sábado, 22 de maio de 2010

OS SHOWS DA MINHA VIDA (1 – NEIL YOUNG)


O alarme tocou pouco depois das quatro da manhã, como se risse da minha cara. Eu mal dormira duas horas e confesso que não estava muito animado com a jornada que tinha pela frente. Mas sempre fui uma pessoa de palavra. E eu tinha combinado com alguns amigos que iria assistir ao show do Neil Young no Rock in Rio 3. Por mais que eu não conhecesse nada do trabalho dele. Na verdade, sabia e curtia todas as músicas que ele compôs para e sua participação no Crosby, Stills, Nash & Young. E já tinha visto o vídeo de “Hey, Hey, My My” um par de vezes na MTV. Ponto.

Pulei da cama, peguei a mochila e fui atrás de um táxi na madrugada paulistana. Passei na casa de uma amiga e rumamos para Cumbica, onde pegaríamos o vôo a preço de banana que sairia nas primeiras horas da manhã. O intuito de dormir durante o trajeto foi massacrado por um clima de busão na aeronave. Era sábado de manhã e a passagem de valor convidativo preencheu os assentos com gente que iria pegar um final de semana de verão na Cidade Maravilhosa. Devidamente animados, claro. A algazarra era total, só faltou mesmo alguém puxando um pagode no cavaquinho. Meus olhos doíam.

Pousamos no Galeão e teríamos de encontrar outros dois amigos na Barra da Tijuca. Quando descobrimos que havia o “frescão”, um ônibus com ar condicionado que demoraria quase duas horas para chegar lá, demos um salto de alegria. Compramos a passagem e desmaiamos durante o trajeto. Quando chegamos na infalível Avenida Sernambetiba (o nome é demais!), o corpo estava descansado e o espírito, renovado.


A dupla que esperávamos chegou atrasada, pois ainda se recuperava dos shows do dia anterior do festival, a “Noite do Metal”. Subimos no Jipe JPX que seria nossa morada naquele dia carioca e decidimos ir para o Leblon aproveitar o sábado ensolarado. A tarde voou no Caneco 70 (verdade que fechou?), com petiscos e canecas de chopp como combustível. O que tornou o dia agradável se tornou um problema prático: a hora do show se aproximava e o cansaço voltara com o álcool e sol. O que fazer? Um colega veio com a idéia brilhante: vamos ao cinema, dormiremos durante o filme.


A película escolhida tinha o sugestivo nome de “Entrando Numa Fria”. Eu apaguei durante o trailer de outros filmes, mas acordei no início do principal e não dormi mais, mergulhado na magia da sétima arte. A comédia em que Ben Stiller se vê às voltas com o sogro interpretado por Robert de Niro era leve, boboca e engraçada. Uma boa maneira de colocar o cérebro em “stand by”, ainda que ele não tenha realmente desligado. Estávamos prontos para o show. Foi passar no McDonald’s para um lanche e um banheiro e seguir para a Cidade do Rock.


A noite de 20 de janeiro foi a mais vazia daquela edição, teve apenas metade do público da anterior (a dos metaleiros) e da posterior, com Red Hot Chili Peppers fechando o festival. Achei ótimo. Sem filas para comprar cerveja e para ir ao banheiro, fomos curtindo as apresentações anteriores da Dave Mathews Band (muito boa) e de Sheryl Crow (correta). Estava um clima agradável, tranqüilo, a temperatura amena. Eu mal podia imaginar o que viria a seguir.


Vale frisar que a apresentação do Neil Young & The Crazy Horse começou com o som mais embolado da história. Por alguma bobeira do responsável pela mesa de som, os primeiros segundos começaram com um nó sonoro incompreensível. Que se desatou ao final do primeiro coro de “Sedan Delivery”. Quando a guitarra entrou logo depois com uma nota aguda e longa, foi como se eu tivesse levado um direto no queixo. Passado o contratempo, a qualidade técnica do equipamento usado no festival se mostrou em sua plenitude. Eu nunca tinha ouvido algo parecido.


