quinta-feira, 6 de novembro de 2008

UM TÍTULO PARA BILL BAKER

O título de Lewis Hamilton aconteceu 50 anos depois da primeira conquista de um piloto britânico. Quando Mike Hawthorn ainda dava suas voltinhas no circuito de Goodwood, um jovem Bill Baker acompanhava tudo da beira da pista, fascinado pela mesma paixão por velocidade que nos une.


Conheci um não tão jovem Bill Baker na pousada que me hospedei em Melbourne, no início da temporada. Eu naquela ansiedade para começar a cobertura do campeonato de 2008. Ele, no meio de um ano de folga para viajar pelo planeta ao lado da esposa Kathy. Bill aproveitou a ida à Austrália para torcer ao vivo por Lewis Hamilton. Todos os dias no café da manhã, passávamos alguns minutos em uma ótima conversa, eu contando das minhas experiências no paddock, ele sobre os grandes nomes do esporte a motor que tinha visto correr.


Quando a decisão veio para o Brasil justamente com a disputa entre Hamilton e Massa, escrevi-lhe pedindo que passasse algumas impressões sobre o piloto inglês e que o comparasse com outros nomes de outras eras. A resposta veio numa longa e simpaticíssima carta, escrita antes da prova do domingo, na qual Bill explica porque acha Lewis o maior piloto que viu correr.


Esqueçam a equipe toda de laranja na asséptica sede da McLaren em Woking. O título conquistado no último domingo foi para os verdadeiros fãs de automobilismo no país que é uma espécie de berço da Fórmula 1. O título foi para Bill e os outros britânicos que pulavam cercas para verem seus heróis correndo nas inúmeras pistas da ilha.


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Prezado Luis,


Bom ter notícias suas depois de tanto tempo. Fico feliz de te escrever algumas linhas sobre nossa experiência neste anolivre” e sobre o GP da Austrália em particular.


Devo começar dizendo que sou um fanático por Fórmula 1 há 60 anos e, como a maioria dos fãs, acompanho o esporte nos jornais, no rádio e na televisão.


Meu interesse pelo automobilismo ganhou vida quando meu pai nos levou – meu irmão e eu, que tinha cinco anos – de ônibus para a abertura de Goodwood, em 1948. Nos anos seguintes, eu fazia de bicicleta a distância de 7 milhas entre nossa casa e o circuito. Como muitos jovens da época, eu buscava algum buraco na cerca para entrar e ver a pista. Ali foi a primeira visão que tive de pilotos como Stirling Moss e Mike Hawthorn. Era cativante olhar aqueles homens audaciosos e suas máquinas sem medo. Fiquei viciado em corridas dali em diante, captado pela competição, pelo perigo e o senso de jogo limpo desta raça de pilotos, sem deixarem de ser arrojados e endiabrados.


Um exemplo do que eu quero dizer: em 1958, Stirling Moss e Mike Hawthorn batalhavam no GP de Portugal. Hawthorn passou reto numa curva, em um piso molhado de paralelepípedos. Quando ele voltou à corrida usando um trecho da calçada, foi ameaçado de desclassificação por infringir as regras. Foi Moss quem falou com os organizadores para que a decisão fosse revertida. Este exemplo de esportividade – impensável nos padrões de hoje – garantiu que Hawthorn mantivesse seus pontos. No final, ele bateria Moss no campeonato por um ponto, 42 a 41.


Ao longo dos anos, tive alguns pilotos favoritos. Mike Hawthorn e Stirling Moss nos primeiros anos; depois, Graham Hill, Bruce McLaren, Chris Amon (o primeiro que era mais jovem que eu) e, mais recentemente, Nigel Mansell, Damon Hill e agora Lewis Hamilton. É uma lista pessoal que tem muito a ver com nacionalidade e com a apresentação pessoal dos pilotos envolvidos.


