COM O RATO

No domingo pela manhã no Bahrein, os jornalistas foram convidados para um encontro com Emerson Fittipaldi no hospitality da Renault. O bicampeão faz o papel de embaixador da fabricante de relógios TW Steel e anunciou o lançamento de um modelo em comemoração dos 40 anos da primeira vitória brasileira na Fórmula 1, em outubro. A conversa durou cerca de meia hora e aconteceu de maneira bem informal, entre suco de laranja e folheados. E ele falou muito de história e um pouco da Fórmula 1 atual. O tempo passou rapidinho:

Sobre
voltar a pilotar a Lotus 72
É o
chassi número cinco, o carro que eu ganhei em Monza e também o que eu ganhei em Watkins Glen em 1970, o mesmo chassi. Ah, e ganhei com ele no Brasil também! Tem uma foto da chegada, o Colin Chapman jogando o boné para cima e o Peter Warr do lado. E o Peter está aqui! Ontem eu guiei, e o carro está igual: posição de banco, volante, está igual. O Eddie Dennis que era meu mecânico-chefe, montou o carro de novo. Tem coisas que na Inglaterra! Espero hoje dar no mínimo dez voltas. Ontem o cara teve que me tirar da pista. Foi o máximo, a primeira vez que eu andei com o carro numa pista de verdade desde os anos 70. Eu acelerei o que dava, mas a pista é muito longa, eu demorei um tempo para memorizar os seis quilômetros. Hoje eu vou estar melhor.

Lotus 72
ou McLaren M23?
Tecnicamente, a Lotus
era melhor. Sempre falo, foi o melhor carro que eu guiei na minha vida. A McLaren era melhor de organização e logística, melhorando o carro a cada grande prêmio. Mas como chassi... A Lotus do fim de 71, que foi quando acertamos o carro, até eu sair do time em 73 era demais!

A
relação com Jackie Stewart
O Jackie, de
todos os campeões, foi o que eu tinha mais ligação. É meu amigo até hoje. Mas os meus primeiros anos na F-1 foram os últimos dele. Ele é muito mais velho! (risos) Ele era de outra geração que a minha. Mas sempre houve um respeito muito grande.

Melhor
amigo na Fórmula 1
Meu
melhor amigo foi o Ronnie Peterson. Na convivência fora das pistas. Eu ficava na casa dele na Inglaterra, ela ficava na minha na Suíça. Ele era espetacular, muito rápido. Tinha um estilo muito bonito, colocava o carro de lado. O Ronnie era muito mais atirado que eu, era admirável. Ele fazia a Woodcote em Silverstone dando uma respirada em quinta e entrava!

A
tragédia de Montjuic em 1975
Jochen (
Mass) correu porque ele quis. A Philip Morris nunca me pressionou. Nem o Teddy (Mayer, chefe da equipe). Eles foram muito bacanas, falaram que a decisão de correr ou não era inteiramente minha. Quem encheu o saco foi o (Jean-Marie) Balestre (n.R.: era comissário esportivo da FISA na época). Me suspendeu, , quando o avião pousou em Genebra, ele retirou a suspensão por conta da tragédia que tinha acontecido. Mas vamos falar de coisas boas, vai!

Adrian Newey

O
primeiro trabalho do Adrian foi com a gente na equipe Fittipaldi. Quem o achou foi nosso projetista. O Harvey Postlethwaite foi atrás do melhor especialista em aerodinâmica que tinha e encontrou o Adrian no Imperial College. Isso foi em 1980.

Os
desempenhos de Felipe Massa e Sebastian Vettel
O
desempenho do Massa não me surpreendeu. Vim com ele no mesmo avião do Brasil, conversamos muito e ele está ótimo. O Vettel também não me surpreendeu. No ano passado, ele foi o mais rápido na parte final do campeonato. E o Adrian, quando acerta a mão de um carro...

Equipe
novas
Eu
acho que a F-1 tem sempre equipes que chegam e que vão. É uma fase de transição e eu acho o máximo que mais gente está tendo a chance de entrar na categoria. Mas é um passo difícil. Economicamente, está difícil para todo mundo. Os tempos mudaram. Mas acho também que essas equipes vão crescer rapidamente depois de mais duas ou três corridas, porque têm gente competente nelas para fazer isso. Só falta tempo e dinheiro.

A
volta da Lotus
A
volta é o máximo. Estava falando muito com o Clive Chapman. Ele nunca gostou de carro novo. Cresceu sempre gostando da história da Lotus. Eu sempre perguntava para Hazel, a mulher do Colin, se ele queria continuar com a equipe e ela dizia que não, ele preferia cuidar dos modelos antigos. Então eu acho que agora surgiu a oportunidade do Clive ver a equipe do pai dele continuar. A essência da Lotus está ali, o nome, a responsabilidade.

15 comentários:

Renato Chedid disse...

Sempre bom ouvir o Rato. Ponderado, didático, um verdadeiro campeão. Vida longa, Emerson!
Valeu, Ico!

Thiago Wilvert disse...

Grande Emerson!!

Excelente post, Ico!

Abraço!

Kico disse...

"Ontem o cara teve que me tirar da pista." D+++++

Abração,
Kico

Valtinho disse...

Só o Ico pra nos dar essa honra!!!

Escutar ou ler sobre o "Emmo" é sempre uma honra, não só para nós barasileiros, mas pra todos os amantes da F1!!!

Valeu por tudo e Vida longa a Emerson Fittipaldi

Beatle Ed disse...

Ah Ico, muito maneiro!!!

Todas as minhas carencias de F1 são resolvidas aqui!
abraços
B.E.

Caíque Pereira. disse...

Este sim, é o MELHOR de todos. Pena que o Pace não esteja mais aqui, porque seria ótimo.

tibone disse...

Se o Rato aprova a Lotus Malaia, não sou quem vou discordar, né ?

Muito bacana a conversa.
Valeu,Ico

CelsoAM disse...

Sensacional! Valeu, Ico!

Rodrigo Brasileiro disse...

Realmente, sensacional ico! Parabéns

Kohara disse...

Grande entrevista. =)

E... Até que enfim apareceu alguém que não torce o nariz (aliás, um de respeito. =P) pro projeto da Lotus. (Se bem que eu nunca vi o Emerson falando mal de ninguém...)

Abraço e parabéns!

Kohara

Flávio Costa disse...

O Emerson consegue passar todas as emoções dele com palavras simples, incrível como ele consegue isso.

Ótimo post.

Rob disse...

O emerson mesmo depois de certa idade consegue passar um ar jovial em suas declaraçoes.
Demais esse cara..
Valeu demais Ico

Arnold disse...

É o q sempre penso. Basta um só falar "essa equipes Lotus não é a Lotus de antigamente" que um batalhão de ovelhinhas seguem piamente...pô..claro que não é..as coisas mudam. E os caras demonstraram que não estão pra brincadeira. Das novas equipes são os mais sérios, junto com a Virgin.

Ron Groo disse...

Lendo isto fiquei com a imagem de Emmerson cantando uma velha canção do Adoniran Barbosa.
"-Eu já fui uma brasa, mora... Mas se assoprar posso queimar de novo.".

É óbvio que a idade não deixa mais, mas que dá pra sentir a paixão pela coisa nas palavras dele, ah isto dá...

Fleetmaster disse...

BEla história para contar !!