quinta-feira, 25 de novembro de 2010

FÓRMULA 1 2010 - POR PAULO A. TEIXEIRA*

Uma das coisas da qual mais me orgulho desse blog é a audiência e a participação maciça de internautas portugueses. Quando comecei a brincadeira, nem passou pela minha cabeça que poderia estar falando também aos "irmãos da língua". O primeiro a me chamar atenção disso foi o Paulo "Speeder 76" fazendo uma citação ao meu trabalho no seu blog. Nada mais natural do que chamá-lo para encerrar a série de convidados a falar da temporada - algo que ele faz muito bem, apontando o lado humano dos titãs das pistas. Ao Paulo, ao Mike e a Julianne, fica público o agradecimento que já fiz por e-mail. E o desejo de um até breve aqui no blog.

O ANO DOS TITÃS

Em 1984, eu tinha oito anos, quando se estreou no cinema o filme “2010 – O Ano Em Que Faremos Contacto”, uma sequela do filme “2001, Odisseia no Espaço”, realizada por Stanley Kubrick. Ambos os filmes tinham como base argumentos escritos por um dos mitos da ficção cientifica: Arthur C. Clark. Sendo criança, fiquei fascinado pelo filme, e nessa minha imaginação, sempre pensei que esse seria o mundo quando o verdadeiro 2010 chegasse.

Pois bem, agora estamos em 2010, e ao contrário do que se passou no filme, Júpiter ainda não virou outro sol, ainda não fazemos naves espaciais tripuladas para lá e agora existe tecnologia não pensada na altura, como portáteis, LCD’s, Ipad’s, Ipod’s e todos os gadgets tecnológicos que pouca gente poderia ter imaginado. E a Guerra Fria, bem como a União Soviética, acabaram há bastante tempo. Mas esta temporada viu a estreia do primeiro piloto russo de sempre na categoria máxima do automobilismo mundial…

Nesses anos 80 vivamos em pleno a era Turbo, com pilotos memoráveis: Alain Prost, Niki Lauda, Nigel Mansell, Nelson Piquet, Ayrton Senna… todos eles eram ultra-competitivos e acabaram por ser campeões do mundo. Os historiadores do automobilismo afirmam que essa foi mais uma “idade do ouro” da formula 1, depois dos anos 70, com as aerodinâmica, das asas e da liberdade total para experimentar. Pensava-se que esses tempos já estariam longe quando vivemos o domínio de Michael Schumacher no inicio da década, no seu Ferrari. Mas depois da sua retirada viu-se o desflorar de uma nova “idade do ouro”, com excelentes pilotos como Kimi Raikonnen e Fernando Alonso, mas também com as suas polémicas, controvérsias e politicas.

Voltando um pouco à analogia espacial, diria que este foi um ano onde se produziu uma rara conjugação de planetas. Foi como se o planeta Terra se tivesse alinhado com o Sol, a Lua, Marte, Vénus e Saturno, uma daqueles alinhamentos raros, quase únicos na nossa existência. Não era todos os dias que sabíamos à partida da existência de quatro equipas muito fortes, e um mínimo de seis candidatos ao título. Ainda mais, com um novo sistema de pontos que fazia com que o vencedor voltasse a ser valorizado. Em teoria, seria bastante mais beneficiado do que o segundo classificado, e quem entrasse no “top ten” ganharia pontos, pela primeira vez na história da Formula 1. E para finalizar, como se fosse a cereja em cima do bolo, tínhamos o regresso do piloto mais bem sucedido do mundo, Michael Schumacher, à competição, bem como o regresso de dois nomes famosos: Lotus e Mercedes.