Você me pediu para comparar estes pilotos ao longo dos anos, da perspectiva de um torcedor. Uma tarefa difícil dado o quanto o esporte mudou ao longo dos anos. Na época de Fangio, Moss e Hawthorn, havia um sentimento preponderante de espírito esportivo e pura coragem, qualidades raramente encontradas hoje a não ser em alguma liga amadora de rúgbi. Agora, enquanto vou me tornando rapidamente umvelho rabugento”, sinto cada vez mais que a F-1 ficou igual à Premier League do futebol, onde o dinheiro e a vitória têm prioridade sobre qualquer coisa – e o senso de esportividade e o reconhecimento dos fãs são coisas raramente vistas. Alguns pilotos, deixo a cargo de outros nomeá-los, deixam a forte impressão de preferir que os torcedores sejam mantidos longe do “Business” que a categoria se tornou.


Vou me concentrar por um momento na minha lista de pilotos de ponta, que não inclui Lewis Hamilton porque ele não ganhou nenhum título, ainda. Em todos os outros critérios ele é o melhor que eu vi. Testei minha crença olhando em www.f1db.com . Minha lista final não inclui Stirling Moss, já que ele também nunca ganhou um Mundial. Tinha a opinião, antes mesmo do acidente horrível que ele teve em Goodwood em 1961, que Moss não conseguia entender que chegar na frente do resto era o suficiente. Ao invés disso, ele parecia sempre querer vencer pela maior margem possível e, buscando isso, seu carro quebrava com freqüência. Há rumores que ele reclamava que sua equipe não conseguia produzir um carro forte o suficiente, mas ele esperava que a máquina fosse capaz de dar uma volta no grid inteiro. O alto índice de abandonos de Moss (48,65%) em comparação com o de Hawthorn (30%) parece confirmar isto.


Se Lewis vencer o campeonato no domingo, ele automaticamente vai ocupar o topo da minha lista, que sua média de pontos por corrida (6,17) é a mais alta, de longe. Em segundo lugar estaria Michael Schumacher, que venceu sete títulos e uma média de pontos de 5,52. Juan Manuel Fangio vem em terceiro no meu hall da fama, com cinco títulos e a média de 4,13. O quarto seria Alain Prost, que venceu quatro vezes com 3,84. Mas tenho de admitir que é difícil separar Prost de Senna (3 / 3,77), Stewart (3 / 3,59) e Lauda (3 / 2,46). eu colocaria Alonso com dois títulos e 4,34 de média, embora ele ainda possa melhorar sua posição neste ranking. Finalmente, colocaria Jim Clark (2 / 3,39) acima de Ascari (2 / 2,96), Damon Hill (1 / 2,95) e Mansell (1 /2,53).

para registrar: Moss, que nunca foi campeão, tem uma média de 2,5, contra 2,35 de Mike Hawthorn.


Ainda que estas estatísticas sejam úteis para testar uma memória acurada, contam uma parte da estória. Descobri que a personalidade de um piloto deixa uma impressão muito mais duradoura. Nunca vou esquecer de Sir Jack Brabham, porque ele ficou feliz de ficar dentro de seu carro por alguns minutos a mais para que eu tirasse uma foto sua em Brands Hatch. Eu vi aquele carro de novo, neste ano em Melbourne, e a memória do momento veio à tona. Damon Hill pareceu surpreso quando eu lembrei que Jack Brabham era seu padrinho. Chris Amon era uma pessoa muito agradável e sempre pareceu ser muito feliz, assim como Bruce McLaren. A personalidade brilhava e os fãs eram importantes. Poucos pilotos atuais me afetam de forma similar. Michael Schumacher tem a reputação de ser um pilotofrio” e acho que ele mostrou isso na sua relação com os fãs. Ele merece estar no topo da minha lista de pilotos, mas nunca terei o calor para sua pessoa como eu tenho com Jackie Stewart, que sempre tem tempo para atender à imprensa e possui uma visão equilibrada.