Mais que o som, havia a música. O palco do Rock in Rio 3 era gigantesco, mas Neil Young e sua banda tocaram o tempo todo a um metro de distância uns dos outros. Não havia pirotecnia, efeitos especiais, vídeos mirabolantes no telão, macaquices, figurino ou qualquer recurso do gênero. Apenas quatro caras fazendo um rock ‘n roll de primeira e curtindo cada segundo disso.


“Hey, Hey, My My” levantou a galera e show seguiu na mesma toada nas três canções seguintes. O ponto alto veio a seguir. Na introdução longuíssima de “Cortez The Killer”, os isqueiros se acenderam e muitos olhos se fecharam para curtir cada nota dos solos de Neil Young. A comunhão com o público era total e foi celebrada quando ele cantou “... and the women they were beautiful” apontando para a multidão.


A mais longa da noite veio a seguir. “Like a Hurricane” teve uma parte dedicada apenas à sons distorcidos das guitarras de Neil e Poncho Sampedro, num momento em que uma lua branca abriu caminho sobre as nuvens para iluminar o palco, como que abençoando aquela única celebração musical.


O bis já rolava com “Down By The River” quando todos os acontecimentos do dia se assentavam na minha cabeça. A completa falta de expectativa, o cansaço de uma noite mal dormida, o dia fantástico numa cidade que justifica o adjetivo “maravilhosa”, a companhia agradável de amigos especiais e as duas horas de som e música de qualidade irretocáveis. Uma jornada marcante, para lembrar para o resto da vida.


+++


Relembre os outros shows da série, que se encerra aqui:

2 – Madredeus
3 – Paul McCartney
4 – Rolling Stones
5 – Living Colour
6 – Pink Floyd
7 – Faith No More
8 – Mutantes
9 – Stevie Wonder
10 – Ten Years After
11 – Iron Maiden
12 – Page & Plant
13 – Titãs
14 – Chick Corea
15 – Deep Purple

12 comentários:

Antonio Mietto disse...

Maluco! Eu não conhecia "Cortez The Killer"! Fui ao YouTube, claro, e fui parar lá longe com a tal introdução interminável...

Quanta coisa boa que a gente desconhece, não? Ainda bem que de vez em quando aparece um amigo pra diminuir um pouco a ignorância da gente! Te devo essa, cara! :O)

e-braço!!

Ron Groo disse...

Eu já imaginava que o primeiro show deveria ser Neil Young, no seu Grooveshark sempre tem algo do cara (desta vez o maravilhoso Harvest está lá inteirinho para deleite dos que gostam e para os que não conhecem começarem a gostar) e os videos da TV BLOGO que sempre pintavam com coisas do velho Neil.
Eu pensava... Ico não deve ter perdido o show do homem por aqui.
Eu perdi, uma pena... Mas eu perdi.

Fico imaginando a longa Down by the river ao vivo. A doçura de After the gold rush.
A dor de Only love can break your heart.
A faiscante e politizada Ohio... Cara, poucas bandas ou cantores me sensibilizam como Young, a ponto de ficar engasgado ao ouvi-lo tocando Buffalo Springfield Again apenas com violão. Deixo o link aqui pra quem quiser ouvir.

http://www.youtube.com/watch?v=kwp_4JzXiao&feature=related

Maravilha de primeiro lugar.

jucavasconcelos disse...

Legal, confesso que me assustei qndo vi Madredeus e tal, mas sua lista tem pelo menos uns 4 q estariam na minha, mas o Macca estaria ou em primeiro ou em segundo..
abraços!

tibone disse...

Bela escolha, nunca vi o homem ao vivo, mas gosto bastante da música dele.
Vi esse show pela Tv, e gravei num VHS que não tenho mais, foi-se junto com o video-cassete por sinal.

Mas enfim, bela escolha e puta lista.
Não conheço apenas o Madredeus, o resto só coisa fina.

Paulo disse...

A galera voltando junto do palco na hora que o mestre começou a aula foi uma cena que nunca vou esquecer..

Foi o melhor show da minha vida..

Klauss disse...