Em suma, este era o “sonho molhado” de Bernie Ecclestone: as expectativas eram muitas. Foram cumpridas? Em boa parte, sim. Foi uma temporada disputada até ao fim. Até a três provas do final, na Coreia do Sul, tivemos cinco candidatos ao título, e na última prova, em Abu Dhabi tínhamos três candidatos e um “joker”, absolutamente inédito nos sessenta anos da história da Formula 1. Esta competição nos pontos compensou, por exemplo, a crónica falta de ultrapassagens, ou pelo menos, a facilidade de ultrapassagens que gostaríamos de ver, bem como o facto de termos um monopólio tilkeano de novos circuitos, que muitos dos fãs apontam como a causa da falta de ultrapassagens. Na realidade, isso vai um pouco mais além…

Ao contrário de muitos, gosto de ver o “factor humano” na equação. A agressividade de Lewis Hamilton, que lhe custou pontos e o título em duas provas seguidas – Spa-Francochamps e Monza – e que lhe custaram o título, ou a “salganhada” de Sebastien Vettel na Turquia e o acidente de Mark Webber em Valencia, podem ter sido erros que custaram caro, mas foi devido a esses erros que isto chegou onde chegou. Muitos querem ver pilotos certinhos e sem erros, mas acho que essas pessoas ficaram mal habituadas aos “anos Schumacher”… e sim, o veterano alemão também cometeu os seus erros, para além dos velhos truques que nos habituou ao longo da sua carreira.

E claro, das muitas frases que marcaram o ano automobilístico, não posso deixar de destacar uma: “this is ridiculous”. Não podendo deixar de lado a polémica alemã por parte da Ferrari, ficamos com a ideia de que a Ferrari pode fazer o que quiser dos regulamentos, pois a Ferrari tem um lugar especial no coração da FIA, ainda mais com Jean Todt, ex-director desportivo da Scuderia, na presidência. Mas para além da polémica, o que vimos foi a ideia de que o todo vale mais do que a soma das partes. E que ali, os pilotos são meros assalariados da marca de Maranello. Portanto, Felipe Massa, mais do que ter cedido o comando para o piloto das Astúrias, demonstrou a si mesmo, quem ainda tinha dúvidas, que não tem estofo para ser campeão. Sim, acham que contrataram Fernando Alonso pelos seus bonitos olhos e queixo ibérico?

Claro, muita gente deve ter ficado feliz por não ver a Ferrari ser campeã do mundo, com o bónus de ver o Fernando “paz e amor” Alonso ter explodido quando reclamou com Vitaly Petrov de que não o deixou passar. Espero que tenha tido a mesma atitude com Stefano Domenicalli, o homem que o colocou Alonso demasiado cedo nas boxes e não conseguiu descortinar o facto de Petrov e Nico Rosberg terem parado antes, quando da entrada do Safety Car, nas voltas iniciais. Mas são estes factores humanos que tornam o automobilismo maravilhoso.

Agora, temos 2011 pela frente. Só veremos as novas máquinas a andar em Fevereiro, antes de começarem o campeonato mais longo de sempre, com vinte corridas, e em principio, não haverão mudanças nas equipas da frente. Em teoria, a próxima temporada bem pode ser uma extensão desta última, provavelmente com mais alguns novos elementos. Se assim for, os fãs agradecem.

(*Paulo Alexandre Teixeira, o "Speeder 76", tem um fôlego incansável para escrever ótimas análises de diversas manifestações de automobilismo, sempre reservando espaço para a memória do esporte também. Seu Continental Circus faz jus ao nome e leva ao picadeiro um espetáculo completo, colorido e de qualidade, que nos faz querer voltar a cada dia)

15 comentários:

Mike Vlcek disse...

Acho q Hamilton foi o melhor piloto da primeira metade do campeonato, Alonso o melhor da segunda, e Vettel foi segundão em ambas, levando o título por ter, no final, a "melhor média", ehehe

A grande pergunta q me faço, e q será tema de posta em breve, é: quem é melhor? Hamilton ou Vettel? Quem irá prevalecer no fim das contas, se é q um deles irá conseguir superioridade sobre o outro... Será q temos aí um novo Senna-Prost, com Alonso, um pouco mais velho, sendo o Piquet dessa geração? A pensar...

F-1 A.L.C. disse...

o portuga escreve muito bem, disso não há dúvida. e ainda tem fundamentado de forma enxuta e direta o que define a temporada 2010: o retorno de nomes legendários, um campeonato disputado até o fim, e uma nova geração de estrelas no horizonte misturadas com "os nomes" dos últimos 10 anos.

Edmilson Madureira Segundo disse...

