quarta-feira, 7 de abril de 2010

A VIDA AOS 40

Nos últimos anos de sua passagem pela Ferrari, comecei a achar que Michael Schumacher era uma loirinha chamada Sabine. Afinal, além das entrevistas oficiais da FIA e uma ou outra para a tevê alemã, ele jamais aparecia para falar com os jornalistas. Ficávamos sabendo do que pensava o grande campeão pelo que ele ditava no gravador de sua assessora de imprensa. Então, nos reuníamos em torno dela. Frau Kehm apertava o play e ditava em voz alta cada frase proferida pelo heptacampeão. Mais gelado, impossível.

Três anos depois, a mesma multidão preenche todos os espaços possíveis no apertado “puxadinho” que forma a área de hospitality da equipe Mercedes em Sepang. Tanta gente que o assessor do time brinca. “A coletiva está cancelada. Não há espaço para o Michael entrar”. Mas os tempos mudaram e ficamos livres do ditado através do gravador. Michael Schumacher chega sorridente e animado. Senta-se num banquinho alto, desses de balcão de bar, e começa a responder a cada pergunta. Vai além: como a coisa toda é mal organizada e não há um microfone para os jornalistas, ele repete a pergunta em voz alta e responde em seguida. Quando é a parte em alemão, chama os profissionais pelo nome, dá várias respostas espirituosas e gera gargalhadas gerais quando troca a palavra “hipótese” por “prótese” no meio de um raciocínio.

A segunda carreira de Michael Schumacher começou lhe impondo uma série de novos sentimentos: pouco tempo para testar, um carro rebelde a seu estilo de pilotagem, um companheiro de equipe jovem, veloz, faminto e com liberdade. Como (e se) ele vai reagir à tudo isso é algo que só o tempo vai dizer. Mas mesmo os colegas alemães que mais tinham reservas quanto a personalidade do piloto se renderam: ele voltou para a Fórmula 1 muito mais aberto. Quase um campeão em simpatia. A idade pode mesmo ser um bálsamo para o espírito de um ser humano.

(Foto Mercedes GP)

9 comentários:

Eduardo Malheiros disse...

Faz sentido. É um sentimento muito próximo, provavelmente, do que teve o povo aqui de Florianópolis desde o primeiro "Desafio das Estrelas". Se na primeira edição que este compareceu todos esperavam um piloto meio fechado e até "anti-brasileiro", o que se viu foi algo completamente diferente. Hoje em dia ele é recebido aqui tão bem quanto os pilotos locais, ou até melhor - em alguns casos.

Ps.: Muito bacana o tema e a forma como foi escrito o post, novamente. Tem coisas que só se vê por aqui. Por isso está-se sempre voltando.

Grande abraço!

Danielle disse...

Ele não precisava ser simpático.

Corria sozinho, brilhava sozinho, mandava e desmandava, e até humilhava...

E agora? Os tempos são outros. A prova está nos números.

Não atribuo tais mudanças apenas a maturidade, apesar de concordar q ela deva ter a sua parcela de contribuição.

Acho q ele deveria ter ficado no seu cantinho correndo de kart nas horas vagas.

Não exito em dizer q torço contra o velho Schumi, como se diz no futebol: eu "seco" mesmo!

Parabéns pelo texto. Voltarei.

Alex Couri disse...

ele ainda vai REsurpreender.. com toda certeza..

Luís disse...

Sabine! ótima Ico!

Como dito assim, é por isso que sempre lemos aqui!

Ester disse...

É... um ponto positivo da volta do heptacampeão: mostrar essa lado interativo dele... :)

Larissa Oliveira disse...

Legal mesmo. Acho que o tempo que ficou parado recarregando as baterias tb contribuiu para isso. Não só a idade. As entrevistas o aborreciam muito, ainda mais quando vinha pergunta repetida. Uma vez ele falou que cansava mais respondendo perguntas do que dentro de um carro.

Esse afastamento o fez ver as coisas por outro ângulo, não dar tanta importância a algo que ele não poderia controlar como o assédio da imprensa.

Eu palpito aqui tb que talvez Vettel, a quem dava conselhos durante sua aposentadoria, tenha contribuído um pouco para essa abertura maior do Michael com a imprensa da F1. Ao vê-lo tão descontraído, mas ao mesmo tempo mantendo sua vida privada longe das câmeras e não falando pelos cotovelos - acho que Michael pensou 'pô, se ele pode, eu tb posso'

Beatle Ed disse...

Michael Schumacher está se divertindo. Faz o que gosta, gosta do que faz e curte a vida assim. Esse deve ser o segredo.

Só não acho razoável que a imprensa e o público venham a cobrar uma performance absolutamente devastadora agora. É preciso dar tempo pra que muitas coisas se estruturem.

Só pra dar um exemplo, quando Michael Jordan voltou a jogar basquete também não chegou atropelando. Mas depois de algum tempo…

Se Barrichello venceu corridas aos 36, Schumacher pode vencer aos 40s. ;-)

Veremos até o final do ano.

duda disse...

parabens pelo post e parabens pela coluna do lance. ja havia dito a minha esposa que nao iria comprar mais o lance as quintas, pq pensei que nao haveria mais colunas de f1.

Luiz G disse...

Schumachjer já foi campeão várias vezes...Não tem que provar mais nada.

Pelo jeito, ele está vivendo como gosta e desfrutando de cada dia.