Nossa! Tem 3 shows que eu perdir de ver, que eu trocaria uns 3 dos que eu vi para os ter visto:

O Dio que eu perdi DIVERSAS vezes (ele sempre vinha em julho, quando eu trabalhava no Festival de Teatro que acontecia todo ano aqui em Blumenau), O jethro Tull (que ainda tenho esperanças de ver) e o Neil Young, que só veio desta vez. Eu acabei indo ao Rock In Rio no dia anterior, num bate e volta (nunca mais!) até o rio (1400 km daqui de Blumenau!!!). Fui ver o Iron Maiden, mas queria ter visto o Neil Young. O problema é que as pessoas que conhecem e gostam de Neil Young não lotam um ônibus, enquanto pra ver o Iron Maiden lotaram quatro! Nos dias de hoje eu me viraria de outra forma, mas com 19 anos, eu não tinha muito mais opção...

A minha lista de shows é a seguinte:

1 – Rush (2002)

2 – Dream Theater (2005)

3 – Focus (2005)

4 – Kiss (1999)

5 – Aerosmith (2007)

6 – Diós Salve la Reina – Queen Cover (2008)

7 – Deep Purple (2006)

8 – The Beats (2006)

9 - Judas Priest (2005)

10 - AC/DC (2009)

11 – Rita Lee (2002)

12 – Rob Halford (2001)

13 – Shaman (2002)

14 – Patrulha do Espaço (2002)

15 – Iron Maiden (2001)


Abração, Ico!!!

Klauss disse...

PS.: Perdi o Queen + Paul Rodgers em 2008 por causo da enchente que deu aqui em SC na mesma semana. Consegui ligar e cancelar o Ingresso que eu tinha comprado com 40 dias de antecedência!

Ico (Luis Fernando Ramos) disse...

Boa lista, Klauss! Rush ainda me falta e Focus foi um que quase entrou na minha Top 15. Legal!

Antonio, acho que uma das melhores coisas da vida é descobrir músicas boas, fico feliz que vc tenha curtido essa pequena obra prima do Neil Young.

Abs!

Pedro Araújo disse...

Caramba, Ico, o numero 01 não poderia ser melhor...

Coincidência, recentemente baixei muita coisa do Neil Young em mp3 pra tentar completar uma coleção incompleta, iniciada em CDs e LPs.

Muito legal você apresentar pra turma esses caras menos conhecidos por aqui, mas que são fundamentais pra história recente da música.

Uma dica: tempo atrás aluguei um dvd com um show dele em nashville (acho que foi lá), já com ele bem mais velhinho, logo depois da operação pra resolver um aneurisma que ele teve. De chorar, como o Groo disse lá em cima. Recomendo com louvores, especialmente pra quem gosta das coisas mais calmas/folk/country do Neil Young.

O que me leva a uma pergunta: no show do rock'n'rio teve set acústico, ou foi tudo com o Crazy Horse?

abraço pra todo mundo aí!

pedro

Klauss disse...

Ico,

Esse show que vi em 2005 foi o show da volta do baterista clássico -- Pierre van der Linden. Muito melhor que o batera da "volta" do Focus em 2002...

Olha, Focus hoje em dia faz parte da minha "santíssima trindade".

Ah, sim os Stones tb perdi, mas depois do Iron maiden no Rock In Rio em 2001, eu não teria pique pro show de Copacabana. O que não quero perder é o Macca... Esse é meu grande sonho de consumo! heuehuehue

Lucas Carioli disse...

Neil Young rock's a Lot! Como você mesmo disse, um cara que não precisa de pirotecnia para brilhar como um holofote no palco.

Aliás que belíssimo relato hein? Nunca pensou em ser escritor?

Rafael Fonseca disse...

Eu fui nesse dia, meio sem querer. Cheguei no Rio no sábado, umas 10 da manhã, saindo de SP de carro com um primo e um amigo. Fomos pro show do domingo, mas achamos um hotel em Botafogo, perto de um ponto de venda de ingresso e ficamos sabendo que ainda tinha muitos ingressos pro sábado. Chegamos no final do Kid Abelha e também vimos Sheryl Crow (bem ruim, pra mim) e Dave Mathews. Já Neil Young foi sensacional, melhor que os shows do domingo.