Onde eu coloco Lewis neste ranking de personalidades? Sou da opinião que ele sempre agradece à equipe e à família, que ele reconhece seus s e quem apesar do que parte da imprensa e outros pilotos nos fazem pensar, ele mantém um grau de humildade. Resumindo, eu gosto dele. Muito do que leio ou escuto sobre ele parece refletir a inveja de outros. Eu não espero ver pilotos mostrando a mesma esportividade que Moss demonstrou em relação a Hawthorn. Isto ficou claro quando Michael Schumacher mostrou ao mundo que ele estava disposto a derrotar Damon Hill jogando-o para fora da pista. Apesar disso, temo que alguns pilotos estão tentando melar as chances de Hamilton através de suas frases e atitudes fora da pista, quando o que realmente conta no final é quantos pontos cada um tem ao término do campeonato.


Eu quase parei de assistir à Fórmula 1 quando três não-pilotos decidiram reescrever as regras no meio da temporada e tiraram pontos de Lewis Hamilton. Eu vou parar de assistir se um piloto o jogar para fora da pista para impedi-lo de vencer. A tradição da Fórmula 1 é a do jogo limpo e da esportividade, e espero que ela nunca se torna uma forma caríssima da Nascar. A corrida de domingo vai ser interessante, tenho certeza.


Bill Baker

9 comentários:

Claudio disse...

Bill Baker deve ser uma figura interessante, mas suas escolhas e critérios não animam.

Damon Hill?

Michael Dick Schumacher e Senna eram tão competitivos que passaram do ponto algumas vezes, mas foram geniais.

A lista do sr. Bill é muito bairrista.

Thierry disse...

"Você me pediu para comparar estes pilotos ao longo dos anos, da perspectiva de um torcedor"


bem, acho que não preciso dizer mais nada, né sr Claudio.

Ico (Luis Fernando Ramos) disse...

Oi pessoal! Justamente, o próprio Bill coloca que "É uma lista pessoal que tem muito a ver com nacionalidade e com a apresentação pessoal dos pilotos envolvidos".

Mas o interessante, para mim, é ver isso, a opiniao e a paixao de um torcedor inglês. Se a torcida brasileira mora no peito de Felipe Massa, como ele mostrou no pódio domingo, Bill e sua turma sao os favoritos de Lewis. Em Silverstone, também fizeram muita festa, mas lá do jeito britânico deles...

Abs!

Bruno disse...

A única coisa que me deixou "de bode" com a lista "pessoal e bairrista" são essas médias de pontos... 1 parágrafo inteiro enumerando pilotos e suas respectivas médias? E qual a importância de um título mundial? Minha resposta, pessoal,leiga e, quiçá, bairrista, é que títulos mundiais servem pra simplificar listas e poupar o trabalho de comarar o incomparável. Eu, aliás, não sou muito afeito a comparações. Sou um fã do imponderável e das quantidades incalculáveis de "imprevistos". Sou do tipo que acha que definições são totalmente dispensáveis e comparações quase sempre inúteis. "Listas" são pra quem quer vender revistas. Longe de mim tentar definir "o quê é ser fã de automobilismo", mas creio que fazer uma listagem sem sequer dar a oportunidade aos concorrentes de tentar por eles mesmos melhorarem suas posições vai totalmente contra o ideal do esporte. :) Lewis é o melhor de todos os tempos? Senna era? Quem se importa?..

Nicholas (nicholas.sana@uol.com.br) disse...