Mike, entre Vettel e Hamilton, poderíamos ter um ávido Kubica (lembre de seu nariz prostiano)? Mais uma temporada como essa, Kubica vai ser abduzido por uma das grandes escuderias, não?

E Rosberg, será que, com o carro melhor, não brigaria em pé de igualdade com os demais? Creio que o rapaz é veloz e tem suficiente personalidade.

Pilotos, pelos vistos, há. Carros competitivos para todos...

Mike Vlcek disse...

O Raiz Kubica foi muito bem lembrado por vc, Edmilson, mas infelizmente ainda teremos de ve-lo na condição de "ter q vencer" para termos 100% de certeza de q ele é isso tudo. O mesmo se aplica ao Rosbife, enquanto Hamilton e Vettel já meio q nao precisam mais provar nada...

Ron Groo disse...

Eis aí um que acompanho desde que montou o Blog. Paulo é camarada, dos bons. Fiz o texto do post comemorativo de Cem Mil visitas do Continental Circus.
É quase que obrigatório ler ao menos um de seus vários posts diários.

Ico (Luis Fernando Ramos) disse...

Mike, a discussão Hamilton versus Vettel é sensacional e merece boa reflexão. Os dois velocíssimos. Mas há diferenças na maneira de abordar o trabalho. Hamilton é pura paixão, daqueles boxeadores que chegam ao ringue querendo partir logo prá porrada. Vettel é mais analítico, preocupado com detalhes e em traçar um plano de ataque. Quem vence? O tempo dirá, mas vai ser bem bacana assistir isso.

Mike Vlcek disse...

Sim, concordo contigo, Ico. Estou ainda esboçando minhas linhas sobre o tema. Fica pra semana q vem, depois do RoC e q a guerra no Rio der uma amenizada (se amenizar).

Mauro disse...

Ele viajou. primeiro exemplifica o fato de os pilotos serem empregados assalariados de maranello, depois diz que p massa não tem estofo pra ser campeão. Contraditório meu amigo, muito contraditório

Speeder_76 disse...

Bom... primeiro que tudo, quero agradecer ao Ico pelo convite para escrever no seu blog. Senti-me lisonjeado e espero que isto se repita por mais vezes.

Para o Mike: espero que nos dois anos seguintes essa pergunta sobre Hamilton/Vettel tenha resposta. Acho que eles tem estofo e carro para tal, mas claro, há outros factores a ter em conta: Alonso e Rosberg, para além dos outros como Webber e Schumacher.

Um grupo de elite do qual eu não incluo Felipe Massa, até prova em contrário. Começo a acreditar que será um "1C" (é polémico, eu sei) porque não o vejo a erguer-se dos obstáculos que tem pela sua frente, principalmente o principal: Fernando Alonso. Se o conseguir, francamente, seria a surpresa do ano, senão da década.

Speeder_76 disse...

P.S: Esqueci-me do Jenson Button e do Robert Kubica. Mas no caso do polaco (polonês) esse precisa que lhe dêm um bom carro em 2011 para ao menos incomodar os da frente. Motor já tem...

Luke Domski disse...

Excelente texto! Só uma correçãozinha: Lewis ficou sem pontos em Monza e em Cingapura, não em Monza e Spa!
Abraço!

Edmilson Madureira Segundo disse...

É, Mike, falta o detalhe do "ter de vencer" para Alan Kubica e Rosberg Spears (que nem sequer venceu ainda). Mas, de toda forma, não creio apenas nessa dicotomia Vettel/Hamilton (embora ela seja, sim, possível).

O que quero são mais campeonatos com 4 pilotos disputando o título até a última curva da última volta do último GP do campeonato. Quero que Kubica, Rosberg, Kobayashi, Sutil e Hulkenberg vinguem. Quero um grid com 24 carros na ponta dos cascos. E ainda quero ver Rubinho campeão de F1.

Não quero nada, né? Só isso.

Abraços.

Speeder_76 disse...

Tens razão, Luke. Obrigado pela correcção.

Mike Vlcek disse...

Edmilson, tomara q essa temporada seja a de 2011. :)

Edmilson Madureira Segundo disse...

Tomara. :)