Olá Ico,
Tive o prazer de pela primeira vez assistir "in loco" um GP e mais ainda por ser esse um dos mais históricos...decidido na ultima curva da ultima corrida....emocionante!!!!
o que alem da corrida memoravel vai ficar na minha memoria é eu ter conseguido entrar (a duras penas só pra citar) na parte de trás dos boxes logo após a corrida...
Bill Baker teve um sorte tremenda de ter vivido uma epóca de ouro (gostaria eu de ter vivido tudo isso), pois o que vi nos boxes me fascinou muito, dirigentes, engenheiros, grandes nomes, mas não grandes pessoas, de todas as pessoas que vi a unica que me deu realmente atenção foi o Pedro de la Rosa...trocamos umas palavras e consegui tirar uma foto com ele, no mais, o genio indomavel do “Bussiness “ da F1, fez com que por exemplo, Alonso ter “estourado” quando cheguei perto dele para tirar uma foto, ou ao Kubica que nem se deu ao trabalho de olhar para mim, simples torcedor (no caso dele é compreenssivel pois estava reveltado com a corrida que teve e não parou de falar um minuto com o engenheiro)... não esperava muita atenção deles, sem duvida todos tinham o que fazer, mas respostas agradaveis e não “estrelismos” seriam muito mais bem vindos...
Kovalainen e o Kimi passam rapido por todo sem falar nada com ninguem...(só ouvi o Kimi falando com o Badoer)...outro que me tratou bem foi o Mario Theissen (me senti falando o lider do Queen!!!..rs)
Não consegui falar com ninguem na Mclaren e nem na Ferrari (a não ser o Rosato, que é uma ótima pessoa), mas nada se compara as palavras ditas pelo Bill na carta que ele te enviou, sinto saudade de algo que não vivi e que provavelmente não viverei, que é justamente a felicidade no rosto de um piloto por estar tendo toda a atenção de um fã...(como no caso do Jack Brabham)...
Os numeros que eles mostrou as carateristas são pessoais dele, mas as palavras sobre algo pessoal são incomparaveis!!!
Abraços
Nicholas Sana
Obs: Parabéns pelo seu trabalho no Autodromo, tive o prazer de acompanhar tudo pelos auto-falantes nas arquibancadas...

Anônimo disse...

Ico:
Sou seu leitor voraz aqui, mas nunca me manifesto. Vivo lá pelos lados do FG, onde despejo minha verborragia sem dó.
Mas deste post não dá pra escapar: Concordo com cada palavra dita pelo Sr. Bill Baker, tem uma visão muito lúcida da F1 como um todo, e toda a moral e experiencia do mundo para chancelar tudo que escreveu.
Partilho totalmente com ele essa opinião dos verdadeiros apaixonados, com cada linha do seu texto, exceto uma: Que pararia de assitir a F1, por um motivo ou por outro.
No meu caso, continuaria assistindo. Pra mim, não dá pra escapar desse negócio de carro de corrida.
Belo trabalho, voce está ficando cada vez maior no que faz. Parabéns e inveja sinceras.
Claudio Ceregatti

L-A. Pandini disse...

Ico, bela carta a do Bill Baker. Aos que o criticam, um lembrete: é uma apreciação muito pessoal, como pode ser a de qualquer um de nós aqui. Pode-se concordar ou discordar dele, mas o sr. Bill Baker sabe do que fala e sabe argumentar.

O que mais chamou minha atenção foi o final: "Epero que ela nunca se torna uma forma caríssima da Nascar". Infelizmente, se depender da FIA, é isso mesmo que vai virar. Abração! (LAP)

Gui disse...

Muto bacana essa visão do torcedor inglês. As poucos estou tentando ler e entender melhor sobre a F1 que a tanto me fascina. Li, se não me engano, no blog do Capelli, sobre os 20 anos da conquista do primeiro titulo do Senna (onde eu tinha apenas 4 anos) e onde se fala de uma F1 diferente... O que dá margens para muitas conclusões. Parece-me, que os ingleses nao tem um grande ídolo na F1, com temos o Senna, o Piquet e o Fittipaldi. Pq colocar um Hamilton, mal saido do forno, a ser o melhor, só realmente nao tendo ídolos, principalmente para quem viveu numa época onde era muito mais facil criar mitos (Qdo comecei a acompanhar F1 com outros olhos, falava-se muito em Jim Clarck, mas hj, vejo poucos falando nele).
Abraços

Mezzofort disse...

Bah... os critérios desse cara estão meio atravessados... achei meio mítica e fantasiosa essa lista. Essa média de pontos por exemplo é a maior besteira, Hamilton nunca pegou um carro ruim, para equilibrar essa média, é até uma injustiça para com Vettel por exemplo, que considero muito melhor que Hamilton (sem critérios nenhum).